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Lista Interativa #2 – Batman no Cinema: Da Pior a Melhor Adaptação Live-Action

Preparem-se para um passeio pela fatalista e violenta Gotham City com o Cavaleiro das Trevas em suas mais diversas versões.
Lista Interativa #2 – Batman no Cinema: Da Pior a Melhor Adaptação Live-Action

Chegou a hora meus colegas Loucos por Filmes; a hora de mais um resultado da coluna “Lista Interativa”. Desta vez, fomos embalados pelo lançamento do spin-off de Uma Aventura LEGO baseado em um dos personagens de maior sucesso daquele divertido filme: LEGO Batman: O Filme. A animação, aliás, já é enorme sucesso de público e crítica (conseguiu impressionantes 91% de aprovação no “Rotten Tomatoes”).

O Batman não é somente um dos super-heróis mais conhecidos e amados de todo o mundo, como também um dos que mais tiveram adaptações multimídia a partir de sua origem nos quadrinhos. Criado em 1939 por Bob Kane e Bill Finger, o “Homem-Morcego” continua tendo suas histórias em quadrinho publicadas pela DC Comics, além de já ter tido uma famosa série de TV live-action na década de 60; mais de 10 séries de cartoons (sendo o mais famoso Batman: A Série Animada, dos anos 90) e seis animes; além das mais de 25 adaptações para videogames e os diversos filmes produzidos para o cinema (todos, em maior ou menor grau, sucessos de público).

E como a opinião do nosso público Louco por Filmes é muito importante para o site, decidimos utilizar as preferências de vocês para ranquear os filmes desse sombrio super-herói. É importante frisar que foram considerados no ranking apenas os filmes live-action do personagem, ficando de fora, portanto, animações como Batman: A Máscara do Fantasma e A Piada Mortal. Além disso, também foram desconsiderados filmes que não tivessem Batman como personagem central, como no caso de Esquadrão Suicida.

A enquete contou com 3629 votos dos frequentadores do site. Para o desempate de filmes que receberam a mesma quantidade de votos, foi utilizada uma média das notas que os filmes receberam no “Rotten Tomatoes” e no “IMDb”.

Preparem-se para um passeio pela fatalista e violenta Gotham City com o Cavaleiro das Trevas em suas mais diversas versões. Aqueçam os motores do Batmóvel, não esqueçam o cinto de utilidades, escolham um uniforme que não contenha “batmamilos” (Joel Schumacher pira!!!) e evitem toda a sedução da Mulher-Gato para conseguirem superar toda a insanidade do Coringa.

9 – Batman & Robin (Idem, 1997) de Joel Schumacher

3% dos votos

Desde o início já dá para perceber que Batman & Robin seria um filme anda pior que o antecessor. Afinal, se em Batman Eternamente Joel Schumacher esperou até o clímax para fazer o close na Batbunda; em Batman & Robin temos close na Batbunda, Batmala e Batmamilos logo nos primeiros minutos, além dos respectivos no corpo do Robin também. Parece que o diretor resolveu abraçar de vez a esculhambação.

A verdade é que, com o sucesso de bilheteria do filme anterior (apesar do fracasso de crítica), a Warner Bros, deu a Joel Schumacher a mesma liberdade artística que havia dado para Tim Burton realizar Batman – O Retorno (apesar de Schumacher alegar que trabalhou sob pressão do estúdio para criar algo mais comercial e infantil). A diferença é que Burton era um diretor competente em sua visão, Schumacher não. Em Eternamente Schumacher já demonstrava uma falta de respeito absurda com o universo do Homem-morcego ao filmar seus vilões como caricaturas infantis; aqui ele demonstra não ter consideração nem pelo herói.

Claramente filmado como um filme de comédia, e não como um filme de ação, Batman & Robin exibe o pior dos roteiros de toda a franquia. Não há uma fala sequer no filme que demonstre que aqueles personagens podem ser levados à sério; tudo descamba em piadas e frases de efeito imbecis, desde a dinâmica de Batman, Robin e Alfred até os ataques de Mr. Freeze a Gotham City. E se os diálogos já não fazem nenhum sentido, a história também não, já que o plano de dominação de Mr. Freeze e Hera Venenosa aqui (congelar a cidade? Dominação botânica? Sério?) consegue ser mais vergonhosos que as aspirações (já incompreensíveis) do Charada e do Duas-Caras no filme anterior.

Além de motivações estapafúrdias, as ações dos vilões e heróis também são incrivelmente bregas. Se juntar o foguete espacial do Mr. Freeze, a estufa de plantas de Hera Venenosa (com direito a uma versão pobre de Audrey II de A Pequena Loja de Horrores), o surf espacial de Batman e Robin e a versão “Ed Wood” do soro do Capitão América que transforma Bane em um chofer da Hera-Venenosa, parecia mais que eu estava assistindo a um show musical trash de uma produção sub-Broadway, como as vistas em Os Embalos de Sábado a Noite Continuam (!!!). E eu nunca achei que faria essa correlação em um filme do Batman.

Aliás, trash é uma palavra-chave para se destacar nesse filme, já que, apesar deter MUITO dinheiro para trabalhar, Schumacher cria uma ambientação extremamente pobre em seu conceito. As sequências de ação são incrivelmente cômicas (involuntariamente, na maioria), assim como em um filme dos saudosos “Trapalhões” (reparem nos efeitos sonoros utilizados na cena que Bane expulsa os marginais do covil de Hera-Venenosa). Até mesmo os acessórios que Batman utiliza aqui são risíveis (como segurar o riso frente às botas que possuem lâminas de patins de gelo acopladas?). Sem contar que todos os cenários são incrivelmente falsos e parecem ter saído de um teatro infantil.

O que é ainda pior, é a vergonha-alheia que sentimos ao ver todos aqueles atores se prestando a tal papel. Arnold Schwarzenegger nunca foi um bom ator, mas já se saiu bem em papéis adequados (como no caso do T-800 de O Exterminador do Futuro); aqui ele interpreta uma versão vilanesca de seu Conan de começo de carreira. E pensar que o ator havia afirmado durante o lançamento de True Lies que nunca mais interpretaria um vilão no cinema; voltou justamente para esse filme. Já George Clooney transparece a todo momento ter se arrependido amargamente de estar envolvido nesse projeto, já que não faz o mínimo esforço para atuar de verdade. Chris O’Donell se mostra limitado como sempre, ao contrário de Alicia Silverstone, que havia exibido muito carisma em As Patricinhas de Beverly Hills e não conseguiu repetir o mesmo feito aqui. Já Uma Thurman fica na pior posição, já que sua personagem é a mais ridícula de todas (tanto em desenvolvimento, quanto em caracterização). Thurman está tão caricata quanto Jim Carrey e Tommy Lee-Jones no filme anterior.

Se Batman Eternamente já parecia um carro alegórico de escola de samba de tão exageradamente colorido e histérico, Batman & Robin é um desfile de carnaval inteiro. Esse segundo filme com Schumacher no comando traz uma galeria de fantasias de heróis e vilões ainda mais caricaturais (os colantes de Hera-Venenosa são um destaque negativo); uma Gotham City que parece ser repleta de cores do arco-íris (principalmente rosa); covis de vilões repletos de cor neon e detalhes “fofos” (a pantufa de urso polar do Mr. Freeze é de dar dó) e fantasias de heróis que insistem em ficar mais “moderninhos” a cada nova ação.

Enfim, Batman & Robin merece a última posição do ranking, já que é lembrado constantemente como um dos piores filmes de super-heróis de todos os tempos. Não há absolutamente nada de bom nesse filme. E olha que eu teria, pelo menos, um motivo para colocá-lo entre os meus guilty pleasures, já que o Batman sempre foi meu herói favorito e esse filme foi um dos primeiros que tive a oportunidade de assistir no cinema. Mas até como “prazer culposo” o filme extrapola.

