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Lista Interativa – Homem-Aranha: Da Pior a Melhor Adaptação Cinematográfica

Desde que foi criado em 1962 por Stan Lee e Steve Ditko, o Homem-Aranha se tornou um dos mais amados e conhecidos super-heróis do mundo todo
Homem-Aranha: Da Pior a Melhor Adaptação Cinematográfica

Está na hora pessoal, de revelarmos o resultado de mais uma “Lista Interativa”. Acompanhando o sucesso de público e crítica do mais novo filme do “amigão da vizinhança”, Homem-Aranha: De Volta ao Lar, resolvemos conferir com vocês, nossos leitores, os filmes do super-herói que vocês mais gostam. Levando em consideração que já são seis filmes lançados do herói, incluindo dois reboots e três diferentes versões desse universo, é interessante analisarmos as opiniões dos leitores acerca dessas distintas obras.

Desde que foi criado em 1962 por Stan Lee e Steve Ditko, o Homem-Aranha se tornou um dos mais amados e conhecidos super-heróis do mundo todo. Mas talvez não seja tanto pelo personagem super-herói em si, mas sim pelo “humano” Peter Parker que o público se sinta tão cativado. Peter é uma pessoa comum com as mesmas dificuldades que nós passamos durante todos os dias. Diferente de playboys como Bruce Wayne e Tony Stark, deuses como Diana Prince, ou alienígenas como Kal-El, Peter precisa ralar muito para conseguir sobreviver e levar sua vida familiar aliado ao estudo e trabalho. O personagem é capaz de captar muita empatia por parte de todos que testemunham sua jornada de sacrifício como super-herói, sem nenhum benefício oriundo disso.

O Homem-Aranha continua tendo suas histórias em quadrinho publicadas pela Marvel Comics. O personagem teve uma serie live action no fim dos anos 70 estrelada por Nicholas Hammond; mais de seis séries de animações para a TV; várias adaptações para video-games; filmes lançados desde 2002 e até um musical para Broadway, com músicas compostas por Bono Vox e The Edge, do U2.

E como a opinião do nosso público Louco por Filmes é muito importante para o site, decidimos utilizar as preferências de vocês para ranquear os filmes desse divertido e simpático super-herói.

A enquete contou com 3469 votos dos frequentadores do site. Para o desempate de filmes que receberam a mesma quantidade de votos, foi utilizada uma média das notas que os filmes receberam no “Rotten Tomatoes” e no “IMDb”.

5 – Homem-Aranha 3 (Spider-Man 3, 2007) de Sam Raimi

4% dos votos


Decepção. Esta é a palavra perfeita para sintetizar a experiência de assistir a Homem-Aranha 3. Depois de ter chegado ao ápice do que seria um filme fabuloso de super-herói e histórias em quadrinho, Sam Raimi tinha uma ideia muito clara para o terceiro filme, trazendo o Homem-Areia como um vilão com um forte centro emocional na trama. No entanto, os produtores da Sony exigiram que Raimi apostasse no “mais é mais”, e que o diretor implementasse cada vez mais personagens e elementos naquele universo; mesmo que eles não fizessem sentido narrativo ou fossem minimamente bons. Deu no que deu. O roteiro de Homem-Aranha 3 possui bons temas, mas o excesso de personagens e subtramas não fornece espaços para que haja bom desenvolvimento deles.

Começando pelos vilões. Qual a necessidade de colocar TRÊS vilões se nenhum deles será minimamente bem desenvolvido como os vilões dos filmes anteriores? O Duende Macabro de James Franco sai com um pouco de vantagem pelo arco dramático que veio desenvolvendo desde o primeiro filme, relacionando suas frustrações em relação ao pai, o ódio ao Homem-Aranha e os sentimentos conflituosos que sente pelo amigo Peter Parker. Porém, Franco não conseguiu carregar o personagem da forma como deveria. Seus momentos vilanescos saltam entre o caricato e o constrangedor, chegando ao ápice do ruim quando ele fala do “gosto” dos lábios de Mary Jane para Peter. Para piorar a situação, o roteiro apela para vários exageros em sua subtrama, com o absurdo do modo como o mordomo de Harry conclui que Norman havia se matado.

Já o Homem-Areia é o que mais apresenta potencial. Encarnado pelo excelente Thomas Haden Church (depois do sucesso de Sideways – Entre Umas e Outras), o vilão é humanizado de forma tocante desde sua cena inicial, em parceria com a também excelente Theresa Russel. Fica claro ali as intenções de Sam Raimi para o arco dramático poderoso que o personagem poderia ter, principalmente pelo simbolismo de sua figura. E se há uma cena realmente memorável em Homem-Aranha 3, é a cena da criação do Homem-Areia, que traz uma trilha sonora delicada e emocionante de Cristopher Young e uma movimentação de câmera que explora somente com movimentos e (EXCELENTE) efeitos visuais a “maldição” daquela figura em relação à sua vida pessoal (reparem na metafórica tentativa de pegar um camafeu). Por outro lado, o vilão também é sabotado pelo péssimo roteiro, já que é esquecido durante boa parte do filme, suas intenções e planos nunca ficam claros, e só reaparece quando é “necessário” para as cenas de ação. Uma pena, já que o potencial visto em sua cena inicial nunca é aproveitado.

