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Crítica: Águas Rasas

Com uma trilha sonora muito boa e pontual do ótimo Marco Beltrami (“Pânico”, 1996), “Águas Rasas” é um thriller “pipoca” que entretém, e que proporciona ao espectador um longa metragem bem decente de tubarão, algo que o cinema não tinha o prazer de mostrar de uma forma bacana há muito tempo.
Crítica: Águas Rasas

É possível que haja filmes de tubarão feitos antes do icônico clássico “Tubarão” (1975) de Steven Spielberg, mas é inegável que foi o grande sucesso atingido pelo filme do mestre dos blockbusters que possibilitou várias outras obras serem inspiradas no grande predador dos mares, terror dos surfistas e das praias do universo cinematográfico.

Entre filmes de orçamento considerável, como “Do Fundo do Mar” (2003) até obras mais modestas, sejam elas abordadas de forma interessante e baseadas em fatos reais, como “Mar Aberto” (2003) ou completamente “nonsense”, como “Sharknado” (2013), tivemos também projetos onde a qualidade tanto de roteiro quanto estética, deixou muito a desejar e contribuiu para certa “banalização” do subgênero.

Mas eis que coube ao diretor catalão Jaume Collet-Serra, habituado a tramas de suspense eletrizantes, como em “A Casa de Cera” (2005), “A Orfã” (2009) e “Desconhecido” (2011), o desafio de aliar o tema do tubarão com o blockbuster em “Águas Rasas”, que chegou aos cinemas aqui no Brasil esta semana.

Claro que o mar é um universo tão enigmático e complexo para o homem, por não ser seu habitat natural (terra firme), sendo assim, histórias que se passam neste tipo de ambiente – se bem feitas, é claro – tendem a ser ao mesmo tempo muito interessantes e despertam muito a curiosidade das pessoas. E para ir mais além de dramas “isca de Oscar”, ou histórias de superação, o cinema atual carecia de um bom thriller de suspense que resgatasse a imagem do tubarão como uma grande ameaça vinda do mar.

Será que “Águas Rasas” tem qualidades suficientes para preencher essa lacuna? O filme conta a história de Nancy (Blake Lively), uma jovem que viaja até uma praia isolada, indicada por sua falecida mãe, que costumava surfar por lá. Separada da amiga, que decidiu não ir surfar para ficar com uma nova paquera, Nancy vai sozinha à costa, mas se depara com um tubarão sedento por novas vítimas.

Ciente da sua curta duração e que precisa de uma história bastante concisa para funcionar, em “Águas Rasas”, Collet-Serra faz o possível para que seu filme prenda a atenção logo de cara. Quando somos apresentados à heroína, ela já está a caminho da praia e sabendo exatamente o que quer - aconteça o que acontecer, ela vai homenagear a mãe porque sente que precisa fazer aquilo. Com isso, o espectador já vai descobrindo o quão teimosa é a protagonista, característica que é comentada por outro personagem mais à frente, e que pode ser determinante para o fatídico revés que irá sofrer.

A direção utiliza alguns recursos que dão um ar moderno ao filme, como mensagens de celular aparecendo na tela, para que possamos ver ao mesmo tempo o que a personagem está vendo e simultaneamente sua expressão - talvez por conta do início “apressado”, seja uma opção do diretor deixar a câmera o máximo possível no rosto de Nancy, para que o espectador logo se “acostume” com sua presença e comece a criar empatia por ela.

Além de alguns diálogos divertidos, o diretor aproveita esses primeiros momentos de descontração antes de a trama ficar mais séria e dramática, para explorar alguns planos mais abertos da paisagem exótica, porque sabe que um dos segredos do thriller é gerar desconforto no espectador através de lugares confinados, onde não há escapatória aparente, intensificando o medo com o aumento da tensão. Embora a motivação da protagonista seja bastante plausível, algo que pode tirar um pouco o espectador do filme são alguns efeitos visuais e práticos específicos (como alguns golfinhos ou os restos de uma baleia), que deixam a desejar na qualidade e soam um tanto artificiais.

Nesse caso, vai de cada um suspender ou não a descrença, e em prol do entretenimento que o filme oferece, vale a pena relevar essa questão. Quanto a fotografia, apesar da noite não parecer realmente “noite” no filme (o próprio já citado “Mar Aberto” dá um show nesse quesito), onde a direção de fotografia desperdiça a oportunidade de “desorientar” um pouco mais o espectador, ocultando algumas coisas por meio de uma paleta mais escura, as cenas filmadas na água são muito bem realizadas, e nem o excesso de slow motion nas cenas onde os personagens surfam as ondas incomodam.

Blake Lively - apesar de o suspense ser mais interessante do que o drama familiar de sua personagem - sustenta muito bem o filme e entrega uma atuação muito confiante. É justo dizer que um possível mau trabalho da sua parte, comprometeria completamente o saldo final do filme, e felizmente não é o que acontece, mas pelo contrário. Acredito que o segredo do sucesso de “Aguas Rasas” é o equilíbrio. Collet-Serra conhece bem o público que queria alcançar, e sabe dosar muito bem a tensão, criando a antecipação do suspense até a aparição do vilão do filme.

Coisas que incomodam alguns cinéfilos mais experientes, como algumas coincidências de roteiro (como a profissão de Nancy ou até o desfecho do filme), alguns momentos “MacGyver” ou a necessidade de ficar falando consigo mesma para explicar para o expectador o que está acontecendo ou sentindo, não chegam a atrapalhar a diversão do público médio, que é o grande alvo do filme.

Com uma trilha sonora muito boa e pontual do ótimo Marco Beltrami (“Pânico”, 1996), “Águas Rasas” é um thriller “pipoca” que entretém, e que proporciona ao espectador um longa metragem bem decente de tubarão, algo que o cinema não tinha o prazer de mostrar de uma forma bacana há muito tempo.

Divulgaí

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