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Crítica: Bom Comportamento

Bom Comportamento é um filme que talvez dependa de sua disposição em aceitar a proposta de seus realizadores, mais calcada na experiência narrativa do que em pretensas resoluções ou significados.
Crítica: Bom Comportamento

Nos primeiros instantes de Bom Comportamento, somos apresentados a Nick, um rapaz jovem que responde a perguntas, aparentemente feitas por um psicólogo, a fim de identificar a lógica dos conflitos que ele transborda em sua expressão triste e reprimida, enquanto sua forma de falar revela que o sujeito sofre de algum tipo de deficiência mental (aliás, a cena funciona perfeitamente devido a uma caracterização impressionante e tocante de um dos próprios diretores do filme). Logo depois, o irmão do rapaz, que aparenta ser “normal”, chega para levá-lo sob uma manta de proteção fraterna e determinado a colocá-lo nos eixos como um verdadeiro irmão cuidando de outro... através de uma parceria para assaltar um banco com intuito de conseguir dinheiro para pagar a fiança de Nick. A relação entre os irmãos e um ritmo frenético impresso que mais parece ser um clímax adiantado são os pilares que sustentam o longa: a curiosidade em saber quem são esses irmãos e o exercício narrativo pelo qual os cineastas parecem estar mais interessados do que pela trama em si.

Falando em trama, ela se concentra nos esforços de Connie (Robert Pattinson) para conseguir um meio de libertar seu irmão Nick (Ben Safdie), que está preso em uma instituição hospitalar depois de ter reagido a uma suposta agressão de um funcionário. Considerando as autoridades – e até parentes – como verdadeiros inimigos da recuperação de Nick, o protagonista parte em uma busca desesperada para conseguir o dinheiro da fiança enquanto se vê cada vez mais encurralado pelo tempo e pelas decisões ruins.

Dirigido pelos irmãos Safdie (Bem e Joshua), o longa não demora mais do que 10 minutos para mostrar qual será sua abordagem durante seus 91 restantes. Fora os momentos iniciais, o filme se passa praticamente em uma jornada intensa e angustiante durante uma madrugada na vida do protagonista. Com uma estrutura que lembra muito Depois de Horas, clássico não muito relembrado de Martin Scorsese (não à toa, o nome do cineasta aparece na lista de lista de agradecimentos durante os créditos finais), a narrativa é marcada pelo ritmo frenético alternado com sequências mais pausadas (mas nunca deixando de serem tensas), em que acompanhamos uma série de eventos que se transformam em obstáculos improváveis com contornos absurdos e que vão complicando cada vez mais a jornada dos personagens.

Aliás, os diretores se revelam bastante eficientes em capturar nossa atenção para a urgência situacional que envolve Connie, nos fazendo até ignorar que a trama em si possui momentos que, em outros casos, desafiariam nossa descrença rapidamente em aceitar as conveniências do roteiro – este escrito pelo outro irmão Joshua e Ronald Bronstein. Isto é, é muito mais recompensador se deixar levar pela urgência crescente e o ritmo angustiante do filme do que imaginar se existe um grande motivo ou uma mensagem decifrável que se propõe dar algum significado a mais a esses personagens. Tanto é assim que o enredo é, basicamente, um recorte de um dia peculiar que opta por se guiar através de uma série de causas e consequências que funcionam pela ascendente quase fantástica, sem que se precise pedir por uma conclusão fechada. Inclusive, ao dar desfechos para alguns deles de maneira surpreendente e repentina, como se fosse quase “do nada”, os Safdie revelam claramente estarem mais interessados na sensação que irão causar no expectador do que na história em si.

E para isso, usam e abusam de planos fechados nos rostos dos atores, até mesmo em sequências mais agitadas e numa razão de aspecto com uma largura considerável. Inicialmente, a abordagem causa incômodo e parece ser um equívoco, principalmente pela sensação de desorientação, mas, com o tempo, a escolha acaba se justificando por aumentar significativamente a impressão de estarmos na pele dos personagens. A agitação na narrativa se junta com a fotografia de aspecto neon sujo que preza uma leve dessaturação – ainda que invadida, ocasionalmente, por uma alternância entre vermelho e azul que faz com se criem extremos visuais que auxiliam na abordagem narrativa. A mistura de um visual poluído e fechado com uma leve granulação transforma o mundo dos irmãos num quase pesadelo claustrofóbico.  Tudo isso, ainda, é elevado por uma trilha sonora que também remete à intensidade geral do filme. Composta por Daniel Lopatin, que trabalha sob o pseudônimo de Oneohtrix Point Never, a trilha eletrônica é praticamente onipresente e permeia bem a crescente narrativa e os vários momentos de “mini clímax”, com direito a toques épicos que parecem exagerar o que vemos na tela, o que acaba funcionando como parte do exercício dos cineastas (o destaque fica para a bela canção The Pure and the Demned, com parceria de Iggy Pop).

E em relação aos personagens, será que há muito o que explorar? Não há necessariamente um arco que seja parte importante da trama, o que não faz com que a galeria de figuras que aparecem ao longo do filme seja desinteressante. Robert Pattinson vem demonstrando amadurecimento crescente como ator e transforma Connie num personagem dúbio. Durante algum tempo, aprendemos que o sujeito é implacável e não hesita em quebrar regras constantemente a fim de ajudar o irmão – ou a ajudar a si mesmo. Porém, a composição do ator é certeira em fazer com que fiquemos na dúvida sobre a linha que separa a dissimulação de uma dignidade escondida lá no fundo. Até nos personagens que aparecem de maneira secundária, é preciso pouco tempo para que fujam de uma possível unidimensionalidade. Assim. Jennifer Jason Leigh precisa do mínimo para compor uma certa tragédia e descontrole, mesmo sem deixar a humanidade de lado com sua Corey; do mesmo jeito – e ainda mais impressionante – é a habilidade de Ben Safdie em tornar Nick um personagem tocante e que nos desperta imediata atenção e curiosidade sempre que aparece (sentimos uma pena quase imediata quando vemos seu rosto pela primeira vez).

Bom Comportamento é um filme que talvez dependa de sua disposição em aceitar a proposta de seus realizadores, mais calcada na experiência narrativa do que em pretensas resoluções ou significados. Até por isso, o filme costuma errar quando tenta estabelecer signos que tentam dar uma filosofia a mais para alguns elementos, assim como acontece, por exemplo, com a relação de Connie com os cães, ou quando perde muito tempo tentando justificar demais a trajetória de personagens secundários. O que realmente importa é que a experiência entregue pelos irmãos Safdie pode ser recompensadora, principalmente, no quesito sensorial; ainda mais, tem o mérito de usar algumas boas surpresas para inverter expectativas acerca do destino dos irmãos – e não poderia deixar de mencionar a ótima rima do início do filme com seu final, que transforma um desfecho melancólico em uma pontinha de dignidade (ao menos, para um deles).

Divulgaí

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