Afinal, o que achar de um filme que concorre a uma premiação do Framboesa de Ouro na categoria de “Desrespeito à Vida Humana e à Propriedade Privada” e pelo qual o próprio diretor se desculpou publicamente anos após o lançamento?

IMDb: 3,7/10. Rotten Tomatoes: 11%.


8 – Batman Eternamente (Batman Forever, 1995) de Joel Schumacher

3% dos votos

Após toda a liberdade de criar um filme completamente autoral do Homem-morcego em Batman – O Retorno, Tim Burton não voltou para dirigir o terceiro filme do herói. Acredito que a bilheteria aquém do esperado do filme anterior tenha sido significativa para a Warner Bros., que gostaria de criar algo com apelo mais amplo (principalmente para crianças) e passou a não aceitar mais a visão sombria que Burton tinha do Batman.

Burton ficou somente como produtor (seu nome ainda tinha muito apelo para os fãs) e o PÉSSIMO Joel Schumacher foi chamado para dirigir a produção. Schumacher era responsável pelos incríveis Os Garotos Perdidos e Um Dia de Fúria (também da Warner) e vinha do sucesso de O Cliente. Inclusive, o PÉSSIMO roteirista Akiva Goldsman (que de bom só fez Uma Mente Brilhante), também de O Cliente, veio para se juntar ao time de roteirista formado pelos PÉSSIMOS Lee Batchler e Janet Scott Batchler (que nunca mais fizeram nada de relevante).

Com um time desses não teria como dar certo não é!? Pois não deu. Toda a aura de fantasia dark e opressora que Burton havia criado para aquele universo foi transformado em um festival de cores vibrantes, luzes, neon, fantasias e brilho que destoa completamente dos poucos momentos sérios e dignos do filme. Segundo Joel Schmacher, ele sempre foi um fã de Batman e, inclusive tinha vontade de criar uma versão cinematográfica da HQ Batman: Ano Um. Porém, ele parece dar mais valor ao seriado camp dos anos 60 de Batman.

O grande problema é que o seriado de Batman utilizava a aura trash e cômica como forma de contornar a limitação dos recursos disponíveis e abraçava a própria breguice. Aqui, Schumacher quer que continuemos levando Batman à sério mesmo apostando em uma atmosfera completamente caricata e exagerada que torno tudo quase impossível de se assistir.

A começar pelos tons completamente contrastantes das atuações. Se por um lado Val Kilmer faz o que pode com um personagem mal escrito e consegue exibir talento tanto como Bruce Wayne quanto como Batman, ao levar aquele personagem com a seriedade necessária. O Charada de Jim Carrey e o Duas-Caras de Tommy Lee Jones parecem dois palhaços de teatro infantil (até pelo figurino completamente absurdo em seu exagero) que ficam disputando quem consegue fazer mais caretas, gargalhadas megalomaníacas e citar as (horrendas) falas em tom histriônico. O herói e os vilões desse filme parecem estar vivendo em universos completamente diferentes: comparem os momentos dos vislumbres soturnos de Bruce Wayne sobre seu passado mórbido com a dinâmica escrachada dos vilões em seu covil. Schumacher cria um clima completamente desconjuntado ao seu filme.

E se a caracterização dos vilões já é extremamente brega em seu exagero, chega a ser irritante o modo como Schumacher quer utilizar uma estética cada vez mais colorida e brilhante ao seu filme para contrastar com o tom gótico de Tim Burton (e, potencialmente, vender mais bonequinhos). Desde o terno de Duas-Caras (que transita entre estampas hiper-coloridas de zebra e “oncinha”), até a fortaleza do Charada (cheia de holofotes, piscas-piscas e sofás com estampas de interrogações), o filme parece um carro alegórico de escola de samba.

Ao menos Schumacher demonstra um pouco de coerência estética com todos os seus recursos, já que a fotografia de Stephen Goldblatt potencializa adequadamente as cores diversificadas daquele universo; além do design de produção completamente afetado de Barbara Ling (que se superou em Batman & Robin) e o figurino de Ingrid Ferrin (parceira de Schumacher) e Rob Ringwood (que, inexplicavelmente também trabalhou em Batman – O Retorno). E dá-lhe capangas com roupas de couro com zipers e metais sadomasoquistas inexplicáveis; marginais de gangue com maquiagem fluorescente (!), armas com detalhes em neon (!!); cenários coloridos e absurdos que parecem ter saído de um desenho dos Looney Tunes (reparem no ridículo covil do Duas-Caras) e até Batmamilos (!!!) implementados na fantasia (sim, fantasia, não armadura) de Val Kilmer e Chris O’Donell. Aliás, quem é o alfaiate de Charada? Como ele consegue uma gama de fantasiais tão vasta e tão elaborada, com direito a terno de pisca-pisca? RuPaul Charles ficaria com inveja.

Talvez por influência da produção de Burton, o filme ainda pontue algumas passagens com tons de gótico. Gotham City ainda exibe alguma arquitetura gótica através de prédios, gárgulas e estátuas; quando os holofotes laranjas e verdes não tomam conta da tela.

Além de uma estética completamente infundada para o personagem, e direção de atores BEM ruim, Schumacher também não consegue deixar as cenas de ação minimamente interessantes. São todas montadas de forma confusa e com coreografia de lutas mal realizadas.

Aliás, mal realizada também é o desenvolvimento dos personagens. A Chase Meridian de Nicole Kidman é um retrocesso abismal em relação ao feminismo progressista da Selina Kyle do filme anterior. A psicóloga é a tradicional mocinha em perigo desinteressante e passiva que, praticamente, se entrega ao herói em uma bandeja só porque ele é super-herói. Já o Robin é completamente unidimensional, o que é ainda piorado pela falta de talento de Chris O’Donell.

E se a trilha sonora antológica de Danny Elfman foi substituída pela composição chata e histriônica de Elliot Goldenthal, ao menos há uma canção-tema interessante de U2: “Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me”.

Merecendo essa posição no nosso ranking, com certeza Batman Eternamente é uma das obras mais vergonhosas realizadas sobre o personagem. Porém, os envolvidos no filme (com exceção de Joel Schumacher) podem ficar tranquilos, já que sempre existirá Batman & Robin para tomar o lugar de pior filme do Batman de todos os tempos.

IMDb: 5,4/10. Rotten Tomatoes: 40%.


7 – Batman – O Homem-Morcego (Batman: The Movie, 1966) de Leslie H. Martinson

3% dos votos

“Santa sardinha Batman!”, a versão camp do Homem-morcego também está na Lista Interativa. O que não seria novidade, já que a versão anos 60 do nosso herói fez com talento o que o atual LEGO Batman – O Filme está fazendo: brincar com as histórias do Homem-morcego de forma bem-humorada e satírica sem ridicularizar sua origem.

O universo do Batman de Adam West é como se fosse uma mistura dos filmes de 007 de Roger Moore se fosse protagonizada, e tivesse os personagens atrapalhados, de A Pantera Cor-de-Rosa (1963). Não dá para ficar mais divertido que isso.

O diretor Leslie H. Martinson assume o caráter caricatural do seu universo e trabalha com uma equipe de arte que nunca nos deixa esquecer que estamos vendo, praticamente, um desenho animado de carne e osso. Apesar da evidente limitação de recursos, os cenários são sempre cheio de cores e detalhes inteligentes que ajudam a determinar o tom aventuresco e humorado da história. A riqueza de detalhes vai desde os armários e prateleiras com placas específicas dos pertences de cada um dos vilões no covil dos mesmos (com cores e tipografia características), até o submarino do Pinguim que exibe uma central de comando cheia de visores luminosos nostálgicos, um periscópio em formato de ave e siais sonoros que nos remetem às vocalizações de pinguins.

