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Estreou Há 10 Anos: Seres Rastejantes

O sucesso mundial de Guardiões da Galáxia, considerado por muitos como o melhor filme do Universo Cinematográfico da Marvel, colocou o nome de James Gunn como um diretor promissor. Porém..

O sucesso mundial de Guardiões da Galáxia, considerado por muitos como o melhor filme do Universo Cinematográfico da Marvel, colocou o nome de James Gunn como um diretor promissor. Porém, Gunn já está na indústria desde os anos 90 (quando escreveu o roteiro do trash Tromeo e Julieta, em 1996), e teve sua estreia na direção há 10 anos atrás, com Seres Rastejantes, uma singela pérola de terror e comédia.

Possivelmente, Gunn conseguiu emplacar a ideia de um filme trash em um grande estúdio (afinal, o filme foi financiado pela Universal Pictures) pelo sucesso de Madrugada dos Mortos dois anos antes. Gunn roteirizou essa refilmagem do clássico Zombie – Despertar dos Mortos; bem-sucedida tanto em relação à crítica especializada, quanto ao público. Somado aos sucessos de Extermínio e o sensacional Todo Mundo Quase Morto, o interesse do público pela temática “zumbi” se tornou tão grande, que a mesma voltou a ser mais trabalhada no cinema após a segunda metade dos anos 2000.

Não só novas histórias de “mortos vivos” estavam surgindo, como também o “pai” desse subgênero voltou a ter espaço para criar novos filmes para seu cânone (Terra dos Mortos, Diário dos Mortos e Ilha dos Mortos). Algo assim não se via desde a segunda metade dos anos 80, quando Dia dos Mortos fez ressurgir essa temática. Um ciclo que se encerrou com a antológica refilmagem de A Noite dos Mortos Vivos que Tom Savini dirigiu em 1989.

Declaradamente apaixonado pelo cinema B dos anos 70 e 80, Gunn nos passa a impressão de ter criado em Seres Rastejantes uma mescla de tudo que o divertia nestas obras. Por conseguinte, não é difícil perceber que as influências de Seres Rastejantes são “clássicos” do terror e ficção científica B da época, como Calafrios, A Bolha Assassina, Criaturas, A Noite dos Arrepios, Palhaços Assassinos do Espaço Sideral dentre tantos outros.



O filme se passa em uma cidade interiorana atacada por ameaça espacial desconhecida, após a chegada de um meteoro que trouxe consigo uma insidiosa espécie alienígena que parasita os seres humanos do local. Sabendo que essa premissa já nos fará lembrar imediatamente de outros filmes, Gunn utiliza o fator nostalgia para nos envolver em sua brincadeira desde o primeiro segundo de filme. Afinal, testemunhar aquele misterioso meteoro cair em um terreno remoto já nos remete à diversão descompromissada de A Bolha Assassina ou Criaturas justamente por já termos visto algo parecido no início desses filmes.

Gunn é sábio ao jogar alguns easter eggs para os fãs do gênero durante o filme, como o nome do prefeito da cidade ser MacReady (mesmo nome do personagem de Kurt Russel em O Enigma de Outro Mundo) ou a loja chamada Max Renn (nome do personagem de James Woods em Videodrome – A Síndrome do Vídeo). Da mesma forma, o “meat” que os zumbis do filme emitem se assemelha bastante ao “brains” que os mortos vivos de A Volta dos Mortos Vivos (outro filme que reavivou a temática nos anos 80) entoam naquele cult; assim como o ácido cuspido pelos vilões lembra bastante o sangue da criatura xenomorfa de Alien – O Oitavo Passageiro.

Embora estas, e outras, referências nos divirtam durante o filme, Gunn cria algumas cenas mais perturbadoras para que o clima de humor se equilibre ao de horror, como na chocante cena de “sexo” alienígena simultânea à festividade de abertura da temporada de caça na cidade (uma sacada sarcástica do diretor). E se essa cena me fez lembrar bastante as aberrações que David Cronenberg criou em The Brood – Filhos do Medo, por exemplo, não me surpreendi ao perceber durante o filme que todo o trabalho de maquiagem referenciava esse celebrado diretor. O processo de transformação do “Monstro Grant” se assemelha muito aos efeitos criados em A Mosca, enquanto as lesmas alienígenas parecem saídas diretamente de Calafrios. Já a imagem do monstro ao final é uma referência óbvia ao Dr. Pretorius em Do Além, de Stuart Gordon.

Sempre sabendo utilizar as situações para criar um humor negro peculiar, Gunn foi muito feliz na escalação de seu elenco. Nathan Fillon, excelente comediante, cria Bill Pardy como um herói que nos traz empatia justamente por dosar os atos de heroísmo com outros em que usa o medo do policial e traz pitadas de humor (a conclusão da cena do veado é ótima). Da mesma forma, Elizabeth Banks, antes de ficar tão conhecida como é hoje, nos encanta com sua scream-queen por criar uma personagem interiorana simultaneamente adorável e divertida. Já Gregg Henry, grande parceiro de Brian de Palma em filmes como Dublê de Corpo, nunca deixa de nos fazer rir com sua personificação caricata do prefeito caipira e covarde (reparem na hilária expressão que ele apresenta após ouvir a explicação sobre a biologia dos alienígenas).



Com um bom olho para criar atmosfera de terror, Gunn soube criar alguns planos e momentos estéticos realmente elegantes para o clima B do filme. Deve-se destacar o modo como ele utiliza as sombras e silhuetas nos momentos noturnos de ataque dos zumbis, bem como a ambientação macabra da floresta (com uma névoa sempre pairando sobre uma densa mata) e os planos criados durante a cena da banheira (atenção ao luar através da janela), uma homenagem à outra cena similar do já citado Calafrios.

Infelizmente, Seres Rastejantes foi um grande fracasso de público na época de seu lançamento, não conseguindo render nem metade de seu custo domesticamente. Tive a oportunidade de assisti-lo no cinema em 2006, em uma sala completamente vazia além de mim e mais um grupo de amigos adolescentes que nem sabiam sobre o que se tratava o filme. Apesar disso, foi grande sucesso de crítica, possuindo 86% de aprovação no site Rotten Tomatoes.

Trazendo uma participação do ator cult Michael Rooker que cria um plot twist de protagonismo parecido como o que Alfred Hitchcock havia inventado em Psicose, Seres Rastejantes é, assim como A Noite dos Arrepios foi em sua época, uma homenagem “encantadora” a esse tipo de cinema; tirando da honestidade, sua maior qualidade. Uma pequena gema do terror B que merece ser redescoberta.

Divulgaí

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