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Crítica: Lady Macbeth

Com ares que lembram as obras Madame Bovary de Gustave Flaubert e O Amante de Lady Chatterley de D. H. Lawrence, Lady Macbeth vai além de sua premissa inicial e expande suas abordagens com críticas bem construídas e simbolismos tênues – como o de libertação feminina e a opressão patriarcal.
Crítica: Lady Macbeth

Apesar do sobrenome célebre no título, a única ligação entre Lady Macbeth e a famosa obra de Shakespeare, reside em um paralelo característico entre as duas histórias: o gênero do romance trágico. A estreia de William Oldroyd no cinema é baseada no livro do escritor russo Nikolai Leskov, Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk, e conta uma história intensa e arrebatadora, imersa em simbolismos e críticas. Seus minutos iniciais moldam uma “pré-história” em nossa cabeça, que já brinca em adivinhar o que vai acontecer, mas os acontecimentos seguintes são surpreendentes e extremamente bem estruturados, entregando uma história veemente - com uma construção de personagem perfeita. Além de abordar temas intrigantes como o papel submisso da mulher na sociedade europeia do século XIX, a sociedade provinciana, seus costumes e o adultério.

No ano de 1865, quando a Inglaterra permanece em seus tempos rurais, Katherine Lester (Florence Pugh) vive infeliz e entediada em um casamento arranjado, com um marido agressivo e dominador. Seguindo dias absolutamente iguais e melancólicos, a jovem burguesa passa seus dias com olhares vazios, mas sempre que possível, “escapa” de sua casa para poder passear perto da natureza. Repentinamente, seu marido Boris Lester (Christopher Fairbank), precisa viajar por um tempo indeterminado a trabalho, deixando-a completamente sozinha com apenas os criados. E então, aparece um novo trabalhador na propriedade, Sebastian (Cosmo Jarvis), com quem Katherine começa a ter um caso extraconjugal, se apaixonando de forma verdadeiramente impulsiva e intensa. No entanto, eles não contavam que tal romance poderia desencadear tantas tragédias, guiadas pelas mais violentas paixões.

Uma protagonista de poucas palavras, onde todos os sentimentos residem nos olhares e nos gestos, faz recair no roteiro uma responsabilidade enorme e aumenta a sensibilidade da trama. Escrito por Alice Birch, também novata no cinema, que faz um trabalho que parece ganhar vida sozinho com sua fluidez e naturalidade. O enredo é construído gradualmente e sua narrativa corre de forma impecável, desenvolvendo Katherine de maneiras que irá surpreender até mesmo o espectador mais atento nos detalhes, por mostrar lentamente as paixões e sentimentos mais profundos da personagem. A trama é direta e não tem nenhuma cena dispensável, estruturando um roteiro exemplar. Com uma trilha sonora quase inexistente e levemente (im)perceptível, que quando aparece está entrelaçada perfeitamente com a cena, Lady Macbeth é o perfeito exemplo de que o silêncio também pode ser usado como um artifício impetuoso. As cenas silenciosas, acompanhadas dos olhares de Katherine, constroem perfeitas pinturas de frieza, onde cada quadro do filme é belíssimo.

A diretora de fotografia Ari Wegner (Ruína e Massa Cinzenta) realiza um dos trabalhos mais bem feitos do filme, que chega a ser esteticamente (quase) perfeito. Com uma paleta de cores gélidas e claras, que destacam as cores dos vestidos de Katherine e auxiliam na atmosfera misteriosa da pequena tragédia britânica. Wegner prioriza a luz natural, criando um jogo de sombras interessante. Os cenários meticulosamente organizados, onde tudo está em seu devido lugar, dando o aspecto de ser intocável, também são de grande auxílio para tal ambientação, que acompanhadas da brilhante atuação da jovem Florence Pugh, sustenta a maior parte dos aspectos mais duros do filme.

Sua cinematografia segue um estilo mais estável e parado, o que ajuda na impressão de cada cena parecer um quadro de pintura. Quando os personagens se movem, a câmera acompanha com movimentos delicados. Os takes são bem pensados e levemente detalhistas, que focam a maior parte do tempo nos olhares de Katherine. A montagem e edição são firmes, com cortes certeiros e mudanças de cenas simples. Não compartilha o mesmo brilhantismo, mas consegue acompanhar suas características. William Oldroyd dirige um poderoso drama com uma visão surpreendente para um estreante, no entanto, sem se aprofundar em características mais originais e singulares. Sua direção bebe muito da fonte dos estilos do austríaco Michael Haneke (Amor e A Fita Branca) e do polonês Krzysztof Kieślowski (Não Amarás e a Trilogia das Cores), principalmente da simplicidade e da forte psicologia na narrativa.

Com ares que lembram as obras Madame Bovary de Gustave Flaubert e O Amante de Lady Chatterley de D. H. Lawrence, Lady Macbeth vai além de sua premissa inicial e expande suas abordagens com críticas bem construídas e simbolismos tênues – como o de libertação feminina e a opressão patriarcal. São inúmeros elementos que constroem o enredo e seu desenrolar é estarrecedor. Uma trama friamente esplendorosa com uma narrativa relativamente lenta, cujo clímax é um processo gradual, dando vida à uma história sobre culpa, ganância e traição, no melhor estilo shakespeariano.


Divulgaí

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