Aliás, os próprios atores que interpretam os vilões são hábeis em apostar no exagero e na caricatura para tornar aquela situação mais leve, apesar de cada um deles possuir sua individualidade. Cesar Romero (o primeiro Coringa) mantém as expressões insanas do personagem e parece se divertir com as situações por mais que elas estejam contra ele. Burgess Meredith pinta o Pinguim como um vilão sórdido e temperamental com uma fisicalidade (e sonoridade) divertidas pelo animal de origem. Já Frank Gorshin é eficaz ao remeter a inteligência insana de Charada, enquanto Lee Meriwether sempre mantém a atenção em sua Mulher-Gato, impondo-a com postura sensual sem vulgarizá-la e que utiliza com uma sagacidade singular para ficar a frente de seus parceiros.

Apesar de a história ser um pouco mais longa que deveria, o diretor Martinson consegue implementar boa energia sempre que pode, principalmente pelos momentos de humor autoparódicos inusitados. Desde a luta inicial de Batman contra um tubarão de borracha (que é vencido com um Bat-spray repelente de tubarões) até a piada final com uma inteligência insuspeita pela crítica política, e pela reação evasiva (HILÁRIA) dos heróis, o filme nos ganha pelo carisma e sinceridade. Martinson ganha o público ao brincar com o próprio absurdo (como ao criar um plano específico para focalizar a diversidade exagerada de repelentes do Batman) e até ao dar espaço para os próprios protagonistas brincarem com o tom satírico do filme.

Desta forma, o Batman de Adam West mantém sempre a pose de sabedoria e autoridade, mas utiliza essas mesmas características para criar um humor inteligente; como ao sussurrar para Robin sair de fininho com a Bat-corda após uma experiência malsucedida. Já o Robin Burt Ward dita o tom “Leslie Nielsen” da aventura (considerando a parceria do ator com o trio ZAZ em Apertem os Cintos...O Piloto Sumiu! e Corra que a Polícia Vem Aí!). Ao reagir a todos os acontecimentos com o máximo de seriedade possível, Ward consegue elevar o tom satírico da comédia ao tornar tudo aquilo mais exagerado. Um toque de gênio.

Com uma trilha-sonora que marcou época e é lembrada até hoje (bem como os letreiros com onomatopeias), Batman – O Homem-morcego é uma versão intencionalmente brega e bem-humorada do universo do super-herói. Afinal, LEGO Batman tem uma origem além de Uma Aventura LEGO.

IMDb: 6,5/10. Rotten Tomatoes: 80%.


6 – Batman: O Filme (Batman, 1989) de Tim Burton

3% dos votos

Até o lançamento do primeiro filme de Tim Burton sobre o Homem-Morcego, o maior exponencial de super-herói no cinema era o icônico Superman: O Filme de Richard Donner. Quando se tratava de Batman, o mundo inteiro só lembrava do seriado cômico camp protagonizado por Adam West nos anos 60. Felizmente, tudo mudou quando a Warner Bros. resolveu criar uma versão cinematográfica embalada pelo sucesso das novas HQs sombrias do herói, como O Cavaleiro das Trevas e Batman: Ano Um.

Desde o início, Batman foi um projeto muito duvidoso. Tim Burton era um novato em Hollywood, com apenas um sucesso de comédia e humor negro no currículo (Os Fantasmas se Divertem). Burton escalou Michael Keaton (seu querido Bettlejuice) para o papel principal, o que gerou uma revolta nos fãs pelo ator não possuir o “porte” necessário para interpretar o herói. Burton também lutou contra os produtores para ter seu parceiro Danny Elfman para compor a trilha sonora do filme, já que o compositor nunca havia trabalhado em um filme desse porte. Sem contar que Jack Nicholson só aceitou participar do filme por uma quantia ENORME de dinheiro, e impôs várias regras ao seu ritmo de trabalho.

Com o lançamento do filme todos puderam comprovar que a escolha de Tim Burton como diretor, e todas suas exigências posteriores, foram o principal fator para o sucesso do filme (a maior bilheteria mundial de 1989). Mas Batman: O Filme está longe de ser um filme perfeito.

O principal problema dedo longa é o roteiro de Sam Hamm (Monkeybone – No Limite da Imaginação) e Warren Skaaren (Os Fantasmas se Divertem). Os personagens, com exceção do Coringa, são homogeneamente mal construídos e exibem uma falta de desenvolvimento patente. Durante toda a duração do longa, nós não conseguimos compreender quem realmente é Bruce Wayne, porque ele resolveu se transformar em Batman, quais são suas motivações ou como ele conseguiu toda aquela tecnologia (algo extremamente bem feito em Batman Begins, por exemplo). Há um breve momento que vemos o flashback do assassinato dos seus pais, mas é só.

Outros personagens interessantes, e muito importantes das HQs, são desperdiçados durante o filme. O mordomo Alfred (apesar do carisma do veterano Michael Gough) e o Comissário Gordon (Pat Hingle), por exemplo, entram e saem do filme completamente desperdiçados; especialmente o último, que sempre foi um aliado importante do herói.

Até mesmo o Coringa desse universo não tem um objetivo bem firmado pelo roteiro, e suas intenções nunca são bem esclarecidas (ele quer dominar Gotham City? Matar todos os cidadãos?). É fato que o vilão é um maníaco psicopata insano acima de tudo, e que procurar uma lógica em suas ações seria algo tão insano quanto, porém, Christopher Nolan provou em O Cavaleiro das Trevas que mesmo um vilão maníaco como o Coringa consegue ter uma coerência inteligente, e assustadora, em suas ações.

Além disso, o roteiro ainda perde um tempo precioso com crises amorosas desnecessárias (porque Bruce Wayne esnoba Vicki Vale após uma noite de amor?), e ainda coloca os personagens tomando decisões absurdas (como a revelação de identidade secreta implausível naquela situação). Além do mais, porque Batman não resolveu destruir uma determinada fábrica desde o começo do filme, se era tão simples assim?

No entanto, a direção de Burton consegue redimir MUITO dos erros do roteiro. Com um estilo gótico único que só seria superado em Batman – O Retorno, o diretor nos joga em um ambiente completamente atmosférico no tom dark e assustador justo aos quadrinhos de influência. O aspecto visual do diretor funde MAGISTRALMENTE elementos realistas (como os ambientes urbanos marginais e violentos de grandes metrópoles reais) com outros mais fantasiosos (como a arquitetura steam-punk e gótica de Gotham City e a mansão Wayne).

A aposta de Burton em um tom mais sombrio fica clara desde os créditos iniciais, que transitam entre corredores obscuros de um labirinto ameaçador que acaba se mostrando ser o próprio símbolo do herói. Tudo isso embalado pela imponente e emblemática trilha sonora de Danny Elfman, que já dita a grandiosidade daquele universo unido ao seu tom fantasioso e aterrorizante.

A fotografia de Roger Pratt (parceiro de Terry Gilliam) aproveita o máximo de sombras e escuridão das ruas e becos de Gotham City (envolvidos em neblina, fumaça e construções decrépitas) para trazer ao filme em bem-vindo ar de film noir dos anos 40; uma influência bem adequada se formas levar em conta a personalidade sombria de Batman, que é um detetive antes de tudo.

Sempre criando planos e enquadramentos inspirados, Burton é hábil ao construir a persona de Batman, desde o início do filme, como se fosse um espectro onipresente e monstruoso; o modo como os vilões veem o herói. A câmera de do diretor explora a imagem do herói em meio a silhuetas, escuridão e cortinas de fumaça como se fosse um monstro de filme de terror.

O mesmo pode ser dito sobre o Coringa de Jack Nicholson, que é apresentando, inicialmente, com um suspense macabro (sua cena de reconstrução fácil é amedrontadora) e depois continua nos assustando por sua figura grotesca e pela energia insana com que Nicholson impõe ao vilão. Suas ações transitam adequadamente entre o cartunesco e o sombrio (a sequência do museu é um bom exemplo), mantendo o vilão sempre com uma carga de violência e maldade imprevisíveis.