O que nos leva a Venom, que é o pior elemento do filme. É interessante ver que o simbionte seja um catalisador para o contraste da situação de vida de Peter e Mary Jane, contrário ao filme anterior. Porém, o assunto deveria ter sido tratado com um pouco mais de sutileza, e isso não é visto no modo debochado, e mesmo patético. A atuação de Tobey Maguire como o “Peter Parker emo” é absurdamente ridícula e digna de risos desconfortáveis, principalmente se considerarmos que ele muda de personalidade de acordo com a posição de sua franja. As emoções que o filme gostaria de passar pela mudança de índole daquele adorável Peter Parker que tanto amamos é completamente sabotado pela comédia e por cenas de dança incompreensíveis. E se a chegada do simbionte na Terra brinca com os clichês das ficções científicas B dos anos 50 (reparem nos efeitos sonoros de Invasores de Corpos quando a criatura se movimenta), o modo como ela contamina Eddie Brock (Topher Grace, ruim) depende de uma coincidência absurda. E a atuação de Grace como vilão é tão caricatural que não dá para levar a sério.

Além de todos esses vilões, o filme ainda nos apresenta ao Capitão Stacy e sua filha, Gwen, que apesar de terem o carisma de James Cromwell e Bryce Dallas-Howard, só servem para deixar o filme ainda mais inchado. Ao menos a redação do Clarim Diário continua muito divertida, principalmente pelo detalhe de J.J. Jameson precisar controlar a raiva e tomar medicações por prescrição médica.

O filme possui fantásticos efeitos visuais, principalmente quando se considera todos os detalhes das ações do Homem-Areia e o modo grotesco e ameaçador como o simbionte se movimenta. Já a trilha sonora de Christopher Young é boa, mas gera um pouco de estranhamento quando estamos acostumados aos acordes de Danny Elfman. Outro ponto positivo do filme é a atuação sempre delicada de Kirsten Dunst, que trabalha Mary Jane em uma situação de tristeza e resiliência até então desconhecida.

Mas talvez o mais frustrante de Homem-Aranha 3, além do roteiro, seja a direção preguiçosa de Sam Raimi. Sem dúvida nenhuma em seu pior momento, Raimi dá a entender que estava muito desestimulado pelas exigências dos produtores, e resolveu ligar o piloto automático. Com exceção da primeira cena de ação do filme, que trabalha a luta em longos planos vertiginosos, não conseguimos ver nenhum vislumbre de todos o virtuosismo de câmera, planos, cortes e montagem de Raimi. Não há uma única cena com o “sentido aranha” A falta de interesse de Raimi naquela história é quase palpável. Até mesmo a participação especial de Bruce Campbell é pouco inspirada.

E para piorar tudo, o roteiro ainda se sente na necessidade de retornar com a história do assassinato do Tio Ben e criar uma subtrama que tenta concluir a trilogia “conectando as pontas”. Além de a revelação do assassino ser implausível àquele ponto, não há necessidade nenhuma para o arco dramático de Peter aquela reviravolta. Ao invés de criar interesse ou conflito, a subtrama só gera chateação por sabermos que aquilo é um truque desonesto do roteiro.

Homem-Aranha 3 só não gera uma sensação pior porque os espectadores já estavam muito apegados aos doces personagens dos filmes anteriores. O que fica no final, além da sensação de decepção, é pesar. Pesar por ver o potencial de um excelente filme ser aniquilado por decisões ruins de produtores.

IMDb: 6,2/10. Rotten Tomatoes: 63%.


4 – O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, 2012) de Marc Webb

15% dos votos

Demorou apenas 5 anos para que fosse feito um reboot do Homem-Aranha nos cinemas. Um tempo recorde. Inicialmente ainda havia a ideia de fazer um quarto filme da versão de Sam Raimi, que traria os atores de volta e tentaria corrigir os erros que foram cometidos no terceiro filme. No entanto, Raimi ficou insatisfeito pelas imposições do estúdio (mais uma vez) e resolveu largar o barco antes que um novo erro, como o filme anterior, surgisse. E se aquela história estava concluída, porque não recriá-la com novos talentos? A parte de recriar OK, afinal vivemos em um mundo em que o cinema se sustenta à base de grandes franquias, pois é o que o público médio quer “consumir”. Mas a parte de novos talentos foi perdida no meio do caminho, já que O Espetacular Homem-Aranha conseguiu se tornar o pior filme do herói no cinema.

É muito fácil observar o contraste de tons desse filme com as obras de Sam Raimi (considerando os dois primeiros). Enquanto Raimi apostava em um vigor contagiante para contar a história daquele rapaz com todas as cores e entusiasmo que aquele universo de quadrinhos continha, resultando na obra–prima Homem-Aranha 2, o diretor Marc Webb (do divertido 500 Dias Com Ela) vai na contramão disso tudo. Talvez influenciado pelo sucesso do tom dark dos filmes de Cristopher Nolan sobre o Batman (que é totalmente cabível para aquele personagem), Webb se equivoca em todas as decisões artísticas para retratar o nosso querido Homem-Aranha, criando um filme MUITO aborrecido que nos obriga a acompanhar um personagem apático e desinteressante em um universo sem vida nenhuma.

A começar pela PÉSSIMA fotografia de John Schwartzman (parceiro de Michael Bay em “coisas” como Armageddon e Pearl Harbor), muito diferente do tom sombrio EFICIENTE das diferentes fotografias dos três Batman de Nolan. O fotógrafo aqui se limita a pensar que um filme sombrio é aquele que possui pouca iluminação e uma falta de cores patentes. O resultado é um filme feio e desinteressante de se acompanhar. Pelo menos a trilha sonora de James Horner, responsável por grandes obras como Coração Valente e Titanic, combina perfeitamente com as imagens, já que é tão fraca e sem energia quanto.

E se os efeitos visuais do filme são, no mínimo, medíocres (o Lagarto visto aqui remete ao Escorpião-Rei de videogame de O Retorno da Múmia), o mesmo pode ser dito da direção de Webb. Sem trazer nada do timming interessante, ou da montagem cheia de humor e vivacidade de 500 Dias com Ela, o diretor Marc Webb parece estar realizando o serviço apenas para pagar as contas, sem se empenhar artisticamente em nada que possibilite algum desafio artístico maior.

