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Crítica: A Guerra dos Sexos

O filme possui certos momentos tocantes, que valem a ida ao cinema, e nos envolve de tal maneira que nos sentimos parte da história dos personagens, porém não chega a ser um filme memorável ou mesmo marcante
Crítica: A Guerra dos Sexos

As mulheres sempre lutaram por suas posições, desde que se sabe da existência da humanidade. As mulheres sempre lutaram para ter os mesmos direitos que os homens. Tal luta, por vezes, vem em discursos e debates. No entanto, as mentes masculinas mais retrógradas estão cheias de lógicas irracionais petrificadas, que nem mil argumentos irão destruir. E tal lógica, por sua vez, se vale da natureza humana, da biologia, da religião, da história, et cetera, et cetera. Assim, mais do que argumentos, muitas mulheres lançam mão de fatos indiscutíveis para comprovar sua igualdade perante os homens. E nada melhor do que um duelo, ou melhor, uma competição entre representantes de ambos os sexos para tirar à prova se realmente o sexo masculino é "superior" ao feminino ou se isso é apenas balela. A Guerra dos Sexos traz justamente isso: o embate histórico ocorrido em 1973 entre Bobby Riggs (um tenista de 55 anos, experiente, premiado e machista) - interpretado por Steve Carell - e Billie Jean King (uma tenista ade 29 anos, jovem, a mais nova campeã do maior circuito americano) - interpretada por Emma Stone.

Nessa disputa, entre conflitos pessoais e profissionais, ambos os personagens vão-se apresentando ao público com suas complexidades, seus problemas, suas qualidades e seus defeitos. Riggs, um apostador inveterado, cansado de sua rotina de executivo na empresa de seu sogro e desentendido com sua esposa, Priscilla Wheelan (Elisabeth Shue), apesar de perdidamente apaixonado por ela e por seu filho. King, a tenista de origem simples em busca do seu lugar ao sol, inteiramente dedicada ao tênis e determinada a se firmar como a melhor jogadora do mundo. Que fique claro: ela não se posicionava como uma feminista por pura política, mas, como é dito a certa altura, era uma tenista que, por acaso, era mulher.

Tanta dedicação e tanta determinação não poderiam suportar o desprezo e a evidente diferença de tratamento, por isso ela luta por seus direitos e de todas as tenistas. Então, o que começa como luta pela igualdade dos sexos se concretiza, primeiramente, na criação de um circuito de tênis feminino (sem o apoio da Organização do Torneio de Tênis). Em seguida, Riggs disputa com a vencedora do circuito e a vence. A partir de um desafio de Bobby que Billie decide enfrentá-lo. É, em meio a isso, que ela tem um caso com sua cabeleireira, o que surte um efeito paradoxal nela pois a torna mais leve e sincera, tendo um amor verdadeiro, mas também mais ansiosa, já que ninguém pode descobrir nada sobre isso, principalmente seu marido, Larry (Austin Stowell) - sempre secundário na vida de King, porque entende que, para ela o principal é o tênis, e ele faz de tudo para que nada atrapalhe Billie.

A direção de Jonathan Dayton e Valerie Faris, também diretores de Pequena Miss Sunshine, é madura e consciente, cheia de encantamento pela simplicidade, ainda que a obra não seja sobre um tema assim tão simples. Esse encantamento, muitas vezes, vem por meio da câmera próxima aos atores, muitas vezes temos um enquadramento mais que intimista - destaque para a cena em que Marilyn Barnett (Andrea Riseborough) está cortando o cabelo de uma King derretida e apaixonada à primeira vista. Outra característica da dupla é a sobriedade de explorar os conflitos internos dos personagens sem alarde, com o mínimo de artifícios e o máximo de pureza - por exemplo, há cenas em que se espera uma explosão de falas acusatórias, mas o que há é o silêncio perturbador e intenso, o silêncio que nos diz mais e melhor do que as palavras.

Destaque também para a direção de arte e para a direção de fotografia, os figurinos e os cenários nos permitem viajar para a década de 70, e algumas cenas têm o ângulo tão perfeito que parece estarmos vendo um quadro ou um festival de fotografia.

Quanto ao roteiro de Simon Beaufoy (Quem Quer Ser Um Milionário e 127 Horas), ele consegue dominar o enredo até certo ponto, quando começa a faltar um pouco de concatenação das camadas da história, mas, nos minutos finais, por se tratar do jogo propriamente dito (e, de fato, acompanhamos ponto a ponto como um jogo real, a ponto de torcer para King), o enredo passa a ser mais claro e objetivo.

Contudo, não se pode dizer mais do filme que isso: é um filme bem executado por ótimos profissionais. Decididamente todos os envolvidos se dedicaram muito, os diretores, o roteirista, os atores (tanto Carell quanto Stone tiveram que se preparar antecipadamente para o filme, com treinos e estudos, por exemplo, Emma Stone ganhou seis quilos de massa muscular para o filme, treinava cinco dias por semana e duas vezes por dia). Ainda assim, a despeito de tanta dedicação e tanto investimento pessoal e emocional, a bilheteria do filme tem deixado a desejar e ainda não cobriu o orçamento.

Portanto, mesmo que o tema não seja atual nem original, o filme possui certos momentos tocantes, que valem a ida ao cinema, e nos envolve de tal maneira que nos sentimos parte da história dos personagens, porém não chega a ser um filme memorável ou mesmo marcante, é um filme bom e suficiente para satisfazer os mais exigentes em termos técnicos e os mais encantados pela emoção que o cinema pode proporcionar.

Divulgaí

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