Infelizmente, Michael Keaton não se sai tão homogeneamente bom quanto são parceiro de elenco, já que se monstra muito à vontade, misterioso e autoritário como Batman, mas deslocado como Bruce Wayne. Já Kim Basinger até começa a tentar criar uma personagem feminina interessante e independente, mas à partir da metade do filme, ela se limita a gritar e ficar histérica.

Burton também consegue filmar bem as cenas de ação e lutas, expondo em as artimanhas e equipamentos do herói sem cair para o cômico. A exceção fica para a cena final na catedral de Gotham City, que perde muito do ritmo e chega a ficar monótona em determinados momentos.

Conceitualmente memorável, Batman é um filme que merece respeito pelo modo corajoso e progressista como nos apresentou um universo de super-herói.

IMDb: 7,6/10. Rotten Tomatoes: 72%.


5 – Batman – O Retorno (Batman Returns, 1992) de Tim Burton

3% dos votos

Após o estrondoso sucesso do filme de 1989, e mais o reconhecimento que Tim Burton ganhou como autor após o pequeno clássico Edward Mãos-de-Tesoura, a Warner Bros. deu “carta branca” para o diretor tomar as decisões criativas no próximo filme do Batman. Desta vez, o apego de Burton por filmes de monstros clássicos (como Nosferatu) e o cinema de terror gótico da Hammer tomam conta do universo de Batman, resultando no exemplar mais autêntico da franquia cinematográfico do super-herói.

Apesar de o estúdio ter se arrependido posteriormente por ter dado tanta liberdade ao diretor, já que o filme perdeu muito nas bilheterias por não ter apelo suficiente para crianças; a crítica especializada e os cinéfilos entraram em êxtase com o aspecto visual expressionista e MUITO mais gótico e sombrio que o filme anterior. Essa seria a visão completamente pessoal de Tim Burton sobre Batman, sem precisar de alívios cômicos forçados ou músicas do Prince deslocadas.

Não deixa de ser uma decepção, porém, que o roteiro de Daniel Waters seja tão superficial na maior parte do tempo, já que ele foi responsável por um dos roteiros mais originais e inteligentes dos anos 80, Atração Mortal. Aqui, Waters repete os mesmos erros do roteiro anterior: Batman/Bruce Wayne não possui o desenvolvimento necessário; o vilão principal do filme (Pinguim) não possui uma boa coerência, ou mesmo lógica, em suas ações e planos (em alguns momentos chega a ser risível o “grande” plano do vilão) e o filme se estende demasiadamente por alguns momentos, principalmente na relação entre o Pinguim e Max Shreck (homenagem aos Nosferatu original).

Em contrapartida, a “criação” da Mulher-Gato nesse filme é como um manifesto feminista que usa o pastiche para denunciar a ignorância dos machistas. Secretária (profissão, por excelência, feminina) e “certinha” por imposição do “sistema”, completamente descontente com sua vida, Selina Kyle é assassinada por seu patrão abusivo por tentar fazer uma coisa certa. Ao ser ressuscitada por figuras felinas que simbolizavam o que ela mais almejava para sua vida (reparem no breve, mas revelador, “diálogo” que ela tem com sua gatinha no início do filme), Selina literalmente destrói todos os símbolos de obediência e decoro impostos às mulheres e usa sua persona para desafiar TODOS os homens presentes naquele universo. A roupa sadomasoquista para lutar contra “homens” é um tapa na cara da sociedade hipócrita que quer ditar um código de conduta para mulheres. Além disso, o destino trágico da personagem é uma analogia de como mulheres independentes são preconceituosamente combatidas em um mundo dominado por homens. A Mulher-Gato é, de longe, o elemento mais fascinante dessa história.

Aliás, a personagem se torna ainda mais grandiosa graças à interpretação sensual e intensa de Michelle Pfeiffer. Encarnando com visceralidade a dualidade daquela personagem (vilã por um lado, justiceira por outro); Pfeiffer consegue expressar o conflito psicológico daquela pessoa e o drama de reconhecer tudo que está fazendo de errado (a cena do baile com Bruce Wayne é ESPETACULAR); apesar de, ao mesmo tempo, reconhecer gostar daquilo. A fisicalidade de Pfeiffer e os trejeitos felinos são perfeitos para a personagem, assim como uma sexualidade pulsante. Pfeiffer é a intérprete que mais brilha aqui, já que conseguiu dar um pouco mais de conflito e tridimensionalidade ao seu personagem.

Michael Keaton continua bem como Batman, mas ainda apagado como Bruce Wayne (sua inexpressividade chega a irritar em alguns momentos, principalmente no ato final) Só mesmo Michelle Pfeiffer consegue talentosamente demonstrar que o interesse de Selina por Bruce é mais como uma válvula de escape de sua vilania, que um interesse amoroso propriamente dito. Já Christopher Walken consegue fazer de Shrek o político cínico e nojento sempre com um tom de ironia e comicidade velada que o torna interessante. Por fim, Danny DeVito se dá ao máximo como Pinguim, sendo auxiliado por uma maquiagem FANTÁSTICA de Rick Baker, mas na maior parte do tempo ele fica exageradamente caricato, tornando aquela figura muito mais grotesca do que verdadeiramente ameaçadora, o que é uma pena.

Assim como no primeiro filme, a direção de Tim Burton consegue captar nossa atenção e redimi alguns erros de roteiro. A começar pela aclimatação que se torna um verdadeiro pesadelo gótico expressionista (reparem nos planos que exibem a ASSUSTADORA Mansão Wayne). Aqui, Burton investe mais no lado do expressionismo dos filmes de terror dos anos 20 e 30 do que no clima noir do filme anterior. Desde a Gotham City (que parece uma visão mais distorcida, fantasmagórica e gótica de Metrópolis) até a Mansão Wayne (um verdadeiro castelo sombrio que faria inveja às produções de terror da Hammer), Burton estabelece bem o seu universo opressor e dark para que possamos enxergar seus personagens absurdos, mas adequados àquele universo. E como não se sentir amedrontado por aquela trupe de circo BIZARRA?

A própria fotografia de Stefan Czapsky (parceiro de Burton em obras como Edward Mãos-de-Tesoura e Ed Wood) nos apresenta um avanço em relação à anterior. Além de apostar em uma paleta monocromática que enaltece o teor sombrio daqueles ambientes e dos figurinos sugestivos dos personagens, há um certo refinamento de clareza que deixa aquele universo com o tom fantasioso necessário, mesmo que EXTREMAMENTE fantasmagórico (reparem no momento em que a câmera de Burton passeia por um parque decrépito em meio a uma nevasca).

Contando com boas cenas de ação (principalmente as cenas de luta da Mulher-Gato), o filme ainda se beneficia da trilha sonora MAGISTRAL de Danny Elfman, que além do tema principal, ainda cria algumas músicas que abusam de tons doentios e distorcidos assim como seus personagens.

Melhor e mais audacioso que o filme anterior, Batman – O Retorno é uma fantasia gótica e assombrosa que coloca o Homem-morcego em um pesadelo expressionista de vilões grandiosos. E como isto não seria interessante?

IMDb: 7,0/10. Rotten Tomatoes: 80%.


4 – Batman Begins (Idem, 2005) de Christopher Nolan

10% dos votos

Depois de colocarem os filmes de super-heróis em uma ressaca vergonhosa até o lançamento de X-Men: O Filme, foi um alívio ver que os executivos da Warner Bros. resolveram levar a sério seu personagem de quadrinhos mais lucrativo e investir em produções que valorizavam os aspectos artísticos de uma obra cinematográfica de verdade, e não somente as possibilidades mercadológicas. E depois de várias ideias interessantes envolvendo talentos como Frank Miller, Darren Aronosfky e Clint Eastwood, foi com Christopher Nolan que o estúdio criou uma parceria que resultou na melhor saga de super-herói já feita pela sétima arte (não é exagero afirmar isso).