Assim como o filme é imageticamente pobre e feio, a densidade emocional do filme também o é. Reparem na forma quase “morta” como o diretor comanda uma cena de flashback envolvendo uma brincadeira de esconde-esconde; ou até a sequência burocrática e “broxante” do assassinato do Tio Ben. Webb não consegue trazer um pingo de sensibilidade e emoção para nenhuma cena: não há construção do suspense, não há foco nas emoções e conflitos dos personagens, não há um uso inteligente da mise-en-scène. Dá a impressão que o filme não teve nenhum diretor.

A péssima direção recai ainda para os atores. Enquanto Sally Field e Martin Sheen consegue divertir com uma química adorável e o carisma de sempre, o mesmo não pode ser dito sobre Emma Stone, que se vê presa em uma personagem superficial e completamente mau escrita. Já Rhys Ifans fica muito longe do potencial excêntrico que demonstrou em outros filmes como no icônico Um Lugar Chamado Notting Hill, não possuindo um texto base sólido para trabalhar a dramaticidade do vilão. Mas a maior decepção dentre as atuações do filme é mesmo Andrew Garfield. Depois de ter demonstrado bastante carisma e talento em A Rede Social, Garfield quase sabotou a própria carreira nesse O Espetacular Homem-Aranha. Completamente inexpressivo, Garfield adota um tom de adolescente rebelde e recluso que gera só antipatia dos espectadores; e quando tenta fazer algum humor, a situação fica constrangedoramente ruim, já que não há nada de natural ali.

Para piorar a situação, o Peter Parker visto aqui em nada remete ao personagem dos quadrinhos. Não há a persona do nerd da escola; do rapaz boa praça que é carismático e ganha nossa simpatia por ser um pouco atrapalhado e por fazer boas piadas. Há apenas um adolescente chato. Fora que o peso da responsabilidade do herói e do empoderamento da figura também não ganha espaço aqui. O Homem-Aranha de Marc Webb parece só um adolescente inconsequente brincando de vigilante imaturo.

É triste falar sobre um filme e apontar apenas fatores negativos, mas realmente não consigo enxergar nada de bom nessa obra. O roteiro é outro fator lastimável. Alvin Sargent foi creditado, mas acho difícil que o mesmo roteirista de Homem-Aranha 2 seja responsável por esse péssimo roteiro. Já James Vanderbilt demonstra mais uma vez que Zodíaco foi apenas um golpe de sorte. Mas é quando percebemos que Steve Kloves, que roteirizou os filmes de Harry Potter, esteve envolvido no roteiro que conseguimos entender o formato da história. Há uma necessidade, infundada, de criar todo um arco conspiratório e cheio de interligações acerca da criação do Homem-Aranha. A subtrama do passado dos pais de Peter é praticamente idêntica a de Harry Potter, assim como todos os outros elementos da trama de relacionam, inclusive com um tutor à la Severo Snape.

Visualmente pobre, emocionalmente inócuo e com um ritmo carente de qualquer energia, O Espetacular Homem-Aranha é um erro colossal dos filmes de quadrinhos, no mesmo nível dos primeiros Quarteto Fantástico e de X-Men Origens: Wolverine.

IMDb: 7/10. Rotten Tomatoes: 72%.


3 – O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro (The Amazing Spider-Man 2, 2014) de Marc Webb

17% dos votos

O Espetacular Homem-Aranha 2 é, pessoalmente, um filme complicado. Apesar de a maioria das pessoas terem gostado do primeiro filme que trouxe Andrew Garfield como Peter Parker, eu não gostei nenhum pouco; é um péssimo filme, o pior exemplar cinematográfico do “cabeça de teia” na minha opinião. No entanto, a sequência me agradou consideravelmente mais que o primeiro filme, apesar de ter sido malhada por praticamente toda a crítica especializada e os fãs de quadrinhos; o que acabou resultando no fim súbito dessa nova visão do herói.

O fato de eu ter preferido essa sequência ao filme original não significa que eu o julgue como um bom filme, pois não é. O roteiro de Alex Kurtzman e Roberto Orci (que vão de maravilhas como o reboot de Star Trek até abominações como Transformers) e Jeff Pinkner (que trabalhou em séries como Alias e Lost) repete, incompreensivelmente, vários dos erros cometidos em Homem-Aranha 3 e O Espetacular Homem-Aranha. Com a gana de criar seu próprio universo compartilhado com vários personagens (na época havia ideias sobre o filme solo do “Venom”, do “Sexteto Sinistro” e outro com personagens femininas do universo de Homem-Aranha), os roteiristas precisam implementar INÚMEROS elementos na história que só tornam mal desenvolvidos e deixa o filme “inchado”.

Para começo de conversa, nenhum dos TRÊS principais vilões vistos aqui no filme são minimamente interessantes ou ganham nossa atenção por suas motivações. O Electro do limitado Jamie Foxx, por exemplo, possui uma caracterização que beira o patético em sua caricatura (reparem nas calças “pula-rego”), remetendo ao Edward Nigma de Jim Carrey e a Hera Venenosa de Uma Thurman nos Batman de Joel Schumacher. O personagem é desenvolvido apenas por emoções superficiais e mal trabalhadas, já que ele é, basicamente, carente. E essa falta de desenvolvimento do personagem humano acaba sabotando o vilão sobrenatural que virá depois; não há sentido nenhum em seu arco de vilão. Já o Duende Verde de Dane Dehaan é ainda pior, já que além de já se apresentar com uma subtrama de enfermidade completamente absurda até para um filme de fantasia, o ator aposta em um exagero de expressões irritante; bem distante do desempenho de Willem Dafoe no filme de 2002. Mas o pior é realmente o Rhino de Paul Giamatti, que além de ser apenas um fan service raso, é obrigado a ficar gritando frases estupidas e a fazer caretas que tornam o personagem despropositadamente engraçado.

