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Crítica: Assassinato no Expresso do Oriente

Assassinato no Expresso do Oriente consegue, portanto, funcionar como uma boa versão da clássica obra de Agatha Christie, mantendo os conflitos e características principais para uma geração mais nova – mesmo que, eventualmente, tropece no exagero e na exposição.
Crítica: Assassinato no Expresso do Oriente

Talvez poucas adaptações cinematográficas de obras literárias como a de Assassinato no Expresso do Oriente sirvam como exemplo de como os filmes refletem a época e o público de seu tempo. Em 1974, o grande Sidney Lumet – diretor de clássicos como Doze Homens e Uma Sentença, Rede de Intrigas, Serpico e Um Dia de Cão – realizou sua versão de um dos mais famosos livros de Agatha Christie (publicado em 1934), ou a “Dama do Crime”. A história, que tem como protagonista o detetive Hercule Poirot, é um desses exemplos seminais de contos policiais repletos de mistérios e um exemplar uso das ferramentas de pista e recompensa. É um tipo de matéria prima que já vem quase lapidada para se encaixar numa narrativa de cinema. Ali estão os personagens peculiares, o crime misterioso, as pistas e a investigação feita de forma conjunta com o expectador.

Se, há mais de 40 anos, o cinema minimalista e com ritmo contido de Lumet era mais bem aceito (embora ainda com elementos clássicos em plena década de 70), o de 2017 é resultado de um público que, provavelmente, se sentiria entediado pela primeira versão. Assim, Kenneth Branagh transforma um enredo que se passava quase inteiramente dentro de um trem em uma narrativa que se permite maiores mudanças. Algumas delas prejudicam o resultado pelo excesso de didatismo, mas a maioria faz com o filme tenha sua identidade própria, mesmo mantendo a fidelidade geral (e moral) de sua origem.

Na trama, Hercule Poirot (Kenneth Branagh), personagem de diversas outras histórias da escritora, é um detetive famoso pela sua personalidade peculiar e genialidade na resolução de mistérios. Numa viagem de trem para Istambul, o protagonista se depara com um crime: alguém foi assassinado durante a noite quando a viagem foi interrompida por um deslizamento de neve. Agora, com a suspeita recaindo sobre todos os passageiros do vagão, o detetive é obrigado e solucionar mais um caso antes que o trem consiga chegar ao seu destino.

Teoricamente, a adaptação tem um entrave cinematograficamente natural: se passar dentro de um único ambiente durante quase toda sua duração. Filmes que tem essa característica são frequentemente vítimas de uma “teatralidade” por dependerem muito de exposição e de ações verbais. Mas é aí que um bom diretor entra em ação. Cabe a ele usar seu arsenal de linguagem para tornar a experiência do espectador tão intensa como a do próprio detetive, e Branagh consegue ser eficiente no quesito. Fora ao tomar parte da estrutura para apresentar Poirot ao público fora do ambiente principal, o diretor constantemente investe na tentativa de diversificar a câmera para manter a fluidez na narrativa e não cansar o espectador.

Para isso, não hesita em usar pontos de vista que se destaquem um dos outros, mesmo que só pela plasticidade da sequência. Assim, por exemplo, nossa visão acompanha os personagens entrando no trem através de uma câmera que navega pelo lado de fora; ou então vemos algumas ações importantes acontecendo em um acentuado plongée (câmera filmando de cima para baixo) para situar os ambientes pequenos e apertados das cabines do vagão. Em meio a personagens que são enquadrados recortados por um jogo de espelhos (tática bastante comum para salientar dúvida quanto a alguma situação ou alguém), a fotografia de Haris Zambarloukos (Thor, Cinderela, Locke) tenta tirar o máximo do contraste entre a frieza do ambiente e as cores do figurino e da direção de arte, se permitindo usar pontualmente jogos de sombra à medida que avançam os mistérios da trama.

Todo o aspecto visual ganha importância quando aliado a uma estrutura que tem mais a cara do público de 2017. Diferente de outras versões, esta adaptação escrita pelo roteirista Michael Green (Logan, Blade Runner 2049, Alien: Covenant) insere elementos que não estão nem no livro original – ao menos, não do qual saiu a história principal. Há um prólogo bem mais agitado que serve para determinar as características principais de Hercule Poirot. Além disso, durante o filme, há várias sequências que ganharam tons aventurescos que servem para adicionar ação (no sentido de dinâmica) à narrativa, tornando-a mais palpável para uma época onde o cinema é muito mais recortado e cada vez mais avesso à calmaria. O resultado é um filme que tem a capacidade de entreter e fugir de uma abordagem excessivamente focada nos diálogos.

Ainda assim, este é um filme que depende muito deles. Fora as inserções de flashbacks, que, além de servirem como link para a solução do mistério, ainda tornam a história mais diversificada visualmente, os diálogos são o meio pelo qual Poirot comunica suas descobertas aos passageiros, mas, principalmente, ao público. Mas é daí também que se originam os maiores problemas do filme. Várias das características e motivações são expostas excessivamente (e me lembro particularmente de uma das piores, quando é preciso mostrar, por exemplo, um personagem lutando com fãs e fazendo cara de vilão para que se entenda que ele é agressivo), fora isso, há momentos em que as soluções de pistas são marteladas mais de uma vez, impedindo que montemos todo o quebra-cabeça junto com o protagonista.

Mas alguns desses exageros dramáticos, apesar de prejudicarem um pouco o tom do filme, curiosamente acabam servindo com uma qualidade: a de dar um peso emocional e caloroso que não era a base principal pela qual o material original se apoiava. Nesse sentido, Kenneth Branagh tem mais espaço e liberdade para, ao mesmo tempo em que trabalha as estranhezas e peculiaridades de Hercule Poirot, conferir um peso dramático maior ao personagem, fazendo com que ele reaja com mais paixão aos acontecimentos, o que acaba ajudando o filme a se tornar mais intenso. O restante do elenco também tem seu tempo de brilhar. Michelle Pfeiffer mais uma vez se destaca quando tem a chance de fazer seu personagem se sobressair (assim como em Mãe!). Daisy Ridley (a Rey de Star Wars) passa o necessário do mistério no comportamento como Mary Debenham. Josh Gad se sai muito bem numa performance mais séria que seus papeis usuais. Já Penélope Cruz é pouco aproveitada – sua atuação soa preguiçosa quando lembramos que Ingrid Bergman fez o mesmo papel em 1974 – e Johnny Depp consegue equilíbrio em seu personagem sem precisar apelar para seus malfadados maneirismos atuais.

Assassinato no Expresso do Oriente consegue, portanto, funcionar como uma boa versão da clássica obra de Agatha Christie, mantendo os conflitos e características principais para uma geração mais nova – mesmo que, eventualmente, tropece no exagero e na exposição. Kenneth Branagh já mostrou que é hábil como idealizador visual (vide Frankenstein de Mary Shelley) e sua versão, embora situada no frio congelante, consegue ser mais calorosa e intensa que suas adaptações anteriores. Se assim funciona para o novo público, que assim seja. Desde que eles conheçam mais dessas histórias seminais escritas a mais de 80 anos.

Se depender das continuações já anunciadas, teremos mais Hercule Poirot pela frente.



Divulgaí

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