Primeiramente o filme precisava estabelecer um novo universo para o herói, personagens que fariam parte da sua vida e, claro, a sua personalidade. E talvez o fator que mais mereça aplausos em Batman Begins seja o roteiro EXEMPLAR. Parceria entre Nolan (que já havia sido premiado pelo roteiro do sensacional Amnésia) e o irregular David S. Goyer (que vai do cult Dark City ao péssimo Jumper), o roteiro do filme faz o que nenhum filme anterior do Batman havia feito: coloca o herói como destaque e explora com detalhes e humanidade o que o levou a se tornar esse símbolo de vigilância e justiça. Dividido em três atos bem definidos e equilibrados, o roteiro “gasta” quase metade da projeção para nos apresentar o passado mórbido de Bruce, a angústia de conviver com aquela dor, o modo perturbador como tentaria se livrar daquilo, o choque de realidade ao sair de sua vida privilegiada e encarar um mundo de desonestidade e interesses entre os três poderes, e, claro, seu treinamento e estudo árduo para conseguir se tornar aquele herói (passando de práticas no mundo do crime, prisões e uma irmandade vingadora radical).

Esse primeiro ato é inteligente ao não mostrar todos os eventos (passados e presentes) em paralelo, justificando o porquê de Bruce Wayne ter chegado naquele ponto e quais as emoções e conflitos o fizeram se sentir na urgência de realizar algo para implementar a justiça em sua cidade natal. Toda essa jornada é embalada por diálogos inteligentes que extravasam, equilibradamente, emoção e razão; aproveitando para aprofundar cada vez mais seus personagens em camadas complexas (a humanidade de Ducard, mesmo com sua visão radical, é um belo exemplo). Deve-se destacar a excelente montagem de Lee Smith (que também trabalhou em X-Men: Primeria Classe) que consegue transitar de momentos reflexivos (os diálogos de Ducard e Bruce), a momentos dramáticos (a morte dos pais de Bruce) e de ação (seu treinamento com a Liga das Sombras) com um ritmo sempre fluido e de intensidade emocional.

Além disso, o, mais uma vez EXCELENTE, roteiro é hábil ao dar pequenos, mas autênticos, espaços para as figuras decisivas do amadurecimento de Bruce durante esse primeiro ato, como sua amiga Rachel (muito mais que um interesse amoroso), sua figura fraternal Alfred (muito mais que um mordomo) e seu futuro parceiro Gordon (muito mais que apenas um policial). Com o auxílio de interpretações tocantes de todo o elenco, nós testemunhamos que, realmente, Bruce estava em uma jornada de formação como ser humano, e que integrou características e ideias de cada uma daquelas figuras para formar seu alter-ego, seu símbolo de justiça. Sem contar que a caracterização de morcego faz muito sentido para as intenções de Bruce.

Fortemente pautado em um universo sujo, com problemas morais e sociais graves, Batman Begins nos apresenta Gotham City como analogia a qualquer metrópole mundial real, com seus altos índices de violência, desigualdade social, corrupção e desespero; algo que torna o filme ainda mais caro aos espectadores.

Realista também na forma como nos apresenta o treinamento e preparo do herói (as lutas baseadas em kung-fu, os artifícios de teatralidade, a imponente caracterização, os recursos tecnológicos) tudo no filme tem um sentido de ser. Aliás, qualquer pequeno elemento que caracteriza o herói (a caverna, a armadura, a capa, a máscara, as armas) é trabalhado com imenso respeito pelos roteiristas para demonstrarem um propósito bem definido.

Durante o segundo e terceiro ato, o público é brindado pela forma multifacetária como Bruce Wayne é desenvolvido, tendo a inteligência de trabalhar as três personalidades paralelas daquele personagem: o verdadeiro Bruce Wayne, o playboy Bruce Wayne (fachada para não atrair as atenções perigosas) e, claro, o Batman. Esse aspecto, mais que todo o resto, já coloca a trilogia Cavaleiro das Trevas acima de qualquer outra franquia cinematográfica de super-heróis, já que, além de nos mostrar o alter-ego “super” e desenvolver o seu lado “pessoa”, há um ser humano tridimensional e cheia de camadas ali (reparem na tocante cena que Bruce, atuando como playboy, encara Rachel e entra em conflito ao não conseguir revelar para ela eu verdadeiro “eu”). E é por isso que Nolan sempre sairá na frente de qualquer outro cineasta que trabalhou com heróis no cinema: pelo valor que oferece ao desenvolvimento daquele ser humano, justificando a importância de sua identidade “super”.

O diretor consegue balancear bem o realismo e o tom épico de super-herói que o filme necessita. Portanto, veremos uma Gotham City com arquitetura moderna e um viés futurista mascarando uma face de marginalização e violência. A fotografia de Wally Pfister transita entre cinzento ao sépia para enaltecer cada um daqueles ambientes em relação às emoções de Bruce (reparem no início monocromático na prisão asiática); não deixando nunca de demonstrar a “sujeira” realista daquele universo. O resultado das imagens é uma elegância ímpar que une o tom épico de super-heróis a um estilo documental.

Fazendo um elo com film noir, Nolan também é inteligente ao explorar os becos sujos, esfumaçados e chuvosos de Gotam City, além da personalidade corrupta de seus policiais violentos. Aliás, a utilização de efeitos visuais é comedida e talentosa, tornando as ações do herói orgânicas e factíveis frente à tecnologia que nos foi apresentada.

As sequências de ação são excelentes em seu conceito, principalmente à urgente cena do tumbler (um bat-móvel realmente utilitário para suas pretensões). O trabalho em conjunto das imagens de Nolan (os planos de Batman com morcegos são evocativas) e a montagem cheia de ritmo de Lee Smith é arrebatador. E só se tornam ainda melhor graças a trilha sonora de James Newton Howard e Hans Zimmer que, do primeiro minuto de projeção, ao último, nos embala em tons emocionantes, dramáticos e intensos que retratam perfeitamente a cruzada emocional pela que está passando o personagem principal.

E que filme não se tornaria uma excelente obra com um elenco tão formidável quanto esse? Michael Caine demonstra intensidade emocional admirável como Alfred, já que suas preocupações relacionadas a Bruce são palpáveis. Katie Holmes é talentosa ao não se render em ser a mocinha histérica, já que sua Rachel Dawes demonstra um idealismo tão emocionante quanto o do herói. Gary Oldman (sempre fenomenal) é hábil ao mostrar o cansaço físico e psicológico de Jim Gordon, e isso torna seu caráter ainda mais respeitável. Morgan Freeman nos diverte com o cinismo de Lucius Fox e ajuda a tornar as ferramentas do Batman mais realistas. Já Rutger Hauer demonstra poder e arrogância que reflete as grandes corporações de hoje em dia.

Quanto aos vilões, Ra’s Al Ghul é uma estupenda surpresa do filme e perfeito na proposta do filme de relacioná-lo fortemente a origem do herói e deturpar o significado de sua cruzada – fora que Liam Neeson tem uma presença em cena admirável e inspira força e ameaça pelo tom de voz, ao mesmo tempo de confiança. Enquanto isso, o assustador Espantalho de Cilian Murphy dá um tom de fantasia bizarra para o filme que diverte o traz mais perto de suas origens de HQ, apesar de totalmente plausível.

Mas o filme pertence mesmo a Christian Bale, que pegou o Bruce Wayne/ Batman das páginas do roteiro e transpôs de forma magnífica em sua complexidade moral e emocional. Sempre com um ar de pesar e sofrimento em seus olhos, Bale demonstra com delicadeza os conflitos internos de Bruce e como seu passado nunca deixará de atormentá-lo. O ator nos convence piamente das motivações morais de se tornar o Batman. Além disso, Bale consegue dividir as três faces do personagem com maestria ao se expressar diferentemente em cada uma delas, mas nunca nos fazendo esquecer que ali por trás existe uma ser humano miserável em sua dor. Os detalhes de modificar o tom de voz e se expressar com uma postura corporal impassível quando está como Batman demonstram sua entrega àquela figura.