O roteiro também não consegue trazer nenhuma inovação no relacionamento de Gwen Stacy e Peter Parker, já que cria um conflito inicial entre os personagens que não foge do clichê e ainda possui um elemento que é completamente descartado sem nenhuma explicação (determinadas aparições fantasmagóricas). Sem contar que o conflito inicial não determinada em nada a dinâmica do casal, que só se salva por causa da química entre os atores, principalmente o carisma e o timming cômico de Emma Stone.

Andrew Garfield melhora consideravelmente sua presença em tela nesta sequência. Enquanto no primeiro filme ele se restringia ao aborrecimento de ser o “adolescente melancólico” que destruía praticamente toda a empatia que poderíamos sentir, aqui ele se mostra mais leve e divertido. Mesmo que suas piadas mais informais em momentos de ação pareçam um pouco forçadas, assim como determinadas conversas com Gwen (seu monólogo quanto Gwen entra em uma universidade para uma entrevista é constrangedoramente ruim), Garfield ao menos cria uma dinâmica divertia com Tia May e convence sobre a camaradagem com Harry Osborn. Em contrapartida, Garfield nunca consegue nos convencer do peso da responsabilidade e cansaço daquele herói, co contrário de Tobey Maguire em Homem-Aranha 2.

A fotografia de Dan Mindel (Star Wars: O Despertar da Força, Star Trek) é outro ponto positivo do filme. Ao contrário da falta de cor e vivacidade patente do primeiro filme, que tornou a experiência ainda pior, essa sequência abraça todas as cores saturadas que fazem parte do mundo fantasia do Homem-Aranha. O conceito de cores do vilão Electro, e o contraste entre o azul e o alaranjado de explosões é realizado de forma agradável aos olhos. Já a direção de Marc Webb, principalmente em cenas de ação, também é muito mais segura e fluida que no primeiro filme. Embora não haja uma assinatura virtuosa como a de Sam Raimi, Webb soube trabalhar bem a montagem das cenas de ação para empolgar o espectador; seja ao utilizar longos planos com a câmera acompanhando os mergulhos do herói, ao usar o bullet time para ilustrar o sentido-aranha, embora não inove nada que Raimi já não tenha feito. Da mesma forma, o diretor também soube usar os efeitos visuais para criar imagens muito bonitas plasticamente, como os raios de Electro em câmera lenta, ou uma determinada cena envolvendo Gwen Stacy em uma torre. A cena de ação envolvendo Electro em Times Square é o grande destaque.

Também há de se notar o bom trabalho na trilha sonora (assinado por CINCO profissionais), que chega a criar tons divertidos de metalinguagem durante o tema musical de Electro (com pensamentos e sussurros). Também há um trabalho de figurino interessante, principalmente no contraste entre as roupas despojadas de Peter e os ternos formais de Harry, embora ambos usem o mesmo tom de roupa. Já o preto estrito utilizado pela personagem de Felicity Jones também é outro fator que denuncia seu alter-ego que nunca vingou.

Mesmo com todos os seus problemas, O Espetacular Homem-Aranha 2 ainda é um filme bem mais fácil de acompanhar que o anterior. Muito longe da qualidade dos dois primeiros filmes de Sam Raimi, e perdendo para Homem-Aranha 3 por questões de afetividade aos personagens, o filme ao menos tem um visual bonito e agradável de acompanhar; possui um ritmo regular e cenas de ação bem orquestradas. Além disso, o tom do protagonista, ainda que não ideal, está melhor definido nesse filme que no anterior.

De qualquer forma, não lamento nenhum pouco a decisão de terem interrompido bruscamente a continuidade desse universo. O nosso querido Peter Parker merece investimento em mãos mais talentosas.

IMDb: 6,7/10. Rotten Tomatoes: 52%.


2 – Homem-Aranha (Spider-Man, 2002) de Sam Raimi

28% dos votos

A juventude fã de cinema e HQs de hoje em dia não conseguiria compartilhar a sensação que os jovens que viveram nos anos 90 e 2000 sentiam quando super-heróis chegavam as telas do cinema. Ao contrário de hoje em dia, em que existe um estúdio específico da Marvel (de propriedade da Disney), além de um universo específico sendo criado na Warner Bros. e 20th Century Fox para filmes da DC Comics e dos X-Men, respectivamente, os jovens das décadas anteriores tinham apenas “o filme de super-herói do ano”. Em 2016 por exemplo, houveram seis filmes de super-heróis, e o mesmo se repetirá esse ano.

E se hoje temos toda essa profusão de filmes do gênero, muito se deve ao sucesso absoluto que Homem-Aranha conseguiu em 2002. Enquanto os filmes do Superman e Batman eram obras hegemônicas em suas décadas (Superman – O Filme é uma obra-prima, e Batman – O Retorno talvez seja o filme de super-herói mais distintamente autoral de todos), foi com o sucesso modesto de Blade – O Caçador de Vampiros e a boa recepção, e subtextos profundos, de X-Men – O Filme que trouxeram a ideia de que os super-heróis poderiam ser uma grande fonte de histórias populares e inteligentes na sétima arte; simbolizando um respiro aliviado após o traumático Batman & Robin. Mas foi com o Homem-Aranha de Sam Raimi que o padrão de “filme de super-herói” finalmente se firmou, afinal de contas, o filme trouxe um roteiro com uma interessante história interessante e eficaz desenvolvimento de personagens, unido a uma direção extremamente inspirada, que não tinha vergonha de trazer todas as cores e “caricatura” dos quadrinhos.

