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Trama Alternativa: Estados Unidos Pelo Amor

A distância emocional que o filme proporciona, rebate o sentimento de irremediável tristeza e vazio existencial – justamente as características mais fortes das personagens.
Trama Alternativa: Estados Unidos Pelo Amor

Quando pensamos em cinema polonês, é praticamente inevitável surgir nomes de grandes diretores que foram cruciais para caracterizar seu estilo, como Andrzej Wajda (Cinzas e Diamantes e Kanal), Krzysztof Kieslowski (Não Amarás e Trilogia das Cores) e até mesmo Roman Polanski em seu início de carreira (Faca na Água). Nas últimas décadas, têm surgido uma safra de cineastas jovens com o objetivo de provar que o seu cinema continua com a mesma grandiosidade. Após Ida, de Paweł Pawlikowski, vencer a estatueta de melhor filme estrangeiro no Oscar há quatro anos atrás, os olhos dos outros países voltaram-se para a Polônia, que provou ser uma atual potência cinematográfica emergente. Arranha-Céus Flutuantes, A Última Família, Em Nome Do..., Hora de Morrer e Tricks são mais provas vivas de que essa nova geração vem amadurecendo nos últimos anos e produzindo filmes que impressionam por tamanha grandeza e qualidade. Estados Unidos Pelo Amor, dirigido por Tomasz Wasilewski, é mais um longa-metragem que entra nessa categoria especial de filmes poloneses do século XXI, explorando um enredo amargo.

Esqueça o país, porque o título não é unicamente por causa dele. A escolha de “estados unidos pelo amor” como título surge através de uma dualidade inteligente separada por dois lados. A primeira é que existe uma pequena e irônica ligação com o país americano, e o outro lado é o jogo de palavras com a situação que as protagonistas se encontram. As histórias – plural, pois são três arcos episódicos – se passam em 1990, no período após a queda do Muro de Berlim, quando a Polônia se via finalmente livre das raízes forçadas do Império Soviético e caminhava rumo ao pop dos Estados Unidos. Uma época de (falsa) libertação e autoconhecimento, que quatro mulheres tentam derrubar o metafórico muro de amores tóxicos e paixões compulsivas que existem dentro – e ao redor – delas. A ironia dessa ligação reside justamente na “libertação” que essa transição deveria fazê-las sentir. Mas não o faz. Agata, Iza, Renata e Marzena estão unidas pelos estados (ou melhor dizendo, sintomas) em que se encontram: pura solidão, oprimidas pelo seu desespero interior e totalmente consumidas pelas definições erradas de amor.

Agata (Julia Kijowska) está infeliz e depressiva em seu casamento, alimentando uma obsessão fútil pelo padre de sua igreja – a completa falta de amor; Iza (Magdalena Cielecka) é diretora de uma escola que tem um romance com o pai de uma aluna, esperando que ele formalize seu relacionamento agora que sua esposa faleceu – amor compulsivo, sem reciprocidade e abusivo; Renata (Dorota Kolak) é professora de literatura e estranhamente obcecada pela sua vizinha – amor platônico e complacente; e Marzena (Marta Nieradkiewicz), vizinha de Renata e irmã de Iza, nutre o sonho de ser modelo. É interessante como “amor” é a palavra que mais se repete no longa-metragem, e é o único sentimento que parece estar inexistente em todas as cenas.

Com um roteiro, escrito pelo próprio diretor, estrategicamente estruturado para mostrar que as três histórias estão interligadas e acontecendo ao mesmo tempo, não é difícil ver um detalhe de um arco aparecer em outro para ajustar a cronologia ou deixar uma parte em aberto para o outro fechar. A subjetividade da narrativa – singular, pois apesar de serem três histórias diferentes, a narrativa é uma só – é crucial para realçar a realidade que o filme busca retratar. E o cuidado com os cenários, milimetricamente simétricos, constroem a atmosfera envolta de frieza que corrói as entranhas do filme.

A fotografia de Oleg Mutu (4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, Além das Montanhas e Orizont) auxilia nesse aspecto com tonalidades pálidas e com o uso exacerbado da luz branca. Sua cinematografia consiste em enquadramentos tão gélidos quanto os próprios tons do filme, totalmente parados e cortando certos detalhes, como a cabeça de um personagem ou suas mãos, dando repetidamente a sensação de que algo está faltando – exagerando em movimentos praticamente inertes diante da narrativa. A direção de Tomasz Wasilewski (Arranha-Céus Flutuantes e In a Bedroom) é excelente e a peça-chave para a grandiosidade do longa-metragem. Com uma sintonia estonteante, o diretor tem facilidade em reger um filme com diversas camadas de complexidade.

A distância emocional que o filme proporciona, rebate o sentimento de irremediável tristeza e vazio existencial – justamente as características mais fortes das personagens. Estados Unidos Pelo Amor não é um filme “fácil”. Ele é pesado e difícil de ser digerido. Aquele tipo de cinema clássico que temos o costume de dizer que é um soco no estômago. Não por ter um plot twist mirabolante ou frases impactantes, mas por simplesmente ser uma pintura gélida com partes vazias, onde o pincel não conseguiu alcançar.

Divulgaí

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