Batman Begins mudou, para sempre, o modo como filmes de super-herói foram feitos. Christopher Nolan provou que sim, um filme de herói pode trazer tanto esmero artístico e complexidade emocional quanto qualquer outro filme “sério”. Além de ter iniciado a melhor saga de super-herói do cinema, claro.

IMDb: 8,3/10. Rotten Tomatoes: 84%.


3 – Batman Vs Superman: A Origem da Justiça (Batman V Superman – Dawn of Justice, 2016) de Zack Snyder

14% dos votos

É uma surpresa muito grande ver que o longa metragem mais recente do Homem-morcego ficou em terceira lugar na votação popular, inclusive, a frente do tão querido Batman Begins. Não é surpresa para ninguém que o filme não agradou muitos fãs. Indicado a oito categorias do Framboesa de Ouro desse ano (incluindo Pior Filme), Batman Vs Superman – A Origem da Justiça foi um fracasso retumbante de crítica também. Uma injustiça GIGANTESCA, diga-se de passagem.

Assim como Blade Runner – O Caçador de Andróides fez em sua época, BvS vai conseguir um status cult com os anos e terá seu valor reconhecido, principalmente depois de sua versão definitiva ter sido levada ao público em home video. Assim como na ousada adaptação de Watchmen (igualmente injustiçada), Zack Snyder desafia os espectadores a testemunhar um filme de heróis de temática adulta, símbolos grandiosos e conflitos humanos que foge completamente da “fórmula Marvel” de fazer cinema (embora esta também funcione a seu próprio modo).

Verdade seja dita, a versão de BvS lançada nos cinemas é realmente confusa e apressada. Os produtores optaram por dar mais espaço à ação e efeitos visuais que aos questionamentos inteligentes que o roteiro propõe. O problema é que os momentos de ação do filme não trazem nada de tão especial (apesar da introdução entusiasmante da Mulher-Maravilha no ato final), e o que realmente mais nos chama a atenção são os juízos pelos quais o Superman passa apenas por ser o Superman; seu amadurecimento quanto super-herói (uma continuidade admirável com O Homem de Aço) e a ambiguidade moral pela qual o maduro, e embrutecido, Batman de Ben Affleck está passando.

Inclusive, a problematização da condição de “herói” que o filme nos apresenta incita uma discussão complexa que nenhum filme da Marvel jamais teve coragem de iniciar. Enquanto Kal-El (Henry Cavill, extremamente expressivo) tenta processar emocionalmente a inconsequência de seus atos no filme anterior, ele precisa encarar o julgamento de uma sociedade hipócrita que o condena, mas o clama quando conveniente. Ainda devemos levar em consideração que o roteiro de Chris Terrio (vencedor do Oscar por Argo) não esquece que o Superman ainda está na “infância” de sua vida heroica; ainda tentando compreender seu lugar do mundo e precisando lidar politicamente com essa dualidade de opiniões a seu respeito (o momento delicado com sua mãe, na fazenda, é um reflexo de sua dor). Sabiamente, Snyder e seu montador David Brenner criam um momento específico para criar uma montagem de momentos, reportagens e opiniões de estudiosos e políticos sobre o Superman como uma discussão sociopolítica acerca de suas ações e consequências. Um momento extremamente adulto que traz chama essa história fantasiosa a fincar os pés no chão de uma forma multifacetada.
Além disso, a versão definitiva do filme ainda nos dá o presente de acompanharmos uma investigação detetivesca de Clark Kent a respeito do Batman que se confunde com sua instabilidade emocional pelos julgamentos e sua vontade de fazer justiça. É extremamente recompensador.

Com uma estética que ultrapassa o sombrio e cai no campo da tragédia e do moribundo, a fotografia com tons cinzentos e envelhecidos de Larry Fong (o mesmo de 300), é ideal para exteriorizar os conflitos sentimentais de Superman frente a seus juízos de valores, além da visão melancólica e decrépita do mundo pela óptica de Bruce Wayne. Snyder aproveita as cores de Fong para criar alguns planos realmente memoráveis, como aquele que Superman é tocado por várias pessoas maquiadas de caveiras em um festival de Dia dos Mortos; o momento que uma vítima de inundação tenta alcançar o herói erguendo as mãos como se estivessem louvando algum Deus e até mesmo aquele de três personagens lamentando a morte de outro em meio a escombros e cinzas de um imenso incêndio.

Mas se toda a temática complexa envolta de Superman e o apuro estético irrepreensível de Snyder já seria o suficiente para indicar esse, mais uma vez, injustiçado filme, o Batman brutal apresentado nesse filme é um bônus e tanto. Claramente envelhecido, Bruce Wayne demonstra uma sagacidade ímpar para atuar como o playboy que utiliza de máscara para sua vida (os diálogos cortantes entre ele e Clark Kent são a cereja do bolo do roteiro). E na mesma intensidade que consegue atuar como o playboy, Wayne também criou uma amargura e casca de brutalidade que é, de certa forma, justificada pelos vários anos que lidou com o crime e seus vilões. Ben Affleck exibe um talento insuspeito para conseguir transparecer a sisudez daquela figura de forma tridimensional. Seu porte físico bruto, seus olhos cansados e sua expressão autoritária nos esclarecem que aquele homem já sofreu muito fisicamente e está exausto, estando mais comprometido a ser um vingador que um vigilante. Em paralelo, é interessante notar como o Alfred do sempre louvável Jeremy Irons (assistam Gêmeos – Mórbida Semelhança) apresenta ter desenvolvido um cinismo afiado na mesma proporção da mudança de visão de mundo de seu amigo e mestre.

As melhores cenas de ação do filme são protagonizadas pelo Batman de Affleck, onde Snyder arquiteta o ambiente de forma a mimetizar um filme de terror com uma criatura sobrenatural, fazendo seu herói causar horror nos outros personagens e nos espectadores (a primeira cena, em especial, é um triunfo de ritmo e choque). E é uma pena que todo a força que o filme possui nos dois primeiros atos, grande parte à natureza profunda de seus heróis, se perca no histérico ato final.

A derrapada no clímax do filme parte graças ao fraco vilão interpretado por um deslocado Jesse Eisenberg (que encarna uma mistura de sua versão de Mark Zuckerberg com o Charada de Batman Eternamente). Apesar de o plano de Lex Luthor para combater Superman seja sagaz (principalmente ao envolver política), suas intenções nunca ficam bem claras. Da mesma forma, o “chefão” criado de última hora para uma batalha épica é inorgânico à narrativa. O determinado momento é um show de pirotecnia e efeitos visuais tão grande e histriônico que mais parece uma apresentação demo de um videogame. Se não fosse a presença da Mulher-Maravilha em ação, seria em desastre completo.

Aliás, por falar na heroína, Gal Gadot se sai MUITO bem ao trazer um tom sarcástico e “malicioso” ao combater seu algoz; empoderando a personagem de uma forma divertida. Embora ela não tenha tempo de tela suficiente, deve-se destacar a presença decidida e delicada de Amy Adams como Louis Lane e a participação forte e cheia de moral de Holly Hunter.

Com uma trilha sonora que traz à tona a carga épica do filme, Batman Vs Superman é um longo que merece ser revisto com mais carinho e não ser julgado pela ganância de seus produtores. É um filme de super-heróis audacioso que fala sobre amadurecimento e conflitos morais de seus personagens principais. Só espero que Zack Snyder nunca perca essa sua visão madura de heróis que aprendeu com Watchmen e continue a nos entregar obras mais desafiadoras que o “padrão Marvel” de diversão.

IMDb: 6,7/10. Rotten Tomatoes: 27%.


2 – Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, 2012) de Christopher Nolan

21% dos votos

Depois de ter lançado O Cavaleiro das Trevas os Nolans devem ter batido a cabeça na parede repetidamente para pensar em algo que poderia superar aquela obra feroz em sua excelência. Má notícia é que não conseguiram, pois O Cavaleiro das Trevas Ressurge é um filme inferior ao antecessor (inclusive a Batman Begins, em alguns aspectos). A boa notícia é que o filme é MUITO bom e consegue fechar a trilogia com uma coerência narrativa louvável.

