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Trama Alternativa: Como Você É

Em suma, são diversos elementos que ajudam a construir e ampliar a atmosfera nostálgica e misteriosa do drama, e o interessante é que isso faz o espectador se aproximar cada vez mais do filme e a sentir uma fácil empatia pelos protagonistas

O retrato de uma geração que ainda é refletida hoje. Como Você É volta para o final do século passado, para aquela era de juventude transviada ao som dos gêneros grunge e punk, dos tênis all-star sujos e cabelos oleosos, que não tem medo de se redescobrir ou sair de sua zona de conforto. Miles Joris-Peyrafitte dirige seu primeiro longa-metragem com ares de um veterano, totalmente no controle do espaço-tempo da narrativa e sem se atropelar em vários temas abordados, dirigindo atuações incríveis de um elenco relativamente novo. Explorando a raiz da angústia e rebeldia dos jovens, o drama é como um denso estudo de personagem, focando em um ponto cercado por complexidades menores – e construindo uma atmosfera totalmente nostálgica.

No começo dos anos 90, Jack vive com sua mãe em uma cidadezinha pacata no norte dos Estados Unidos. Até que ela começa a namorar Tom, um ex-fuzileiro naval rigoroso, que tem um filho de mais ou menos da idade de Jack, chamado Mark. Os dois adolescentes se identificam um no outro e dão início a uma estreita amizade, tornando-se muito próximos. Quando conhecem Sarah, uma menina da escola, formam um trio de amigos quase inseparável. É então que a história dos três se torna uma montanha russa de emoções, rebeldia, questionamentos, redescoberta, sexualidade, esperança e dor – tudo isso ao som subjetivo do rock alternativo de Nevermind do Nirvana.

Com um título derivado da música Come as You Are, o filme depende da época que retrata para dar vida à sua narrativa, e consegue esse feito ao construir uma excelente atmosfera – com o auxílio de várias características como a fotografia, a trilha sonora e os próprios atores. É uma produção que parece ter (literalmente) viajado no tempo, com visual impecável dos figurinos às paisagens, que servem como ótimos recursos imagéticos da juventude antes da chegada da tecnologia que se tornou indispensável nessa geração. É interessante a fluidez natural do enredo, a trama usa entrevistas policiais com os personagens (numa proporção 4:3 e qualidade de uma câmera normal) como recurso narrativo para voltar no tempo e aplicar uma dose de mistério, deixando o espectador ansioso pelo que está por vir vendo a estrutura da linha temporal não-linear, e ao mesmo tempo, aproxima o espectador dos personagens principais, dando indícios de que algo terrivelmente trágico aconteceu.

Kurt Cobain foi o porta-voz dessa geração. O principal símbolo de contracultura nos anos 90, e o filme faz bom uso disso com referências tanto objetivas quanto subjetivas – especialmente ao mostrar a reação de Jack, Mark e Sarah ouvindo no rádio sobre seu suicídio; e Jack vestindo um vestido parecido com o que Cobain usou em uma entrevista – é perceptível os ideais do cantor pairarem sobre o longa, principalmente os que se referem a ser quem você verdadeiramente é, usar sua liberdade e se abrir sobre sua sexualidade. É interessante também os contrastes entre os protagonistas, Jack e Mark, os dois são ao mesmo tempo muito parecidos e bem diferentes. As principais características que destoam as duas personalidades, são a sensibilidade e a rebeldia, que aparecem refletidas nos relacionamentos que os dois estabelecem com os seus pais. A sutileza com que o filme aborda sobre como juventude é prejudicada e “transformada” é significante porque não procura um culpado, apenas mostra o rumo natural.

Como Você É trata sobre diversos temas, mas sempre mantendo seu enfoque em apenas um. A relação entre Jack e Mark é retratada com diversas camadas, certas palavras aqui e outros olhares ali entregam pistas de sentimentos escondidos, abordando timidamente a bissexualidade – por motivos do próprio enredo. A gradual construção do mistério auxilia no peso do clímax final, onde as duas linhas de enredo do passado e do presente finalmente se encontram. O filme transita entre um estado otimista para conformista-pessimista, sempre refletindo onde a história se encontra e na personalidade de cada personagem. A trilha sonora do longa é repleta de um rock alternativo original, gravado com ajuda do próprio diretor, e amplia a atmosfera dos anos 90 do longa, completando todos os momentos mais felizes, tristes e intensos.

A fotografia de Caleb Heymann, que também estreia no mundo cinematográfico – tendo participado apenas de produções menores até agora, como curtas –, auxilia na (re)construção da época, apresentando uma paleta de cores um pouco pálidas, sem destacar nenhuma cor e focando em um aspecto cru, com um leve filtro marrom madeira sobre o filme todo (exceto nas cenas das entrevistas). Sua cinematografia preza planos frontais, de perfil e no alto, usando recursos como o slow motion em determinados momentos e cortando o áudio para aumentar a intensidade do que a cena quer transmitir. A montagem e a edição configuram-se em ótimas características para ampliar o clima do filme, com cortes secos e visando sua simplicidade.

A direção de Miles Joris-Peyrafitte é crucial, estreando no cinema de modo completamente certeiro e sem transparecer nada amador. O filme não funcionaria se alguém estivesse fora de sintonia com seu personagem, e todo o elenco – principalmente o trio principal jovem – está perfeito em seu papel. E muito de sua excelência se deve à escolha dos atores, que parecem ter saído direto dos anos 90. Os que mais se destacam são Owen Campbell (The Americans) como Jack e Charlie Heaton (Stranger Things) como Mark, a dupla está sempre fantástica em cena e é a alma contrastante do filme. Amandla Stenberg (Jogos Vorazes) como Sarah também está ótima, a atriz consegue passar a essência da personagem que destoa das personalidades dos meninos, sem cair na ingenuidade.

Em suma, são diversos elementos que ajudam a construir e ampliar a atmosfera nostálgica e misteriosa do drama, e o interessante é que isso faz o espectador se aproximar cada vez mais do filme e a sentir uma fácil empatia pelos protagonistas. Quem nunca se sentiu confuso como Jack ou ficou com vontade de se rebelar como o Mark? É fácil refletir muitas das complexidades dos personagens, que estruturam esse retrato de uma geração que dispensava rótulos e influenciou a atual. No fim, o longa de Joris-Peyrafitte conseguiu fazer aquilo que Last Days de Gus Van Sant pretendia e trouxe novamente o ar simples e orgânico do final do século passado que Jovens, Loucos e Rebeldes de Richard Linkater fez em 1993, mas adicionando uma boa carga dramática. E não é exagero dizer que Como Você É pode se tornar um clássico daqui a alguns anos.
Divulgaí

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