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Crítica: Lucky

Lucky é um dos melhores longas do ano. Presenciar seus 88 minutos de duração foi como fazer a caminhada derradeira de Harry Dean Stanton, sabendo que, para ele, acabou.
Crítica: Lucky

Em certo momento do filme, o protagonista cita o significado da palavra “realismo” depois de se deparar com uma dúvida enquanto completava sua palavra-cruzada diária: “a atitude ou prática de aceitar algo como realmente é, e estar preparado para lidar com isso”.

Bom, eu não estava preparado para este belíssimo trabalho de despedida dos cinemas – e da própria vida – de Harry Dean Stanton. Ao me deparar com a feição marcada pelos 91 anos do ator (falecido no último mês de setembro), me vi forçado a encarar duas realidades aparentemente conflitantes: a inevitável, que todos seremos obrigados a lidar com a finitude da vida em algum momento, e a outra, que há o cinema, aquele que tem o poder de tornar a mais dura realidade numa história comovente e, de certa forma, otimista. Lucky é o tipo de filme que me faz amar ainda mais o poder da arte de despertar reflexão e causar emoção genuína.

Na trama, Lucky (Stanton) é um idoso que vive sozinho e tem uma rotina simples numa pequena cidade no deserto estadunidense. Fumante durante anos, goza de uma boa saúde para alguém com sua avançada idade (como diz um médico em certo momento), mas vive em meio a conflitos particulares por saber que está próximo do fim da vida. Rabugento e com a tendência de não seguir regras, o sujeito passa a questionar sua maneira de encarar a morte depois de sofrer um desmaio em sua casa.

É difícil resumir o universo de Lucky em poucas palavras, mas se eu fosse obrigado a fazê-lo, seria algo do tipo: uma reflexão realista (olha o termo aí de novo) sobre a nossa própria vida em meio a toques pontuais de poesia. A despeito do tema, este certamente não é um filme que apela para a narrativa manipulativa para arrancar lágrimas, e mesmo quando entra o poético, ele se origina de uma sensibilidade casual que vem da beleza que é encontrada em lugares ou situações nas quais não costumamos prestar atenção (citando isso, a sequência em que o protagonista canta um Mariachi numa festa de aniversário é uma das coisas mais bonitas que o cinema produziu em 2017). Sendo assim, os roteiristas Logan Sparks e Drago Sumonja concebem Lucky como alguém que vive seus dias sem grandes “motivos cinematográficos” para despertar algum impacto imediato. Ele é apenas um senhor de idade que vive sozinho e reprime seus medos pela compreensível razão de não saber como lidar com a morte. Afinal, ele deixa claro que não acredita em nenhuma explicação sobrenatural ou religiosa para a própria existência, ou como ele responde quando é questionado por um conhecido quando este diz que a amizade faz bem para a alma: “não existe a amizade!?”, pergunta o homem, “não existe alma”, responde Lucky.

Mas certamente o ceticismo não faz com que ele não reflita na mesma medida sobre tudo como qualquer outra pessoa – algo que é erroneamente atribuído aos ateus, aliás. O homem demonstra nas expressões de cansaço que guarda os mesmos receios de qualquer ser humano. Nesse sentido, o filme acerta em revelar a vulnerabilidade do personagem em momentos específicos, o que o torna extremamente humano. Assim, quando ele diz “eu estou com medo” para uma pessoa que vai visitá-lo casualmente, nossa reação é um misto de dor e pena, já que ninguém pode fazer nada para reverter sua situação, o que aumenta ainda mais nossa simpatia por ele, mesmo não sendo exatamente alguém sociável. Aliás, sua personalidade oscila muito entre um tipo irritado e um observador crítico que parece sempre abrir a boca para soltar uma boa tirada, o que algumas vezes revela seu modo racional de enxergar uma situação, assim como quando alguém conta uma história sobre um fuzileiro que conseguiu acertar um tiro de sorte impossível em um kamikaze em plena batalha: “pois o piloto certamente não teve sorte”.

Claro que isso se deve também a Harry Dean Stanton. Comovente desde o início, ainda mais por sabermos que foi seu último trabalho, sua atuação ultrapassa a tela pelo inevitável paralelo entre vida e obra. Onde estaria a linha que separa o que era o personagem e o que realmente pensava o próprio Stanton? Sem necessitar de uma reposta certa, eu diria que sua dedicação é o que torna a arte de atuar uma profissão tão bela (o que me lembra rapidamente de Vermelho Russo, um excelente filme nacional que homenageia justamente o trabalho de ator). O veterano de filmes como Alien e Paris, Texas se despe de qualquer amarra e doa seu corpo e suas emoções para que seu fim nos leve a pensar no nosso início e meio. Não é somente a representação de alguém muito velho, é um retrato seu, meu e de todos que conhecemos algum dia. Que belo presente de despedida não é mesmo!?

