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Na Netflix: Death Note

No fim, Death Note era tudo aquilo que os fãs do mangá temiam: uma péssima adaptação que americanizou tudo o que podia e que simplesmente desprezou toda a cultura e características orientais da história original, substituindo-as pelas coisas mais clichês que o ocidental pode oferecer.
Na Netflix: Death Note

Adaptar um dos mangás que existe há mais de dez anos e que se tornou um dos mais amados pela legião dos otakus – os amantes de animes e mangás – era uma tarefa ousada e extremamente difícil antes mesmo de dar início na produção do filme. Era inevitável as críticas e dúvidas antes do resultado final, que na verdade eram o grande medo dos fãs verem uma história incrível ser totalmente alterada nas mãos de americanos. Distribuído e produzido pela plataforma de streaming da Netflix, o live-action Death Note já sabia que a chance dos fãs do mangá não gostarem já era alta – por americanizarem praticamente toda a história e as personagens, inclusive dando a justificativa boba de que o protagonista não era asiático porque não encontraram um ator fluente em inglês – e depois da produção finalmente ser lançada, eles fizeram quase impossível para um fã (e até mesmo quem não é) gostar do que foi apresentado.

Light Turner (Nat Wolf) é um adolescente com problemas normais, até que um livro poderoso intitulado Death Note, capaz de controlar a morte das pessoas, cai (literalmente) em suas mãos. Vendo o que é capaz de fazer com esse caderno, ele começa a julgar quem merece viver ou não – matando criminosos que aparecem nos noticiários de televisão. Ao lado de Mia (Margaret Qualley), o poder sai de controle e agentes do FBI – liderados pelo melhor detetive do mundo, L (Keith Stanfield) – começam a investigar quem é o “justiceiro” Kira, para trazê-lo à justiça.

Death Note procura se desviar da narrativa original e apresentar uma que, no mínimo, tenta surpreender até mesmo os fãs mais ávidos. Até aí, tudo bem. O problema realmente aparece quando eles mudam literalmente tudo, desde a história até os personagens, além de inserir novos totalmente desnecessários, informações inexistentes e sem objetivo algum, não incluem pontos importantes do mangá – como a possibilidade do portador do caderno diminuir sua vida pela metade ao “comprar” os olhos do Shinigami, podendo assim, ver o nome das pessoas assim que ele olha pra elas – e transformam uma história incrível, inteligente e impressionante para mais um filme pré-adolescente hollywoodiano, onde o grande foco é o namoro de Light e Mia, que resulta no clímax final do longa sustentado por uma pobre e previsível “traição”. Além de mortes forçadas e um alívio cômico tolo. Os roteiristas Jeremy Slater (Quarteto Fantástico), Charley e Vlas Parlapanides (Imortais) pegaram toda a essência do mangá e ao invés de aplicá-la no roteiro, a jogaram no lixo.

O protagonista Light – a coluna vertebral da história – teve todas as suas características mudadas, de um sociopata incrivelmente inteligente com planos mirabolantes para sempre evitar que ele seja pego ou descoberto, foi para um adolescente facilmente controlável com problemas de namoro. Além da patética insinuação de que ele tinha boas intenções e era uma “vítima”, enquanto Mia era a verdadeira vilã da história e a arquiteta das mortes dos policiais. Nat Wolff entrega uma atuação clichê e infantil, mas isso nem foi culpa do ator, seu personagem simplesmente era assim.

O agente independente L – o personagem mais amado pelos fãs no mangá – também não escapou de inúmeras alterações, mas ele funciona até o terceiro ato do filme, quando o arco de Watari chega ao fim e ele enlouquece, algo totalmente incomum dele e que acaba “destruindo” tudo que eles tinham construído no L, fazendo-o parecer muito temperamental para quem é o melhor detetive do mundo. Seu jeito excêntrico não é bem explorado pelo ator Keith Stanfield, apenas com pequenos tiques na mão e na fala, que mesmo não sendo decepcionantes, também não são totalmente satisfatórios. Falar de Mia – que é na verdade, a adaptação de Misa Amane do original, apesar de não parecer – é complicado, porque as mudanças feitas nela podem ser vistas como algo positivo ou negativo, depende do ponto de vista. Mas uma coisa é certa, ela definitivamente não tem nada parecido com sua personagem original do mangá, começando pelo fato de que na adaptação cinematográfica, ela não é portadora de um caderno da morte.

A fotografia de David Tattersall (À Espera de Um Milagre e Star Wars Episódios I, II e III) é extremamente escura e raramente destaca as cores, deixando um filme visualmente limitado – exceto por poucas cenas, como a do Light conversando com o L em uma lanchonete. Sua cinematografia tem uma perspectiva ambígua, ora com cenas filmadas com movimentos bem pensados e enquadramentos bem feitos, ora com cenas genéricas de um longa simples de Hollywood – como o péssimo desfecho na roda-gigante. Adam Wingard (Bruxa de Blair e Você é o Próximo) entrega uma direção de altos e baixos, pendendo mais para os aspectos negativos. A montagem e a edição consistem de cortes numa quantidade exagerada e desnecessária, configurando-se em uma das características técnicas mais descuidadas do filme.

No fim, Death Note era tudo aquilo que os fãs do mangá temiam: uma péssima adaptação que americanizou tudo o que podia e que simplesmente desprezou toda a cultura e características orientais da história original, substituindo-as pelas coisas mais clichês que o ocidental pode oferecer. Além de realizar tudo isso com uma estética ruim e técnicas de cinema que poderiam (e deveriam) ter sido mais cuidadosas, configurando-se em uma verdadeira aula de como não fazer uma adaptação. E agora fica a pergunta: até quando vão insistir em fazer filmes live-action tão infiéis e bobos?


Divulgaí

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