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Na Netflix: Okja

Okja é um filme importantíssimo. Ele não é um documentário (muito longe de tratar o tema como Terráqueos de Shaun Monson e Before the Flood de Fisher Stevens), mas procura abordar a realidade com o intuito de causar efeito nas pessoas e tentar alcançar um público maior
Na Netflix: Okja

Após ser exibido no Festival de Cannes 2017, foi aplaudido em pé pelos espectadores, mas depois do logo da Netflix aparecer após os créditos, os aplausos se tornaram vaias. O mais novo filme de Bong Joon-ho é principalmente sobre a amizade entre uma pequena menina coreana, Mikha, e sua porca gigante de estimação, Okja. Tendo essa comovente relação como núcleo da narrativa, o diretor coreano abre espaço para abordar temas relacionados à realidade por trás das indústrias alimentícias, o que a maioria das pessoas preferem não pensar quando estão comendo sua carne no almoço. O processamento de animais em escala industrial, a desumanização das corporativas alimentícias, o ativismo e a predileção das pessoas em definir que certos animais são apenas comida são elementos presentes no enredo que servem de base para construir um filme sentimentalista, cheio de críticas e com sacadas extremamente realistas.

Lucy Mirando (Tilda Swinton) é CEO de uma das maiores empresas da indústria alimentícia, que apresenta ao mundo uma nova ideia: criar geneticamente uma nova espécie de porcos, maiores e com traços de outros animais, que precisam comer menos, defecam menos e possuem muito mais carne. Os chamados “super-porcos”. Para promover sua ideia, eles oferecem 27 porcos gigantes para vários fazendeiros ao redor do mundo, para esperar eles crescerem e escolher o animal mais “apresentável” para o Festival de Super-Porcos após alguns anos. É assim que Mikha (Seo-Hyeon Ahn) e seu avô recebem Okja, onde moram em uma cidadezinha no interior da Coreia do Sul. E com o passar do tempo, as duas desenvolvem uma amizade sincera. Após 10 anos, a corporação Mirando volta para pegar os porcos gigantes com a intenção de revolucionar as indústrias alimentícias, mas a pequena menina coreana não desiste de sua amiga tão facilmente.

O roteiro é muito bem escrito pelo próprio Bong, em parceria com Jon Ronson – escritor de obras que já foram adaptadas para o cinema, como Frank e Os Homens que Encaravam Cabras – e contém diversos elementos que funcionam juntos. Okja trabalha com diversas situações diferentes e comoventes à sua própria forma, como um filme com diversas camadas de complexidade. O longa tem uma superfície sutil de humor que não ofusca sua dramaticidade, um contraste interessante e comum do cinema coreano, e cenas muito pesadas de violência aos animais, além de críticas bem construídas à hipocrisia das grandes corporações – inclusive até uma pequena crítica escondida em plena vista: o nome da empresa Mirando é bem semelhante a Monsanto, uma das indústrias alimentícias que mais prejudicam o meio ambiente e os animais atualmente – e observações realistas que se configuram em pontas “abertas” no roteiro – como o grupo de ativistas conseguindo provas de abuso aos animais na indústria e mesmo assim, não conseguindo mudar essa situação, algo que acontece constantemente.

Seguindo uma estrutura linear e com diversas ramificações no enredo, Okja é muito mais do que um filme em prol do vegetarianismo. É um filme em prol da humanidade, que parece ter sido esquecida para dar lugar ao dinheiro. Com tantos personagens e informações formando uma grande teia, era fácil deixar algo confuso na narrativa, mas o enfoque de Bong não perde de vista o relacionamento entre a menina e a porca gigante, deixando todos os outros arcos que interferem nessa amizade, como algo em torno da história. É emocionante e extremamente triste acompanhar Mikha tentando resgatar um animal pelo qual ela criou tanto afeto, e é revoltante ver a frieza das indústrias e pensar que não é possível fazer nada. O contraste entre duas culturas diferentes, oriental e ocidental, a parte rural da Coreia do Sul e a cidade mais agitada dos EUA, é construída muito bem pelo diretor, que já é acostumado em ser a “ligação” entre os dois continentes.

A fotografia de Darius Khondji (Meia-Noite em Paris e Delicatessen) segue traços que destacam as cores mais fortes e visam transmitir um sentimento em cada momento – como a cena em que Mikha vai até Seoul atrás de Okja pela primeira vez e está sozinha no meio de uma multidão, se destacando pela cor de sua roupa, como alguém totalmente perdido guiado apenas pelo seu coração. Sua cinematografia é habilidosa, principalmente levando em consideração que os porcos gigantes são inteiramente feitos em CGI, com movimentos inteligentes que passam sensações para o espectador, como a cena final quando Mikha conversa com os empresários da Mirando e segue a perspectiva dela – vemos os empresários como se estivéssemos “de baixo”, e quando mudava para a perspectiva dos funcionários da Mirando, vemos a menina como se estivéssemos “de cima” – mostrando a clara diferença entre o poder e a sensação de impotência. Os efeitos especiais dos “super-porcos” são excelentes e dão vida a um animal carismático, quase impossível de não sentir empatia por eles.

As atuações do elenco são outro elemento forte de Okja, composto de atores coreanos, um pouco desconhecidos, e americanos, de grandes nomes. Tilda Swinton (Amantes Eternos) como a mente da Mirando está excelente, a atriz muda a voz para um tom frenético e imita uma língua presa de modo impressionante. Jake Gyllenhaal (Animais Noturnos) como o apresentador de programas de animais, Johnny, está igualmente excelente. O ator está diferente de qualquer outro papel que já atuou, adotando uma voz fina e trejeitos excêntricos. Paul Dano (Pequena Miss Sunshine) e Steven Yeun (I Origins), ativistas que tentam derrubar a Mirando, não ficam atrás nas performances, e a pequena Seo-Hyeon Ahn apresenta uma atuação expressiva e muito carismática, o amor dela por Okja é contagiante. A montagem e edição não tem cortes truncados e flui perfeitamente, transitando as cenas sem prejudicar a continuidade da narrativa. A direção do sul-coreano Bong Joon-ho (O Hospedeiro e O Expresso do Amanhã) é conhecida por superar limites culturais e linguísticos, o que acontece novamente em Okja, focando no gênero em si, que segundo ele, é universal. A maioria dos filmes desse tipo tenta ofuscar grande parte do que realmente acontece, enquanto documentários mostram a realidade totalmente desnudada, e Bong faz um excelente trabalho por fundir essas duas características e quebrar essa divisão, que deixava todos confortáveis por esconder a realidade.

Okja é um filme importantíssimo. Ele não é um documentário (muito longe de tratar o tema como Terráqueos de Shaun Monson e Before the Flood de Fisher Stevens), mas procura abordar a realidade com o intuito de causar efeito nas pessoas e tentar alcançar um público maior. Seu final, nem feliz ou triste, tem um poderoso silêncio que se configura em uma das cenas mais densas e pensativas do longa, causando no espectador uma sensação de vazio e impotência, e com o pensamento de que é só trocar os “super-porcos” por vacas, bois, galinhas, porcos e qualquer outro animal que a sociedade considera como simples pedaços de carne, que a situação do filme não é nada fictícia. Resta saber até quando os animais serão tratados com brutalidade e de forma tão desumana.

Divulgaí

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