Na verdade, nos anos 80 já havia um projeto de um filme do Homem-Aranha pela Cannon Group, uma produtora especializada em filmes de aventura, terror e ação B, como os impagáveis Guerreiro Americano, Stallone Cobra, as sequências de Desejo de Matar. O estúdio já havia produzido o péssimo Superman IV – Em Busca da Paz, além do trash Capitão América “oitentista”. O filme passou pelas mãos de Albert Pyum (Cyborgue – O Dragão do Futuro), Tobe Hooper (que tinha contrato com o estúdio, e realizou, dentre outros, o bizarro O Massacre da Serra Elétrica 2), Joseph Zito (de slashers como Quem Matou Rosemary? e Sexta-Feira 13 – O Capítulo Final) e até Stephen Herek (do divertido A Hora das Criaturas).

Já nos anos 90, os direitos da adaptação ficaram a cargo da produtora Carolco, responsável por vários sucessos como O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final e Instinto Selvagem. James Cameron dirigiria o filme, que traria Arnold Schwarzenegger como Doc. Octopus e Edward Furlong como Peter Parker, segundo rumores. Havia até uma outra ideia sobre um Peter Parker mais velho, interpretado por Michael Biehn, com Electro e Homem-Areia como vilões. O projeto também não foi para frente.

Já na Sony, o projeto ficou nas mãos de Sam Raimi. O diretor mais conhecido pela FENOMENAL trilogia Evil Dead, já havia dirigido um divertido, e pouco conhecido, filme de super-herói nos anos 90 chamado Darkman – Vingança sem Rosto, demonstrando todo seu talento para criar uma atmosfera fantasiosa de quadrinhos. Tony Scott (Top Gun – Ases Indomáveis), Jan de Bont (Twister), Roland Emerich (Independence Day) e até Ang Lee (que mais tarde dirigiria o injustiçado Hulk de 2003) estiveram entre os cotados. Até mesmo David Fincher chegou a desenvolver um conceito para o filme, que explicaria a origem do herói durante os créditos iniciais e seria baseado na HQ que traz a morte de Gwen Stacy.

A escolha de Sam Raimi para dirigir o filme não poderia ser mais acertada, afinal de contas, o diretor possui todo o vigor e energia para dar vida àquele universo fantasioso, dosando humor debochado e aventura em proporção exata, além de nunca esquecer de elementos mais violentos e “pesados” que são necessários para o tom de ameaça. O clima dos Homem-Aranha de Sam Raimi, especialmente, os dois primeiros, são perfeitos para a personalidade do herói, o “amigão da vizinhança”.

Assim como já era visto desde The Evil Dead – A Morte do Demônio, o estilo visual e a câmera de Raimi utilizam o dinamismo e a agilidade para imergir o espectador ao máximo na fantasia absurda. Inicialmente já se destacam as transições criativas que o diretor cria, dando a verdadeira sensação de estarmos transitando entra quadrinhos de um gibi. Em um momento vemos uma explosão e destroços de transformando em vários capelos sendo jogados após uma formatura; em outro, um rosto suado sobrepondo aos poucos várias chamas de um prédio incendiado; todas essas transições não apenas trazem um simbolismo sobre os acontecimentos, como também tornam a narrativa mais fluida.

Aliás, fluidos também são os movimentos e enquadramentos de câmera de Raimi. Para dar a sensação dos saltos e movimentos pendulares de Peter presos às suas teias, Raimi cria movimentos de mergulhos quase subjetivos, enaltecidos ainda pelas longas sequências sem cortes que acompanham o herói durante vários segundos nos ares (fazendo suas acrobacias), o que nos traz ainda mais uma sensação de credibilidade àquelas ações. Os enquadramentos feitos pelo diretor também são bastante expressivos, sejam os planos plongèes (com destaque para o ângulo alto enaltecedor que focaliza na mão do personagem de pé a um prédio), ou os angulados que causam uma estranheza divertida (como no momento que Peter escala um prédio pela primeira vez). Todas as imagens arquitetadas por Raimi nos trazem um clima de aventura absurda que é cara às HQs de super-heróis.

A montagem de Arthur Coburn (de O Máskara) e Bob Murawski (que havia trabalhado com Raimi em Uma Noite Alucinante 3) fazem um trabalha de sobreposições espirituosas e imagens subjetivas que também lembrando bastante os quadrinhos (principalmente na cena em que Peter planeja comprar um carro e desenha seu uniforme); essa ideia seria trabalhada com mais afinco no corajoso Hulk de Ang Lee. Os montadores também beneficiam a câmera dinâmica de Raimi através de seus cortes secos “dramáticos” em planos detalhes, como no momento icônico em que Peter segura Mary Jane após um escorregão na cafeteria da escola. O “sentido aranha” aliás é trabalhado por Sam Raimi com uma imaginação ímpar, unindo seus movimentos de câmera vigorosos e zoons rápidos, com um “super” slow motion e planos microscópicos, rendendo outro ícone máximo do cinema baseado em HQs. A impressão que dá é que, assim como na trilogia Evil Dead e Darkman, Raimi estava se divertindo à beça em Homem-Aranha.

E essa diversão rendeu imagens e momentos memoráveis para os cinéfilos. Não apenas as cenas do “sentido aranha” na escola, como também a cena do beijo invertido de Peter e Mary Jane, e também o primeiro plano metafórico na máscara do super-herói em que um impasse cruel é refletido em cada um de seus olhos.

A trilha sonora de Danny Elfman, que trabalhou com o diretor em Darkman e no FANTÁSTICO Um Plano Simples, lembra bastante alguns acordes de seu trabalho em Batman – O Filme, principalmente nas cenas de luta, para dar um tom de dinamismo. No entanto, o tom sombrio do filme de Tim Burton é trocado por temas mais voltados para o aventuresco e enaltecedor, embora igualmente grandioso. É impossível lembrar dos Homem-Aranha de Sam Raimi e não vir à cabeça a música de Dany Elfman durante os créditos iniciais.

