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Crítica: Valerian e a Cidade Dos Mil Planetas

Valerian e a Cidade Dos Mil Planetas é como uma estrutura ambiciosa que foi pensada para ser grande, mas construída apenas a partir de dois alicerces: o visual e o par romântico.
Crítica: Valerian e a Cidade Dos Mil Planetas

O cineasta francês Luc Besson tem apresentado uma significativa irregularidade ao longo dos anos. Inegável em sua inventividade para imaginar visualmente uma história, não teve sempre o mesmo êxito em outros aspectos; daí podemos citar como exemplo o roteiro problemático de Lucy, filme que, como outros da carreira, mira altas pretensões temáticas, mas tropeça no desleixo e falta de foco em seu desenvolvimento. Claro que o diretor já tem longa carreira e ótimos trabalhos que lhe garantiram um certo nome (Imensidão Azul e O Profissional são muito lembrados) e estes ainda parecem lhe conceder o dom de causar grande expectativa a cada trabalho anunciado. Com este último Valerian e a Cidade Dos Mil Planetas, infelizmente, pouco se pode dizer sobre algum avanço em relação ao seu último projeto, se mostrando mais um bom produto visual, porém, vazio como seus personagens e sua trama.

No filme, que se passa num futuro distante, século XXVIII, os humanos já convivem com milhares de seres das mais diversas espécies e origens. Quando um planeta pacífico é destruído por causa de uma explosão causada pela queda de centenas de naves, uma pequena criatura sobrevivente capaz de multiplicar a energia é roubada por traficantes intergalácticos. Designados para recuperar o que foi capturado, os agentes espaço-temporais Valerian (Dane DeHaan) e Laureline (Cara Delevingne) são jogados em meio a uma trama envolvendo uma guerra entre raças e a Cidade Dos Mil Planetas, um local gigantesco que abriga inúmeros seres convivendo em uma metrópole espacial.

Pela própria sinopse, não é difícil de imaginar o potencial grandiloquente da história e é possível afirmar que ele é atingido, ao menos, na parte da construção de um grande universo heterogêneo. Nos primeiros instantes do filme, uma sequência exibida ao som da bela Space Oddity, de David Bowie, mostra a evolução entre a comunicação do homem com outras espécies alienígenas. Dotadas das mais diversas aparências, as espécies ganham, nas mãos da equipe de design de produção e figurino, caracterizações que se mostram completamente diferente umas das outras. O visual, repleto de formas estranhas e uma funcionalidade que beira o irreal, é a dica que temos para o estilo escolhido por Besson para pintar os ambientes e até o tom da própria narrativa, que acaba em consonância com a space opera característica do material original do qual o filme foi adaptado: a série de quadrinhos Valérian et Laureline, criada por Pierre Christin e Jean Mézières, na década de 1960.

Mantendo as características desse gênero, o universo concebido pelo filme se distancia da tendência fria e metálica das ficções cientificas recentes do cinema. Cada local que o expectador é levado a visitar se apresenta como uma mistura interessante de cores, estilos e um leve elemento satírico que cria semelhanças entre a familiaridade humana e o bizarro. Por exemplo, enquanto o planeta Mull é uma espécie de praia paradisíaca que parece ter saído de um sonho, banhada em um azul claro e cintilante, o mercado visitado pelos heróis em busca dos traficantes é um deserto sujo, cheio de bugigangas e que reproduz, basicamente, uma enorme feira dos importados interplanetária. A preocupação em criar ambientes que mesclam representações de locais atribuídos aos humanos – o mercado, já citado, e um bordel, por exemplo – com distorções quase cartunescas do estereótipo de extraterrestre comumente abordado no cinema cria uma identidade por vezes cômica, mas sempre curiosa. A riqueza visual dos ambientes e a estranheza das variadas formas de vida encontradas no filme o transformam num interessante, vistoso e exagerado espetáculo visual, lembrando um pouco o que próprio diretor já tinha apresentado em O Quinto Elemento.

É uma pena que todo trabalho na caracterização do universo não encontre paralelo em sua trama. Apresentando um grande potencial em seus elementos do 1º ato – um exemplo é a curiosa possibilidade de interagir com duas dimensões diferentes em um mesmo local – o filme começa apresentando situações que chamam a atenção pela ideia, mas são sempre deixados de lado para seguir com um enredo estufado por demais: a existência de uma criatura que é capaz de engolir pequenas esferas de grande energia para depois expeli-las (pois é) num número altamente multiplicado jamais consegue ser mais que um elemento motivador que serve somente aos conflitos dos personagens; ou a Cidade Dos Mil Planetas, que abriga milhares de criaturas diferentes durante centenas de anos, mas pouco ganha importância diante do tempo gasto com a trama – aliás, esta que, telegrafada sempre que possível, parece acreditar que tem algo de revelador para mostrar, mas só atinge a expectativa mais básica ao sequer criar alguma surpresa ou conflito que se diferencie do que já foi visto no começo. No fim das contas, o filme se transforma numa viagem entediante e previsível, mesmo que impressionante em seu visual.

Mas os problemas também afetam outra parte essencial para que nosso investimento seja eficiente: a falta de química e a má escalação – e direção – de atores. Não que DeHaan seja mau ator (não é) e Delevingne também (sim, talvez seja), mas há um distanciamento que transforma nosso envolvimento com os heróis numa peça que sempre parece estar fora do lugar. Grande parte desse problema se deve a um roteiro que jamais consegue acertar na sua intenção de usar o interesse romântico do casal como fundamento da nossa empatia. Repleto de diálogos ruins, como aquele que já faz Valerian e Laurenie se apresentarem enunciando suas principais características de personalidade para o público, do tipo “sou um rapaz com um jeitinho cafajeste, mas no fundo tenho bom coração”, o roteiro, escrito também por Besson, além de já apresentar o problema da falta de bons elementos de reviravolta – embora inocentemente os sugira – ainda se prejudica por gastar tempo demais usado a relação (que não funciona) entre o casal para tentar inserir humanidade à história. Caso isso tivesse funcionado, não haveria o desejo de cortar, pelo menos pela metade, um longo segmento onde a trama principal é esquecida para dar lugar a um excerto romântico que acaba prejudicando a estrutura do filme como um todo – inclua aí também a tentativa de despertar emoção usando um personagem bastante peculiar interpretado por Rihanna.

Valerian e a Cidade Dos Mil Planetas é como uma estrutura ambiciosa que foi pensada para ser grande, mas construída apenas a partir de dois alicerces: o visual e o par romântico. Se uma delas não funciona, o desequilíbrio é inevitável. Mesmo com um apuro estético que vale por sua própria apreciação, é um trabalho quase impossível fazer com que 137 minutos de filme consigam disfarçar a frivolidade de sua jornada, o que só piora o fato de que, depois de um período de duas semanas onde tivemos dois ótimos blockbusters, Luc Besson retorna apenas para confirmar sua irregularidade recente.         

Divulgaí

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