Diferente do ritmo intenso da aventura que nos apresentou o Coringa de Heath Ledger, essa terceira aventura tem um clima que acompanha a melancolia crescente de Bruce Wayne. Mais velho e amargurado pelas tragédias que acompanhou, Wayne, obviamente, não consegue trazer a Batman toda a sua postura e intensidade em ação como antigamente. Não. Aqui ele precisa superar sua própria mente dolorida e limites físicos para conseguir “ressurgir” e salvar sua cidade de uma apoteose sem precedentes. As cenas quase contemplativas e a montagem mais “lenta” que do filme anterior são extremamente orgânicas à atual psicologia do perturbado personagem.

Aliás, a apoteose vista aqui é trabalhada de forma crível pelos roteiristas. Apesar de forçarem um pouco a barra no modo como os vilões consegue sitiar Gotham City (como eles conseguiram trabalhar por tanto tempo nos esgotos sem serem descobertos por agentes de energia e da prefeitura?), a estratégia faz muito sentido à primeira vista. Além disso, os roteiristas continuam a pautar esse universo no mundo real, conduzindo a reação aos acontecidos de Gotham com envolvimento da SWAT, Guarda Nacional e até do Pentágono.

Embora Bane não consiga trazer toda a sensação desconcertante que Heath Ledger fez com seu coringa (afinal de contas, quem conseguirá?), o personagem é encarnado com expressividade por Tom Hardy, já que cri uma ambiguidade por sua FORTE presença física e sua articulação clara, e até elegante, de ideias. O vilão nos faz temer por Batman, principalmente por sua imponência física e dimensão de seus atos (a impactante cena inicial do avião já nos dá a ideia do que o vilão é capaz com todos os seus recursos).

Em paralelo a isso, as próprias dificuldades físicas de Bruce Wayne servem, além de exteriorizar sua fraqueza emocional, também como recurso narrativo para engrandecer a ameaça do vilão. Sem contar que a caracterização de Bane é instigante ao vesti-lo como um mercenário e sua máscara criar alusão a uma focinheira de cachorro, dando um caráter ainda mais animalesco ao vilão.

Também interessante é a atuação de Anne Hathaway como Selina Kyle. Sem deixar de lado a delicadeza e feminilidade tão caros à personagem, a jovem atriz exibe um tom de cinismo (pontuados por drama) que cai como uma luva à história de vida de Selina, enquanto é talentosa ao demonstrar a destreza e talento em artes marciais da ladra; nos passando a impressão de que aquilo tudo é extremamente fácil para ela (repare na agilidade dela para escapar por uma janela da Mansão Wayne). Além de sua roupa fazer justiça ao título, com detalhes práticos ás suas ações (da máscara – que na verdade são óculos, ao salto da bota), a fisicalidade e imponência de Hathaway realmente retratam uma “gata”.

O roteiro dos Nolan não é tão afiado quanto os anteriores. Além de criar uma organicidade dessa história com a saga de Bruce desde o início da criação do Batman (principalmente pela revelação dos vilões); o filme também consegue introduzir e desenvolver, além de Selina, o jovem policial Blake (Joseph Gordon-Levitt, ótimo) como uma consequência das ações do Batman. Além disso, o Comissário Gordon de Gary Oldman traz uma carga de tragédia e rancor da mesma forma que o herói.

Em sintonia a isso, Christhian Bale usa seu talento para representar o peso que Wayne carrega nas costas em sua interpretação física (nos convencendo do cansaço daquele personagem) e facial (que vai da apatia superiora à revolta e dor). Inclusive, Bale compartilha com Michael Caine os dois momentos mais emocionantes do filme, quando o sábio Alfred despeja em Bruce toda sua agonia e temor de vê-lo, mais uma vez, combatendo o crime. Caine é responsável pelo maior destaque de atuações do filme.

Voltando a demonstrar talento em ritmo de cenas de ação, Christopher Nolan traz uma carga de emoção e maior às ações do Batman aqui, tanto pelo excelente uso do som (o Batwing traz um efeito sensacional) quanto por criar pequenos planos que demonstram a reação saudosista, e perplexas, dos cidadãos de Gotham a retorno de Batman. As ações paralelas da sequência de ação final são montadas com talento, principalmente se formos contar a emoção que Nolan carrega naquela situação pelo possível destino trágico que irá ocorrer a algum integrante.

Em combinação a esses fatores, a trilha sonora de Hans Zimmer entoa, além do tom épico de ação, o prenúncio de uma tragédia iminente, nos emocionando imensamente ao se encaixar no ritmo do filme. Já a fotografia de Wally Pfister fecha a trilogia com cores secas e pesarosas poeticamente de acordo com o inverno que assola Gotham City.

Com alguns dos acontecimentos mais impactantes da trilogia (a explosão no campo de futebol americano é impressionante), O Cavaleiro das Trevas Ressurge conclui dignamente uma trilogia homogênea em sua inteligência e ressonância emocional. Porém, se tivesse sido concluída uns 20 segundos antes, teria sido ainda mais efetiva, assim como a conclusão de A Origem.

Uma conclusão à altura da complexidade de seu personagem principal.

IMDb: 8,5/10. Rotten Tomatoes: 87%.


1 – Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008) de Christopher Nolan

38% dos votos

“Sombrio, complexo e inesquecível. O Cavaleiro das Trevas é bem-sucedido não só como um filme de quadrinhos cheio de entretenimento, como também uma ricamente emocionante saga criminal”. Com esse consenso o “Rotten Tomatoes” celebra o que é considerado “O” melhor filme de super-heróis de todos os tempos. Portanto, nada mais justo que utilizar as três características dadas ao filme como palavras-chave para a resenha.

SOMBRIO

Mesmo que, pontualmente haja uns breves alívios cômicos durante o filme, os irmãos Nolan (Christopher e Jonathan, ambos roteiristas) pegam o espectador e o joga em uma jornada de crime, violência e emoção que não sobra espaço para paz. Se Batman Begins introduzia bem a aspecto sombrio do universo do herói mas se concluía com um tom de esperança, aqui os acontecimentos se desenrolam em uma cadeia incontrolável de ameaça e medo que, raramente, nos faz REALMENTE temer pela vida do herói. E o aspecto sombrio, claro, se dá pelo imparável e perturbador encarnado por Heath Ledger.

Com uma estrutura de filme policial assumidamente inspirado no clássico Fogo Contra Fogo, o roteiro do filme é uma sucessão de estratagemas e planos do vilão que dá aos espectadores a sensação de que os heróis estão constantemente sem nenhuma pista, ou chance, de chegarem ao Coringa. À medida que o filme avança, os ocorridos se tornam cada vez mais surpreendentes pela forma como são brilhantemente arquitetadas para fazer justiça à ideologia do Coringa. Os diálogos rápidos assertivos, além das inclusões de ataques do vilão em momentos insuspeitos (como na conversa entre Harvey Dent e o Prefeito de Gotham em seu escritório), nos passam a sensação de que o Coringa é uma figura quase onipresente, e extremamente mais poderosa, que qualquer inimigo. O roteiro nos deixa claro que o vilão sabe determinar especificamente quais são as possíveis ações futuras de seus algozes, e como ele poderá agir para estar à frente deles. A sagacidade da cena de ação envolvendo uma perseguição nas ruas de Gotham, gerando uma prisão e a potencial morte de outros dois personagens demonstra como os heróis nunca conseguirão prever as ações do “palhaço do crime”.

