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Crítica: Os Guardiões

É decepcionante, como expectador e como cinéfilo ávido em algo diferente, sair tão decepcionado (mesmo depois de boas risadas) diante de uma tragédia cinematográfica como essa.
Crítica: Os Guardiões

Ah não... o filme está dublado em inglês

Nos primeiros instantes da projeção, me lembro exatamente do pensamento que passou pela minha cabeça e que, inocentemente, pensei que iria ser a maior das minhas preocupações com o restante do filme. Antes de rir dele, eu poderia achar graça mesmo era da minha própria esperança no que vinha a seguir.

Mas antes, voltando um pouco, Os Guardiões já vem sendo alardeado há uns bons meses como “aquele filme de super-herói russo”, uma espécie de tentativa do cinema do país em levar os seus Vingadores para tentar um espacinho nesse mercado poderoso das produções milionárias. Embora com um orçamento baixíssimo para os padrões do subgênero, 330 milhões de rublos (equivalentes a aproximadamente 5,5 milhões de dólares), o trailer tem cara de superprodução e o “boca a boca” ajudou a formar uma certa expectativa com o projeto. Depois de seus 89 minutos de duração, não há outra maneira de descrever o resultado: um desastre em praticamente todos os sentidos; pior, a dublagem e o orçamento são responsáveis pelos menores deslizes do longa.

Situando a trama: depois de um acidente experimental, o cientista August Kuratov (Stanislav Shirin) se transforma num super-humano capaz de controlar as máquinas. Planejando invadir Moscou, encontra resistência num grupo de heróis criados durante a Guerra Fria e que entram para uma organização chamada Patriota a fim de proteger a nação da ameaça. Liderados pela major Elena Larina (Valeriya Shkirando), o grupo formado por Ler (Sebastien Sisak), com seu poder de manipular pedras, Ursus Wildman (Anton Pampushniy), que se transforma num urso, Khan Windman (Sanzhar Madiev), habilidoso com lâminas e super veloz, e Xenia Waterwoman (Alina Lanina), que fica invisível em contato com a água, os super-heróis tem de enfrentar o passado – e suas próprias habilidades – para conseguir se unir contra o vilão.

Em termos de premissa, o que chama a nossa atenção é a possibilidade de vermos um uma produção de heróis com cara de blockbuster, mas com a ótica invertida daquela que Hollywood explora há anos: os heróis são os russos lutando a favor da unidade de seu povo. Seria interessante justamente acompanhar um subgênero que está numa maré altíssima há, pelo menos, uns 15 anos, enquanto saciamos a curiosidade de ver uma história extremamente familiar contada num filme que não nasceu nos EUA. O problema é qualquer tentativa de enxergar subtextos aqui é sabotada inteiramente por uma direção desastrosa e um roteiro amador que parece não ter aprendido absolutamente nada com as inúmeras cópias irmãs americanas – sim, havia muita coisa ali que serviria de fonte inspiradora, mas no contexto de uma narrativa aceitável, e não apenas como uma cópia malfeita de elementos de Os Vingadores e X-Men.

Já iniciando com o pior tipo de narração expositiva, a sequência que abre o filme se passa durante um ataque feito por Kuratov durante uma demonstração de novas tecnologias para a guerra. Há algo de diferente ali e que começa a ser responsável pela minha curta esperança de tudo não passar de uma sátira, mas isso dura pouco: a tendência de continuar as narrações e investir em diálogos basicamente 90% expositivos se mostra uma regra que vai perdurar durante todo o filme; mais, a impressão de sátira era nada menos que a constatação de se tratar de um péssimo filme mesmo.

Não exibindo qualquer traço de preocupação em desenvolver um mínimo de conflitos de personalidade, o roteiro assinado por Andrey Gavrilov é um completo retalho amontoado de blocos que funcionam de acordo com a lógica: apresenta o personagem, explica para o público diretamente todas as suas características internas e externas, e o joga na trama sem qualquer tipo de criação de expectativa. É impossível não notar o desleixo quando, por exemplo, a major Larina localiza Ler, que estava isolado do mundo e com toda a cara de que não queria se envolver, numa sequência que demostra um possível conflito que dificultará o personagem a se juntar ao Patriota, para, no momento seguinte, este já aparecer com a personalidade completamente distinta de instantes atrás, preparado para se tornar um verdadeiro super-herói (a receita se repetirá com praticamente todos os outros personagens). Essa pressa em atravessar etapas importantes para qualquer história, mesmo que sejam superficiais, faz com que a estrutura geral do roteiro vire uma sequência de conexões sem qualquer aspecto dramático.

