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Crítica: Dois Caras Legais

Mesmo não ganhando todos os elogios por não se tratar de uma contribuição "original" para o cinema, é uma colcha de retalhos muito bem costurada por seu realizador e, principalmente, bastante aconchegante, até pela escassez de grandes filmes.
Crítica: Dois Caras Legais

"Dois Caras Legais" marca o retorno do roteirista e diretor Shane Black ao gênero que ele mais domina no cinema, o thriller de crime com uma boa carga de comédia, como havia escrito em "Máquina Mortífera (1987)" e dirigido em "Beijos e Tiros (2005)". O trabalho de recriação e ambientação da década de 70 é muito bem feito, com uma trilha sonora que remete bastante aos seriados da época, a extravagância dos figurinos e dos locais onde a trama vai se desenrolar, etc.

O próprio clima do filme remete a outros exemplos de filmes conhecidos que se passaram na mesma década, como "Trapaça", "Chinatown" e "Boogie Nights: Prazer Sem Limites". Aproveitando a menção deste último filme, dirigido por Paul Thomas Anderson, em "Dois Caras Legais" há uma semelhança também muito forte com outro trabalho do diretor, o thriller "Vício Inerente".

Desta vez, o diretor conta a história de dois investigadores particulares que vivem de forma bem diferente: Holland March (Ryan Gosling) é o pai de Holly (Angourie Rice) e ganha a vida resolvendo alguns casos, mas por outro lado, não se mostra tão preocupado com que a justiça seja feita. Já Jackson Healy (Russell Crowe) é um detetive que age clandestinamente, mas que tem um senso de justiça muito forte, especialmente ao defender garotas assediadas por homens mais velhos. Essa contraposição ideológica e o fato de precisar trabalharem juntos em um caso de aparente suicídio de uma estrela pornô da época, é que vai tornar tão interessante e divertida toda a investigação.

Apesar de "Dois Caras Legais" ter um objetivo muito óbvio, que é a investigação em si, podemos dizer que o filme toca de forma bastante recorrente na relação "pais e filhos". O personagem de Ryan Gosling é um pai solteiro, que até tem boas intenções, mas não hesitaria em se aproveitar de idosos que paguem bem, aceitando casos que não acredita nenhum pouco que sejam verdadeiros. Ele critica a sociedade, tenta ensinar o que é certo ou errado para sua filha, mas suas atitudes são totalmente contraditórias e provam que o "faça o que eu digo, não faça o que eu faço" não é nem de longe a melhor forma de se criar um filho.

Durante o filme, vemos outros conflitos familiares entre a personagem de Amanda e sua mãe, além de uma crítica que Russell Crowe faz no início do filme às crianças rebeldes da época, como se elas tivessem esse comportamento errático graças a negligência dos pais - no início do filme, há uma cena interessante, onde um garoto estava vendo a foto de uma mulher em uma revista adulta, mas um pouco depois, quando vê uma mulher nua "ao vivo" na sua frente, a reação que ele tem é de protegê-la, como se tivesse entendido que é errado objetificar o sexo, da forma como fazia alguns momentos atrás.

O roteiro de Shane Black basicamente não traz nenhum elemento novo ao gênero e faz muitas homenagens às comédias policiais, especialmente dos anos 80. Mas a marca do diretor se faz presente ao dar um papel de destaque a talentosa Angourie Rice, que se sai muito bem com seu protagonismo mirim - apesar de que Black passe um pouco da conta quando dirige crianças em papéis importantes, como fez com o garotinho em "Homem de Ferro 3", abusando da suspensão da descrença em vários momentos.

Quanto ao design de produção e a parte estética do filme, já foram mencionadas as qualidades e referências feitas, mas quanto as cenas engraçadas do filme, há homenagens claras a "Um Peixe Chamado Wanda (1988)" e "O Grande Lebowski (1998)", por exemplo. Cenas praticamente "copiadas", mas que funcionam muito bem pela sua execução e contribuição do elenco, diga-se de passagem. Talvez o único ponto em que o roteiro cometa um "erro", por assim dizer, é na trama desnecessariamente complexa, que perde o ritmo em alguns momentos podendo confundir o espectador ou apelar para situações convenientes demais, e é justamente isso que o filme faz. Mas, em prol da diversão, dá para relevar completamente.

Se há um ponto em que o filme acerta em cheio, é no seu elenco. Enquanto Gosling utiliza toda sua experiência e timing cômico, que aperfeiçoou após filmes como "A Garota Ideal (2007)" e "Amor a Toda Prova (2011)", além de ter entregue uma atuação impecável e surpreendente na comédia física bem pastelão, Russell Crowe usa toda sua experiência para adicionar a camada dramática exata que seu personagem requer, além de fazer um contraponto sensacional com o personagem de Gosling, resultando na química perfeita entre os dois.

O elenco de apoio é bem caricato e não possui tantas variáveis dignas de elogios, mas também dão conta do recado. Quando Kim Basinger aparece pela primeira vez, não sei por que a primeira coisa que vem à cabeça, para quem assistiu é claro, é o filme "Los Angeles, Cidade Proibida (1997)". Muito provavelmente o clima de investigação (além do fato de ver Crowe e Basinger contracenando juntos novamente) e a atmosfera é que remetem a isso...

Sendo assim, "Dois Caras Legais" é realmente um filme bem legal. Nostálgico na medida certa, com cenas muito engraçadas, o elenco afiado e entregando ótimas atuações. A direção de Shane Black volta aos trilhos, sabendo criar um vilão bem caricato, mas de acordo com o tom do filme, há muitas reversões da expectativa do espectador, que fogem bastante dos clichês, é um filme bem subversivo, com um humor bem peculiar, especialmente pelo fato de haver crianças na trama e a sequência final - que historicamente é a parte principal de um filme de ação - é muito bem filmada, e nos faz relevar até a trama um tanto complicada demais.

Mesmo não ganhando todos os elogios por não se tratar de uma contribuição "original" para o cinema, é uma colcha de retalhos muito bem costurada por seu realizador e, principalmente, bastante aconchegante, até pela escassez de grandes filmes que estamos passando.


Divulgaí

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