Já o roteiro do irregular David Koepp (que vai de maravilhas como O Pagamento Final a bombas como Inferno) é muito bem resolvido no que diz respeito à criação do herói e aos arcos dramáticos de cada personagem. A cena da visita ao laboratório é um bom exemplo de como Koepp consegue introduzir informações sobre a caracterização do herói ao mesmo tempo que desenvolve a dinâmica entre os personagens, especialmente Peter, Mary Jane e Harry. O arco dramático de Peter, em especial, consegue dar um significado muito grande à responsabilidade e dever que Peter desenvolve como super-herói, principalmente pela subtrama envolvendo a morte do Tio Ben (“Grandes poderes, trazem grandes responsabilidades”). Além de Koepp trazer bons diálogos que nos deixam claro (sem ser piegas) o crescimento daquela figura, ele também não esquece do que torna o Homem-Aranha um dos super-heróis mais queridos do mundo: sua palpável humanidade e seus problemas reais. É tocante ver o tom natural como o filme mostra Peter sofrendo bullying no colégio por ser nerd, tendo uma relação familiar carinhosa com seus tios adotivos e tentando impressionar a garota que ama; todos podem se relacionar a isso de alguma forma.

E grande parte do mérito disso vem da forma quase debochada com que Raimi usa a vida real de Peter fazer humor (como no momento que Peter vai lutar em um ringue de wrestlers), como se estivesse virando pra gente e dizendo: “Não seria engraçado se isso acontece com você?”. O humor de Raimi sobre a vida real de Peter nos aproxima daquele herói. Em adição, o carisma de Tobey Maguire (escolhido por Raimi após seu desempenho em Regras da Vida) intensifica essa identificação. Maguire tem uma fisionomia de gente “real” e bondosa que ganha nossa simpatia, principalmente pelo modo doce e gentil como retrata Peter. Mesmo que ele não seja exatamente expressivo, Maguire gera uma empatia intensa.

O carinho que sentimos pelo personagem também vem da doçura de seu arco familiar, com uma presença adorável de Rosemary Harris como Tia May (amo o jeito gentil como ela conversa com os outros personagens) e uma presença cheia de sabedoria de vida de Cliff Robertson; ambos veteranos da sétima arte. E se o casal já exibe uma química invejável, o mesmo pode ser dito sobre o triângulo formado por Tobey Maguire, Kirsten Dunst e James Franco. Dunst, em especial, cria uma Mary Jane bastante segura, delicada e emocional; suas expressões sutis ao escutar Peter se declarando, em determinado momento, revelando bastante sobre seu interior. Bem escrita, a personagem que atravessa um período de crescimento e independência caro a todos os espectadores mais adultos, assim como Peter. Já o Harry de James Franco é hábil ao demonstrar um arco quase “Shakesperiano” em relação a seus sentimentos pelo pai e por Peter, sempre mantendo um senso de “tensão” e ciúmes entre a dinâmica daquelas figuras.

O que nos leva ao vilão interpretado pelo sempre excelente Willem Dafoe. Com uma fisionomia naturalmente ameaçadora, Dafoe explora o Duende Verde como uma figura trágica acima de tudo, expondo um conflito ético interno que aprofunda o personagem (há um monólogo e frente a um espelho bastante talentoso). Mesmo que a figura do vilão seja datada e semelhante aos Power Rangers, e suas intenções finais não sejam especialmente bem trabalhadas, é o talento de Dafoe que torna aquela figura mais grandiosa e digna de atenção.

Voltando ao humor certeiro de Sam Raimi, é incrível como ele trabalha a química explosiva entre os personagens do jornal em que Peter trabalha. J.K. Simmons sempre consegue roubar a cena com a grosseria e energia de J. Jonah Jameson, enquanto Bill Nunn (Robbie), Elizabeth Banks (Betty Brant) e Ted Raimi (Hoffman) tentando acompanha-lo naquele dinâmica screwball urgente e insana. Esse pastiche, que é a cara das HQs, também é bem empregado pela participação especial de Bruce Campbell (nosso eterno Ash), que sabe utilizar sua canastrice de forma exemplar.

Com cenas de ação bastante empolgantes, Homem-Aranha parece fazer algumas homenagens a filmes de HQs de sucesso que o precederam. Enquanto a cena de destruição do Duende Verde na Times Square remete aos balões gigantes de uma cena semelhante em Batman – O Filme, o clímax ocorre em um cartão postal de NY assim como em X-Men – O Filme. Já a cena em que Peter brinca, pela primeira vez, com seus poderes entre os prédios remetem ao sombrio, e ótimo, O Corvo.

A fotografia vibrante de Don Burgess (Forrest Gump, Náufrago) enaltece o clima fantasioso e enérgico de Raimi através da marcação das cores saturadas de seus ambientes e personagens. O colorido dessa aventura é de encher os olhos, principalmente o céu com forte azul, ou nuvens amarelas e laranjadas com em um lindo pôr-do-sol. Em acordo, o figurino de James Acheson (Brazil: O Filme) acompanha coerentemente as emoções dos personagens, como o sobretudo pastel que veste Mary Jane durante um momento de dificuldade, ou a cor preta que inunda Harry após uma decepção com Mary Jane, que combina com as cores vestidas por seu pai. Até mesmo o design de produção de Neil Spisak (Fogo Contra Fogo) é hábil ao brincar com a fantasia das HQs, como ao criar ambientes fortemente aconchegantes na casa dos tios Ben e May, ou ao incluir várias máscaras em um ambiente opulento e opressor (apesar de vasto), simbolizando a angústia de Norman na sala de estar da mansão Osborn.