Quando eu disse que não havia a menor preocupação com conflitos, eu me referia ao resultado de fato, já que a tentativa (que até existe) é completamente prejudicada pelo pavoroso desequilíbrio no tom da narrativa. Não exibindo qualquer sinal de sutileza, a obra tem a incrível habilidade de saltar bruscamente de um momento de ação para um imediato monólogo em que os personagens expõe as dores de seu passado. Ancorados por uma trilha absolutamente maniqueísta (ainda é um elogio), os momentos de divã dos heróis jamais conseguem atingir outro resultado senão o total humor involuntário (te desafio a não perceber gargalhadas na sessão no momento em que Ler lembra de sua filha). Nas questões dramáticas, o máximo a fazer é nivelar a narrativa com base nas piores novelas mexicanas, o que, automaticamente já joga a esperança para os outros aspectos do filme.

Mas não, não é possível dizer que algo melhora. Dirigido Sarik Andreasyan, o longa é uma série de erros, que vão de uma péssima direção de atores até a inabilidade de saber quando cortar e quando continuar uma cena. Alongando reações muito mais que o necessário, a exemplo de quando Waterwoman é enquadrada se virando vários segundos depois de perceber a presença de Windman ao seu lado, as sequências de luta são, em vários momentos, óbvias em suas tentativas de esconder a coreografia ruim – e confesso que até senti saudades de Michael Bay, pois arrisco dizer, sob pena de escárnio, que seus cortes caóticos seriam preferíveis no caso. Extremamente burocráticos, os segmentos de ação do filme são uma tentativa malfeita de emular sequências famosas do gênero (Windman se teletransporta exatamente da mesma maneira que Noturno, em X-Men 2, até nos efeitos visuais). Aí fica um pouco difícil não apontar a limitação nos efeitos, já que a escala de destruição se tornou algo tão comum para o expectador que tudo parece desinteressante, o que já é potencializado pela total falta de interesse despertada pelo enredo.

Juntando um roteiro ruim e uma direção que parece não acompanhar o básico, Os Guardiões parece ter o dobro de sua curta duração. Afinal, é impossível acompanhar um longa-metragem que jamais consegue divertir (a não ser, claro, no seu senso de humor acidental). Com sequências mal construídas e péssimos personagens, pouco resta para depositar a nossa boa vontade. Nem sequer seu design de produção e sua inventividade na concepção dos efeitos visuais conseguem estabelecer um fiapo de identidade, já que tudo acaba como uma mistura previsível de elementos que você encontraria numa cartilha de “como vestir seus super-heróis e conceber seu universo tecnológico fantástico em apenas cinco passos”.     

Se depois de apontar tudo isso, o expectador ainda tiver a esperança da obra ser intencionalmente “ruim”, como que uma sátira divertida que sabe brincar com seus clichês, ele certamente será frustrado pela decepção de um projeto que realmente quer se levar a sério. Não há qualquer sinal de autoparódia, o que fica evidente nas tentativas ocasionais de humor (algo comum no gênero), como se o filme realmente não percebesse que já é hilário involuntariamente, denunciando sua sincera tentativa de criar uma franquia baseada num universo que jamais está ciente de sua péssima construção (ou sabe, mas tem vergonha de admitir).

É decepcionante, como expectador e como cinéfilo ávido em algo diferente, sair tão decepcionado (mesmo depois de boas risadas) diante de uma tragédia cinematográfica como essa. Nessas horas, há de se admitir que, até para aqueles que estão saturados com as grandes produções de super-heróis, os americanos ainda seguem muito na frente nessa guerra não tão fria pelo mercado do subgênero.

Melhor pensar na rica história do cinema russo e sua importância para a arte em geral do que apostar as fichas na continuação de Os Guardiões.

Divulgaí

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