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Crítica #2: A Noite do Jogo

Mesmo com seus problemas, é uma comédia que funciona e entende seu lugar.
Crítica #2: A Noite do Jogo

Chegando aos cinemas essa semana, este novo lançamento me fez lembrar de algo que tem incomodado em alguns filmes recentes: a dificuldade de não se levar a sério. Ainda esse ano, Rampage – Destruição Total falhava em sua execução porque o aparente exercício descompromissado de gênero se transformava numa real tentativa de parecer o que não era, e se nunca teve as qualidades necessárias para isso, o resultado não poderia ser outro além de decepcionante. Já A Noite do Jogo é uma comédia declarada e, por mais que soe redundante dizer, ela sim sabe não se levar a sério. Não porque tem piadas físicas e referências da cultura pop, mas porque elas estão inseridas numa narrativa consciente do que quer. Aqui, portanto, o resultado é outro: um filme imperfeito, mas definitivamente divertido.

Na trama, Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams) são um casal que se conheceram depois de uma noite de jogos com amigos. Compartilhando o mesmo gosto (ou vício!?) por qualquer tipo de brincadeira que incite a competitividade, organizam com frequência reuniões com outros casais de amigos com o objetivo de disputar entre si através de jogos de tabuleiro, adivinhações, quizzes, etc. Depois que o irmão de Max, Brooks (Kyle Chandler), com quem tem um histórico problemático, retorna para sua cidade com um convite para um jogo que envolve uma simulação de um sequestro, as coisas começam a sair do controle e linha que divide a realidade da farsa vai desaparecendo aos poucos.

É curioso como a sinopse mais parece mirar para um thriller de suspense e ação do que uma comédia. Talvez por isso seja difícil imaginar o encaixe dessa proposta em um tom mais descontraído. Nesse sentido, a dupla de diretores Jonathan Goldstein e John Francis Daley entende desde o início que é mais fácil, como é o caso da própria trama, nos engajarmos na história se a encararmos como uma grande brincadeira ao invés de esperarmos a tensão típica de outros gêneros. Assim, o que acompanhamos é um desenrolar de situações que usam o humor como uma forma de constantemente nos tirar de uma possível pretensão mais séria. “Compramos” o filme antes de tudo ir por um caminho que poderia dar em um desastre, assim o aceitamos com sua simplicidade.

Não é difícil notar essa intenção pela maneira a qual somos apresentados a alguns personagens. A relação de Max e Annie é recortada em uma sequência de montagem que basicamente reduz sua compatibilidade por suas inclinações à jogatina, o que inicialmente pode parecer um recurso raso nas suas composições, mas acaba servindo como uma justificativa simples para entender suas dinâmicas ao longo do filme. Outro personagem que claramente é subvertido a uma imagem que vale mais pela piada é o vizinho recentemente divorciado Gary (o sempre ótimo Jesse Plemons), cuja trágica caracterização passa pela clássica subversão da comédia em algo hilário.

A estranheza de ver um homem solitário agindo como um possível sociopata é engraçada porque entendemos, de alguma forma, que a própria obra nos permitiu a isso, assim como também deixou que o destino dos outros personagens ganhasse menos importância do que as gags construídas ao longo da trama. Portanto, uma cena em que uma bala é retirada de um ferimento, por exemplo, jamais é retratada da mesma forma que veríamos num filme policial ou de guerra, o que é um atestado sobre a clara intenção dos cineastas quanto à veracidade do que estamos vendo.

Claro que não bastariam só as intenções para que tudo funcionasse. O fato é que, como comédia, a obra acerta em suas suas boas tiradas e referências. Adotando uma estrutura bem comum no gênero, a trama é dividida por núcleos de personagens que irão compartilhar alguma fonte de humor que se desenvolverá ao longo da narrativa. É quase como uma série de esquetes onde cada segmento representa uma situação diferente, embora todas elas trabalhem em conjunto com as outras. Há o casal que discute sobre infidelidade, o que tenta lidar com as implicações mais perigosas da brincadeira de Brooks e até o que faz graça da burrice de um dos amigos. Todos eles se equilibram na narrativa e a fazem solidificar seu caráter galhofeiro, contribuindo para aquilo que apontava antes: não tentar ser algo mais do que consegue.

Essas características, além de serem estabelecidas pelo roteiro, também são indiretamente moldadas pela maneira como os diretores decidem pontuar alguns momentos da narrativa. Basta observar, em um exemplo mais evidente, como os planos gerais que costumam servir de pontos de ligação entre os segmentos da narrativa (as transições e elipses temporais) na verdade são mostrados como uma miniatura de brinquedo, uma espécie de tabuleiro gigante que serve tanto como uma relação temática com a trama como uma forma de nos tirar daquela pretensa seriedade na qual a obra correria o risco de incorrer. Além do mais, Goldstein e Daley ainda demostram uma preocupação com um senso técnico mais cuidadoso, como pode ser observado em um bom plano-sequência que, além de ter sua qualidade na execução, ainda eleva o tom de humor em momento onde os protagonistas são perseguidos por bandidos (supostos?).

A Noite do Jogo, porém, apesar de ser competente, não está isento de seus tropeços. A maioria das piadas funcionam porque apostam na inteligência do público em absorver o próprio timing necessário para que haja a graça. Ainda assim, há momentos onde o texto de Mark Perez insiste em explicar a piada logo depois de dita (um pecado que todo comediante deve evitar, aliás), prejudicando toda uma cena que havia sido orquestrada em torno dela. Apesar da autoconsciência da obra, ela enfraquece quando justamente quer escapar dela para tentar conferir pitadas de drama nos personagens. O problema é que esses conflitos destoam da própria lógica do filme e acabamos não nos interessando em saber dos probleminhas amorosos e familiares do casal enquanto a aventura farsesca estava indo tão bem. Fora isso, não há de se esperar muita imprevisibilidade. Há uma certa expectativa que é mantida, mas não é necessária muita atenção para descobrir as reviravoltas, o que também pode enfraquecer a experiência.

Mesmo com seus problemas, é uma comédia que funciona e entende seu lugar. Aliada a um bom ritmo e boas tiradas, a química de Bateman e McAdams é certeira e consegue despertar um mínimo de nossa empatia, além de terem ambos bons timings cômicos (principalmente ele). Diferente de alguns que foram lançados recentemente, A Noite do Jogo é um bom filme porque vai direto ao ponto – e sem receio.


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