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Crítica: 7 Dias em Entebbe

Como cinema, 7 Dias em Entebbe é apenas razoável. Como tema político – e como mostram as reações da crítica no Festival de Berlim – parece ser suficientemente relevante para causar incômodo.
7 Dias em Entebbe

Recentemente protagonista de uma polêmica envolvendo sua série O Mecanismo e a polarização política no país, José Padilha não parece ter sido afetado ao ponto de querer abandonar suas preferências temáticas. É fato que este seu novo trabalho, 7 Dias em Entebbe, não nasceu agora e foi concebido bem antes de sua história baseada na operação Lava-Jato ter estreado na Netflix, mas é mais um em que o diretor opta novamente por uma discussão política envolta numa trama moldada em uma espécie de thriller policial. Há uma clara inclinação em sua carreira em direção a temas que falam sobre o comportamento social e como ele tende a formar grupos antagônicos naturalmente; e mais representativo que falar sobre o conflito israelenses x palestinos, impossível.

O filme se passa em julho de 1976 e é baseado em um dos sequestros mais famosos do mundo, quando um avião da Air France com 248 passageiros foi abordado por membros da Frente Popular para a Libertação da Palestina. Forçando o voo a desviar o caminho para o aeroporto da cidade de Entebbe, na Uganda – sendo recebido favoravelmente pelo ditador Idi Amin Dada (Nonso Anozie) – os sequestradores, entre eles os alemães Wilfried Bose (Daniel Bruhl) e Brigitte Kuhmann (Rosamund Pike), exigiam a libertação de presos pelo governo de Israel em troca da vida dos reféns, principalmente os judeus. Diante da crise, o primeiro-ministro Yitzhak Rabin (Lior Ashkenazi) convoca a ajuda de sua bancada, incluindo o Secretário de Defesa Shimon Peres (Eddie Marsan), para conceber um plano de resgate às vítimas sitiadas no aeroporto.

Não é difícil notar o potencial do incidente em se transformar facilmente numa narrativa com a cara do diretor. Experiente em conduzir tramas policiais que se misturam com um intrincado vai e volta de elementos de investigação, Padilha se aproveita da riqueza do material real de origem para envolver o espectador numa trajetória de núcleos de personagens que se relacionam de alguma maneira com o fio principal. Geralmente marcado por estruturas que sabem plantar informações esparsas e juntá-las de maneira orgânica e catártica – como é o caso, principalmente, da duologia Tropa de Elite -, dessa vez a história surge mais linear e didática, com alguns flashbacks pontuais com a função de trabalhar as motivações da dupla de alemães. Inserindo letreiros de localização e saltando continuamente entre o grupo em Entebbe, os políticos em Israel e um soldado israelense e sua esposa, a estrutura não tem a intensão de transitar pelo tempo, prezando uma rigidez quase documental na condução da narrativa. O interesse maior é mesmo relatar os principais acontecimentos que culminaram no sequestro e como os envolvidos lidaram com as próprias responsabilidades relativas aos lados da guerra.

Falando deles, é justamente onde um dos objetivos do roteiro, autoria de Gregory Burke, fica mais aparente: mostrar os lados (ou tentar) e discutir as motivações que cada grupo teve, dando a chance para que o espectador tenha um vislumbre de como ideias aparentemente impossíveis de serem conciliadas são tão cimentadas de acordo com o ponto de vista da história de cada – ou como cada um sofreu as consequências dela. O acerto está em fazer com os principais agentes de cada segmento do filme acreditem estar fazendo a coisa certa ao mesmo tempo em que nos é dada a oportunidade de enxergar suas falhas e inseguranças.

Já a parte não tão boa é que os caminhos para isso se dão através de diálogos que, por vezes, soam artificiais ao surgirem mais como justificativas ideológicas entoadas do que conversas naturais. Assim, várias das interações entre Wilfried e Brigitte são prejudicadas pelo caráter didático prevalecendo sobre sua consistência. Do mesmo modo, a trama na parte dos governantes israelenses sofre com um desiquilíbrio marcado por boas discussões seguidas de algumas escolhas, no mínimo, estranhas – como é o caso da figura de Shimon Peres, cuja caracterização robótica (num sentido ruim) por Eddie Marsan quase transforma o personagem numa paródia. Já Ashkenazi consegue dar mais humanidade a Yitzhak Rabin, impedindo que toda a porção da obra que se passa nos bastidores da operação de resgate se torne completamente desinteressante.

Mesmo com as inconstâncias, o filme acerta em discutir alguns conflitos pessoais decorrentes de implicações históricas que não foram previstas (ou ignoradas por alguns). O caso mais evidente é a preocupação da dupla de alemães com a imagem projetada para o mundo, já que o fato de reféns judeus estarem sob a mira de metralhadoras empunhadas por aqueles que se dizem envergonhados pela história recente de seu país corre o risco de manchar a imagem “revolucionária” que se convenceram a possuir. “Não somos nazistas”, dizem em certo momento, enquanto veem o plano tomar rumos mais violentos que acreditam ir de encontro à sua ideologia. Nesse sentido, os personagens de Rosamund Pike e Daniel Bruhl são a personificação de como visões ideológicas constantemente se chocam com a realidade, o que diz muito sobre seus passados, além de servirem como paralelo do próprio conflito entre judeus e palestinos.

Na questão de funcionar em suas escolhas estéticas e narrativas, não resisto a comparar novamente com outros trabalhos do diretor, já que aqui o longa é mais protocolar que seus outros trabalhos. Com uma trama conduzida linearmente e sem muitas surpresas (o caso é famoso demais para isso), o sucesso do filme acaba dependendo muito da criação de expectativa em relação ao resgate, o que funciona relativamente bem, ainda que falte mais uma sensação de perigo que, aliada aos problemas citados de artificialidade na caracterização dos personagens, faz com que haja um considerável distanciamento emocional. É preciso destacar, entretanto, que, ao menos no que concerne à execução, o resultado cumpre um papel correto, mérito da montagem de Daniel Rezende (diretor de Bingo – O Rei das Manhãs), responsável por não deixar que o ritmo da obra estacione. Além de deixar a narrativa fluida, há a inserção de um segmento envolvendo uma peça de dança contemporânea – que funciona mais dentro do quesito estético – usada como uma pontuação temática e dramática que vai ganhando significado (ou ao menos acredita ter) ao longo da projeção.

É justamente nesse elemento onde José Padilha aproveita para mostrar as cartas e jogar um pouco com a expectativa de se posicionar politicamente. Invariavelmente, a montagem que constrói o clímax usa a imagem (de maneira nada sutil) para aplaudir a solução da trama. Juntando ao fato de que, ao longo do filme, vários personagens são usados para alfinetar o extremismo ideológico, é natural que o cineasta seja novamente julgado por suas escolhas (muitos mais as temáticas do que as cinematográficas), levantando novamente o debate sobre onde está a linha ética que separa uma ficcionalização de sua realidade.

Como cinema, 7 Dias em Entebbe é apenas razoável. Como tema político – e como mostram as reações da crítica no Festival de Berlim – parece ser suficientemente relevante para causar incômodo.


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