Como não poderia deixar de ser, o Coringa é escrito como um criminoso completamente fora do mundo do crime organizado de Gotham, e que tira disso sua principal vantagem, como na intensa sequência em que invade uma reunião entre os chefões do crime. O Coringa de O Cavaleiro das Trevas é um anarquista violento que busca desenfreadamente um desequilíbrio que é o extremo oposto do que o Batman procura (“Eu sou um cão perseguindo um carro. Quando eu chego lá, eu não sei o que fazer; mas eu preciso persegui-lo! ”). Conseguindo fugir da figura simplória de apenas “louco psicopata”, o Coringa dos Nolans tem uma potente ideologia própria e demonstra uma inteligência maior a cada nova ação, nunca deixando de demonstrar desrespeito e falta de consideração por absolutamente tudo e todos. O Coringa de O Cavaleiro das Trevas não segue nenhuma regra, nenhum código; ele é inconsequente e imprevisível, e usa disso como sua maior arma. Ele é capaz de tudo para instaurar o caos e jogar na cara das pessoas como seu desequilíbrio psicológico e emocional é o que realmente rege o mundo e as pessoas (seu “Jogo Mortal” final seria a epítome do seu pensamento).

O roteiro ainda intensifica a aura grandiosa e doentia do vilão ao fazer questão de demonstrar seus atos violentos (a gravação amadora que o vilão faz dentro de uma câmara fria é realmente assustadora).

Claro, nunca poderíamos deixar de enaltecer a atuação de Heath Ledger. Aliás, não há como chamar aquilo de atuação, e sim, encarnação. Ledger não finge estar vivendo o Coringa, ele é o Coringa. Da postura, ao modo de andar que gera estranheza; do tom de voz dissonante e heterogêneo às expressões bizarras e atormentadoras; do como como passa a língua em suas cicatrizes das bochechas ou cria uma maquiagem decrépita; Heath Ledger não nos deixa nenhuma dúvida da força descomunal com que criou os pequenos detalhes daquela figura. Ledger nos deixa tão impressionados quanto amedrontados por seu personagem.

O tom sombrio do filme ainda é destacado pela fotografia fria e sóbria (com tons azuis escuro mais destacados) de Wally Pfister, destacando o fatalismo daquela sociedade mesmo que ela aparente estar mais “limpa” que o filme anterior; algo também bem realizado pelo design de produção que explora ambientes urbanos modernos. Além disso, a montagem de Lee Smith enaltece a urgência EXTREMA com a qual os heróis precisam agir para deter aquele incansável vilão, fundindo vários acontecimentos paralelos de forma sempre instigante e que nos deixa exaustos (no bom sentido). Sem contar a trilha sonora de James Newton Howard e Hans Zimmer que traz de volta toda a emoção profunda da mente sofrida de Bruce Wayne com tons dissonantes e perturbadores crescentes que fazem jus ao vilão.

COMPLEXO

Há uma cena chave em O Cavaleiro das Trevas que exemplifica toda a complexidade emocional daquela situação: em um dos poucos momentos de “tranquilidade” do filme, em que Bruce encarna seu personagem playboy frente a Harvey Dent e Rachel Dawes. Bruce e Harvey discutem quanto às ações de Batman, que Harvey vê como um “mal” necessário, enaltecendo a fome de justiça de um cidadão comum que se tornou um herói. Mesmo corroído pela relação de Rachel com Harvey, Bruce absorve a que ponto suas ações como Batman, e como seu símbolo de justiça chegou aonde queria, ao inspirar um promotor público reconhecido pela sua honestidade e fome de mudança. Já Rachel, conclui reconhece que ama Bruce mas nunca conseguiria viver ao seu lado enquanto Batman, e percebe como seu companheiro (que admira muito) representa, ao mesmo tempo, uma dor e uma alento ao seu amigo de infância.

A coerência narrativa de O Cavaleiro das Trevas com Batman Begins, frente aos anseios de Bruce Wayne é formidável. A figura de Harvey Dent (um “herói” que age sem máscaras e pela Lei) é a personificação de tudo que Wayne sempre sonhou desde quando decidiu se tornar um vigilante; e o modo como ele aposta no promotor um modo de escape de sua vida de justiceiro é profundamente tocante. Nesse interim, Rachel (excelente interpretação de Maggie Gyllenhaal) precisa permanecer entre os dois e catalisar toda a impulsividade e ideologia de cada um, mesmo quando entram em conflito. Um papel ingrato, mas que corresponde ao carinho que ela tem pelo amigo desde a infância vista no filme anterior.

E toda a carga emocional, e esperança, que o roteiro impõe sobre a complexa relação entre esses personagens se encontra tragicamente com as intenções do Coringa, transformando Harvey na figura que representa, literalmente, a dualidade das ações de Batman e do vilão; e isso ao utilizar os sentimentos que cada um sente pela querida Rachel. A sequência final que mostra a conclusão triste da aliança entre Harvey, Batman e Gordon é o soco no estômago que o Coringa, e a sociedade, inflige no herói. O símbolo máximo de seu heroísmo ao se tornar um personagem maldito.

Não somente pela inteligência dos planos e das intenções do vilão, mas também pela densidade emocional dos personagens que é construída a complexidade O Cavaleiro das Trevas.

O filme ainda traz mensagens intrigantes sobre humanidade (no conflito final das duas barcas) e sobre a ética na investigação criminal. Esta última, aliás, nos deixa mais impressionados por ser perpetuada pelo próprio herói. Claramente inspirado pelas revelações feitas por Edward Snowden sobre o governa dos EUA, esse determinado fator do filme dá a oportunidade a Morgan Freeman (sempre admirável) e ter um dos insights mais dignos e politicamente relevantes da história.

INESQUECÍVEL

Trazendo tons de William Friedkin e Michael Mann, a direção de Christopher Nolan é direta e incrivelmente segura. As cenas de ação são memoráveis, com um uso de edição e design de som que deslumbra os espectadores pela riqueza de detalhes e, consequentemente, torna tudo mais realista (reparem no ruído do movimento das “asas” do Batman quando ele sobrevoa um arranha-céu chinês). Além disso, o diretor sabe utilizar efeitos visuais para dar mais intensidade à ação, e não os exibir como um fim em si mesmo (a perseguição de carros, camburões e caminhões no terceiro ato é impressionante).

Trazendo sempre uma carga emocional ao dirigir seus atores, Nolan consegue um tom surpreendentemente homogêneo no seu fantástico elenco. Além dos já citados, Michael Caine continua criando uma aura de sabedoria e maturidade à Alfred, que sempre traz Bruce de volta à realidade com seus ensinamentos honestos e carinhosos. Já Gary Oldman continua encantando com a vontade inabalável do Comissário Gordon de trazer o bem para Gotham, não esquecendo de humanizar ainda mais o personagem e pontuá-lo com gestos de desespero e terror.

Porém, depois de Ledger, o filme tem seus dois principais destaques para Christhian Bale e Aaron Eckhart. Bale demonstra com segurança que Bruce está mais confortável em administrar a vida do Bruce playboy após tanto tempo, apesar de ainda ser miserável com seu verdadeiro “eu” (o olha terno e esperançoso que joga a Harvey enquanto este defende Batman é um exemplo do talento do ator). No entanto, seu Batman é posto em cheque durante TODO O FILME; e Bale comprova que é o ator IDEAL para viver Batman pela intensidade com que mostra o cansaço de Batman (físico e psicológico), ao mesmo tempo de sua vontade de tornar tudo melhor. Já Eckhart cria um Harvey Dent idealista, carismático e MUITO corajoso que encontra reflexo nas intenções de Bruce Wayne. A interpretação de Eckhart durante as provações psíquicas e morais que Dent é obrigado a passar é nada menos que dolorosa e comovente.

Seja pela complexidade e inteligência do roteiro, pela direção afiada e intensa, pelas atuações magistrais, ou pelos temas adultos e relevantes, O Cavaleiro das Trevas é um filme inesquecível que dificilmente será igualado em toda sua proporção. Triunfal do início ao fim.

IMDb: 9/10. Rotten Tomatoes: 94%.



Divulgaí

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