Mas sua trajetória não se apoia somente em sua caminhada. Povoado por personagens interessantes, aquele pequeno universo de uma cidade minúscula é o palco para que as características e conflitos do protagonista encontrem um meio de se desenvolverem organicamente. Desde de quando encontra um veterano que, assim como ele, lutou na 2ª Guerra Mundial (interpretado por Tom Skerritt), até quando se irrita com um advogado que prepara o seguro de vida de um homem que perdeu sua tartaruga de estimação (tartaruga não, é um cágado!) – este, através de uma ótima participação do mestre David Lynch, que consegue tornar sua história com seu animal em algo comovente – o protagonista vai traçando seu caminho de evolução espiritual (num sentido não religioso, se é que é possível dizer assim) e uma busca por uma aceitação que há de vir uma hora ou outra.

A grande qualidade de Lucky é que John Carroll Lynch, iniciante como diretor, jamais precisa rechear as bordas de sua narrativa para que ela nos emocione. Honesto do início ao fim, o filme só depende das reflexões que tiramos da rotina do personagem. Mesmo quando se permite tentar alguma coisa diferente, o resultado se torna eficiente pelo contexto. Dessa maneira, algumas sequências servem para nos colocar um pouco na subjetividade dos conflitos de Lucky, como aquela que envolve uma espécie de pesadelo a la Lynch (imaginei o diretor pedindo uma pequena contribuição ao mestre) em um beco com um corredor vermelho, ou quando vemos o personagem se relacionando com pequenas coisas que presenciou durante seu dia (os grilos na janela de seu quarto à noite), quase como uma representação literal de suas angustias, ainda mais tocantes quando embaladas por uma trilha que conta com uma cantoria de gaita e a belíssima I See a Darkness, de Johnny Cash (aliás, qualquer música dele parece funcionar em qualquer filme). A condução do cineasta é, portanto, equilibrada e mantém uma certa economia visual que faz com que alguns pequenos momentos sejam ressaltados, como os planos mais fechados e as leves aproximações quando algum personagem entoa uma reflexão particular, ou quando alguns elementos na narrativa são usados como uma rima (a abertura de uma porta no 1º e 3º ato) ou criação de expectativa (o personagem xingando algo ou alguém que não é revelado até o final).

A não ser que você não esteja disposto de maneira alguma a deixar que esta obra te atinja, este é um filme que não passa incólume. Ver alguém em seus anos finais caminhando pelas ruas de sua cidade, visitando as mesmas pessoas e mesmos lugares em uma busca, às vezes inconsciente, de um significado para as pequenas coisas parece algo distante. Mas é que é fácil para quem tem seus 20 ou 30 encarar a vida como uma longa lista de desejos que tem todo o tempo do mundo para se tornarem realidade. Ali, no limiar do fim, posso apostar que a expressão “aproveitar as pequenas coisas” não vai parecer tão clichê assim como é nos filmes.

Lucky é um dos melhores longas do ano. Presenciar seus 88 minutos de duração foi como fazer a caminhada derradeira de Harry Dean Stanton sabendo que, para ele, acabou. Para nós, ainda resta mais tempo (ou não) para deixarmos que as questões do filme repousem ali em segundo plano, enquanto fazemos planos e vivemos sem dar muita importância para o que há depois da curva.

Ainda embalado pelo efeito do filme, me lembrei de duas constatações sobre o conceito de nossa trajetória aqui nessa breve vida. Uma é de Woody Allen, que durante uma entrevista em 2010 disse: “eu acho que a vida é uma série de situações decepcionantes e desesperadoras, e nós é que arrumamos um jeito de nos iludir através de momentos pontuais de felicidade que nos permitem suportar a ideia de que um dia ela vai acabar”. A outra é do próprio Lucky, que, em certo momento, diz que sabe que tudo aquilo que conhece vai simplesmente desaparecer num vazio de nada. As duas parecem terríveis e pessimistas, mas, na verdade, não faz tanta diferença. Assim como para ele, o que nos resta é que a resposta mais próxima que teremos, assim como num filme, é que importa mais o caminho do que a própria chegada.


Divulgaí

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