Rendendo mais de $800 milhões de dólares ao redor do mundo, Homem-Aranha foi o primeiro filme ao estrear com mais de $100 milhões de dólares. O filme venceu um total de 15 prêmios internacionais, além de ter sido indicado a outros 60, incluindo Oscar de Melhor Som e Melhores Efeitos Visuais.

Idealmente divertido e emocionante, Homem-Aranha traz queridos personagens embalados por uma direção talentosa que consegue enaltecer tudo que há de melhor nos quadrinhos. Um filme cheio de energia e carisma que falta na maioria dos filmes de super-herói “enlatados” e apáticos de hoje em dia.

IMDb: 7,3/10. Rotten Tomatoes: 89%.


1 – Homem-Aranha 2 (Spider-Man 2, 2004) de Sam Raimi

35% dos votos

Se o primeiro filme que Sam Raimi havia dirigido sobre o “amigão da vizinhança” já era muito efetivo ao unir o humor, sentimento e ação nas medidas certas, foi na sequência de 2004 que o diretor demonstrou inspiração máxima para transpor toda a emoção das HQs do herói. Juntamente com Superman – O Filme, X-Men 2, Watchmen – O Filme, X-Men: Primeira Classe, Batman Begins, Batman – O Cavaleiro das Trevas e Logan, Homem-Aranha 2 está entre os melhores filmes de super-herói do cinema.

Inicialmente intitulado O Espetacular Homem-Aranha, o roteiro inicial foi escrito por Alfred Gough e Miles Millar (Máquina Mortífera 4, Eu Sou o Número Quatro) e Michael Chabon (Garotos Incríveis), e traria o “cabeça de teia” lutando contra o Doutor Octopus, Lagarto e Gata Negra. Insatisfeita com o conceito, a produtora Laura Zinski pediu ao seu amigo pessoal Alvin Sargent para reescrever o roteiro, que acabou recebendo todo o crédito pela versão final. Sargent, com 77 anos na época, é um roteirista veterano, responsável por filmes renomados como Lua de Papel e Gente como a Gente, todos pautados em conflitos e sentimentos humanos. E esse é justamente o grande trunfo de Homem-Aranha 2, trabalhar simultaneamente o lado mais cartunesco e absurdo das fantasias dos quadrinhos e os sentimentos mais complexos e humanos da condição do super-herói. É uma história profundamente calorosa e tocante, que não deixa de trazer todo o vigor da direção de Sam Raimi.

O excelente roteiro de Sargent enaltece justamente aquilo que torna o Homem-Aranha tão querido pelo mundo todo: uma pessoa com superpoderes, mas que leva uma vida cotidiana normal e cheia de problemas e dificuldades. O roteiro faz um paralelo interessante do talento de Peter Parker para salvar a vida de outras pessoas como seu alter-ego com sua dificuldade de se manter “vivo” em meio a uma vida pessoal conturbada. É comovente ver Peter tentando manter um emprego de entregador de pizza enquanto salva crianças durante seu percurso; vê-lo esquecer suas aulas da faculdade, e até seu próprio aniversário, por estar com a mente sempre muito “cheia”; testemunhar suas dificuldades financeiras até para pagar a quitinete humilde que habita; ou ao não conseguir chegar a tempo para a peça de teatro de Mary Jane. Peter Parker é gente como a gente, tem as mesmas dificuldades e anseios, mas o seu caminhar para longe de Mary Jane no fim do filme anterior era apenas um prólogo para os grandes sacrifícios que ele viria a ter.

Sacrifícios, esses, que ressoam de forma grandiosa com os ensinamentos de Tio Ben no filme anterior. Peter aprende em Homem-Aranha 2 que suas responsabilidades não são só tomar partido quando Nova York está sofrendo um ataque e várias vidas correm perigo, mas também (e talvez o maior de todos) sacrificar suas próprias vontades, felicidade e satisfação pelo bem maior. Peter aprende que sua vida será baseada no altruísmo até as últimas consequências. E todo esse peso de aprendizado não poderia ser levado de uma forma simples, Peter chega a ter uma séria crise de identidade ao se ver entre sua vida pessoal e sua “vocação”, culminando em uma falta de habilidade em ambos os cenários. Nada mais HUMANO E REFLEXIVO que ver um personagem de fantasia passando pelos mesmos dilemas que nós.

Para nos apresentar de forma visual os belos temas do roteiro de Alvin Sargent, Sam Raimi cria vários enquadramentos e objetos de cena simbólicos e elegantes. Os cartazes da propaganda de perfume de Mary Jane que Peter vê enquanto está correndo pelas ruas nos traz uma mensagem sobre a incompatibilidade e distância daquelas figuras, assim como no momento na casa de Tia May em que Peter observa MJ distante na cozinha; ou até o modo como Peter não consegue esquecê-la e se vê sempre na posição de privilegiar seu “trabalho” como herói, pelo modo como Raimi cria um plano com inúmeros cartazes de MJ enquanto Peter atravessa com sua motoneta quebrada, ou até ao focar vários carros de polícia tampando o rosto de MJ em um outdoor. Até mesmo a recriação do diálogo entre os dois personagens no primeiro filme, separados por uma cerca, traz outros tons mais profundos e tristes. Da mesma forma, o figurino de James Acheson (O Homem de Aço) e Gary Jones (O Talentoso Ripley) criam um distanciamento de realidade entre Harry (sempre elegante e moderno com ternos e óculos escuros) e Peter (com roupas simples e informais, além de um detalhe divertido da mochila com um remendo de fita adesiva). Já MJ exibe sempre um vestuário leve e claro quando junto a Peter, com tons que lembram seu figurino da peça de teatro, e remete a sua alegria. Em contrapartida, ela começa a utilizar tons mais escuros de acordo com o drama de sua personagem, e só volta a usar tons pastéis quando toma determinada decisão amorosa.

