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Crítica: Em Pedaços

E como as obras que espelham nosso tempo são, hoje, muitas (e boas), pode ser suficiente uma boa história como essa para satisfazer nossa necessidade por algo que nos distraia, mas talvez não seja para que figure entre as que realmente serão lembradas.
Crítica: Em Pedaços

Não é nenhuma surpresa que os filmes produzidos em todas as épocas trazem consigo reflexões de seu tempo, mesmo aqueles que parecem não ter como foco principal a natureza política da arte, quer queira ou não. E se pegarmos a história recente e a produção mainstream, as obras pós 11 de Setembro seguiram as mudanças globais que ocorreram posteriormente. Pode-se dizer que ficou até mais comum a linha do cinema que usa e abusa de seus signos narrativos para comentar a sociedade e decorar com alegorias a realidade.

Talvez por isso há outras propostas que não estão tão interessadas na linha interpretativa, como é o caso de Em Pedaços, novo filme de Fatih Akin (vencedor do Urso de Ouro em Berlim por Contra a Parede, em 2004). Mais direto do que simbólico em sua forma e fazendo uma mistura básica de elementos de drama, tribunal e vingança, o longa usa personificações diretas da onda ultrarradical xenofóbica – que tem ressurgido na Europa em face da crise de imigrantes – para construir a trama pessoal de Katja Sekerci (Diane Kruger), cujo marido turco e o filho foram mortos em uma explosão terrorista na Alemanha. Desconfiada que os responsáveis pelo ato são neonazistas, ela parte a busca de punição enquanto enfrenta o luto e a necessidade de fazer justiça com as próprias mãos.

Alemão e de ascendência turca, o diretor tem familiaridade com o tema de retratar a intolerância nacionalista das parcelas radicais do país contra a mera presença de estrangeiros. Fazendo relação à ligação de terroristas jovens com o partido grego Aurora Dourada (de ideias claramente nazistas), é montado um cenário cada vez menos incomum da violência cultivada em uma geração que se esqueceu – ou simplesmente nega – o próprio passado. Mas o objetivo do longa realmente não é estudar propriamente a situação política ao redor da trama – que serve mais como uma ambientação situacional –, mas sim colocar Kruger para carregar o arco acentuado de Katja e como a personagem reage como indivíduo quando lhe tem arrancada a família. Além de ser sobre a intolerância, essa história conta o ciclo da violência e como ela é um meio que só se reproduz como resultado de si mesma. É aquele velho dizer, “violência gera violência”, ainda mais quando a justiça parece não ter ferramentas para controlá-la.

Para ilustrar a trajetória atribulada, o roteiro recorre logo à divisão episódica como forma de deixar bem claras as etapas da protagonista. Vamos entender algo aqui logo: o forte da obra não é a sutileza e isso não é um erro, é uma escolha bem consciente. Para alinhar a narrativa a elementos de gênero que tem mais chance de conquistar um público maior, as três divisões (e acabam se confundindo com os próprios atos) enfatizam os estágios do luto, da justiça e da vingança; e, principalmente, como eles acabam sendo a evolução natural para a personagem, o que o filme faz até bem, mesmo que em meio a uns maniqueísmos desnecessários e novelescos (vide a caracterização dos réus e do advogado de defesa no tribunal). É uma abordagem que permite uma maior chance de ser palatável, como se Fatih se esforçasse para ser mais tradicional e “cinematográfico” no sentido de entreter – o que, obviamente, diga-se de passagem, não é algo inerentemente negativo. As fórmulas estão lá: o evento que simpatiza imediatamente o público com a protagonista (afinal, quem não iria?), a injustiça institucional como uma 2ª antagonista e o inevitável endosso para qualquer decisão que ela tome a partir dali.

Carregado por uma ótima atuação de Diane Kruger (que continua linda), o filme tem o benefício de contar com a entrega genuína da atriz, o que torna a narrativa comum bem satisfatória de se acompanhar. É uma caracterização bem modulada nos seus momentos mais introspectivos e nas explosões emocionais carregadas de um subtexto que traz um pouco da personalidade forte de Katja que havia sido resguardada pela vida em família. O texto não é lá muito substancioso, e por isso os melhores momentos ficam a cargo dela – com isso, note, por exemplo, como a maneira como ela enxerga a recém-maternidade de uma amiga diz muito mais sobre o estado de suas motivações do que qualquer outra exposição. Não fica difícil de entender ou sequer embarcar em seus pontos de virada, ainda mais com a câmera de Akin prezando suas mudanças internas em conformidade com os momentos chave da trama. No luto, nos aproximamos sem parcimônia de seu rosto para acompanharmos o buraco existencial que fomentará sua trajetória. Já no segmento do tribunal, a direção tem seus momentos mais inspirados, principalmente na fotografia e no uso da profundidade de campo para marcar a intensidade dos eventos que solidificarão o objetivo final da personagem (há um uso recorrente do foco duplo e de feitos de distorção que funcionam pela sua pontualidade e carga dramática). Se a primeira parte se estende ao martelar muito a condição da perda, na segunda há uma melhor interação entre história e estética, mesmo que seja também onde os principais vícios de superficialidade do elenco secundário ficam mais evidentes.

É mesmo na estrutura mais próxima de gêneros que Em Pedaços funciona, afinal, o arco de um personagem que perde tudo e é obrigado e correr atrás de sua própria “compensação” diante da ineficiência das instituições não é nada novo. O enredo é plenamente funcional e tem uma lógica que não procura o exagero em nenhum momento. Do mesmo modo que somos capazes de absorver as motivações de Katja, o filme tem a consciência de não a tornar um recurso inverossímil ou uma máquina mortal que se aproximaria mais de uma ação fantástica do que um drama pessoal. Isso permite que acreditemos sempre em suas ações e em como a necessidade de dar a mesma moeda já é um indicativo de perda gradual de humanidade e crença na justiça como um valor da sociedade.

O que a direção de Fatih Akin faz, no geral, é construir o sentimento de impunidade indo de encontro a Katja, mesmo que, na maioria do tempo, o resultado não seja lá surpreendente ou impactante. Como dito, mesmo que a narrativa ensaie maiores questionamentos em relação à dificuldade do Estado em exercer a democracia – ainda mais quanto esta permite que se disfarce o radicalismo em seus inevitáveis mecanismos burocráticos – não há uma substância mais significativa. Em termos puramente cinematográficos, a obra funciona e engaja, mas pelo tema que envolve, fica faltando um algo a mais que a diferencie de histórias similares.

E como as obras que espelham nosso tempo são, hoje, muitas (e boas), pode ser suficiente uma boa história como essa para satisfazer nossa necessidade por algo que nos distraia, mas talvez não seja para que figure entre as que realmente serão lembradas. 

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