Essa dinâmica entre os três personagens denota um cuidado muito carinhoso com a continuidade do desenvolvimento de cada um. Enquanto Peter ainda se vê no papel de ter que ignorar MJ para evitar seu sofrimento, ele ainda precisa conviver com o fato de Harry ganhar um ressentimento pela figura do Homem-Aranha (já que Harry acredita que o herói matou seu pai). Enquanto Mary Jane se apresenta em um momento de crescimento e satisfação na carreira profissional, ela tenta levar sua vida pessoal adiante ao forçar seus sentimentos acerca de Peter sumirem, e Kirsten Dunst consegue trazer essa carga de sofrimento com um talento descomunal. Todos os olhares que ela direciona a Peter são carregados de uma frustração velada ao mesmo tempo de um carinho intenso por aquela figura. E essa melancolia é quase palpável durante uma sentimental cena em que eles conversam enquanto caminham pela noite de Nova York. Enquanto isso, James Franco continua a nos convencer do carinho que sente pelo amigo Peter, apesar de sua obsessão doentia pelo Homem-Aranha ser apresentada com um certo exagero nas expressões.

Tobey Maguire (que quase foi substituído por Jake Gyllenhaal por problemas de saúde) continua a ganhar nosso coração como Peter Parker. Novamente com sua persona de nerd atrapalhado inconfundível, Maguire ganha ainda mais nossa simpatia pelo modo como tenta manter a tranquilidade mesmo quando está com todos os seus problemas. Sua humanidade pulsante é refletida pelo modo carinhoso como toca na Tia May, como tenta segurar o choro quando conversa com Mary Jane ou até como lança olhares admirados para Otto Octavius durante uma entrevista. Maguire também sabe trabalhar o timming cômico para dar espaço para os outros atores trazerem muito humor com seus excêntricos personagens. Suas reações atônitas à personalidade “estranha” de seu síndico, por exemplo, geram muitas risadas, da mesma forma que tenta manter uma conversa “impessoal” com seu médico em determinado momento. Mas Maguire também consegue demonstrar muita intensidade nas cenas de ação e emoção. É graças à humanidade calorosa de Maguire enquanto Peter Parker, que todas as cenas de ação do Homem-Aranha ganham um envolvimento bem maior da nossa parte.

Sam Raimi, inteligente como sempre, soube realizar uma direção de atores de forma perfeita para equilibrar o cartunesco e o natural. Enquanto o trio principal ainda é acompanhado por toda a doçura da personificação de Rosemary Harris como Tia May, Raimi cria um contraste muito interessante com os outros ambientes de Peter. A cena do jantar com Otto Octavius e sua esposa, por exemplo, carrega uma carga simbólica muito grande acerca da vida familiar que Peter dificilmente conseguirá ter. Já os outros moradores do prédio de Peter ganham nosso interesse, hora pela caracterização bizarra e hilária de Elya Baskin como o Sr. Ditkovich (“Aluguel?”), hora pela interpretação adorável e cheia de sutilezas de Mageina Tovah como sua filha Ursula (seus olhares amistosos para Peter enquanto ela lhe oferece um bolo são de partir o coração).

Já o absurdo jornal “Clarim Diário” em que Peter trabalha ganha ainda mais destaque, e mais urgência, em Homem-Aranha 2. J.K. Simmons continua roubando a cena com seu detestável, desenfreado e hilário J. Jonah Jameson (sua reação ao saber que sua melhor perdeu o talão de cheque é IMPAGÁVEL). Enquanto Bill Nunn aproveita seus pequenos espaços de tempo para engrandecer seu personagem apenas com olhares intensos para Peter enquanto conversa sobre o Homem-Aranha, Elizabeth Banks volta a esbanjar seu talento cômico para engrandecer a dinâmica daquele ambiente, assim como Ted Raimi. E como não citar a ponta memorável de Bruce Campbell novamente?

Para enaltecer ainda mais a característica de filme de quadrinhos, Sam Raimi demonstra aqui uma liberdade de câmera ainda maior que no primeiro filme. Novamente com o montador Bob Murwaski, Raimi traz MUITO do dinamismo, agilidade e VIGOR que a aquela fantasia precisa, sem descaracterizar seus momentos mais emotivos. Cada enquadramento visto em Homem-Aranha 2 remete aos quadrinhos vistos nas HQs do herói; seja no modo como ele posiciona o personagem central entre os prédios de NY, como coreografa as lutas entre o herói e Doc Ock, ou mesmo ao mostrar a reação dos transeuntes àquelas ações. Com quadros inclinados, longos planos de “câmera voadora” que acompanham o herói em seus saltos entre os edifícios e automóveis de NY, movimentos de câmera rápidos, assim como seus zoons in “dramáticos” e os cortes secos e impactantes (notem o impacto da cena em que um cofre é assaltado), Raimi conseguiu criar o filme mais fluido, e com melhor ação, de todos os exemplares cinematográficos do super-herói. Raimi alterna momentos de calmaria e reflexão, e outros de intensidade e ação, com um ritmo admirável e sem nunca perder a lógica ou credibilidade.

Os créditos iniciais do filme, aliás, já são bastante inspirados por trazer uma recapitulação do primeiro filme de uma forma elegante e cheia de homenagem às ilustrações dos quadrinhos. A montagem de Murawski, com transições cartunesca, também acompanham essa ideia, com destaque para a transição belíssima de planos de uma perseguição Homem-Aranha entre prédios através dos óculos escuros do Doutor Octopus; ou as elipses acompanhadas pelas manchetes dos jornais impressos do Clarim Diário. A montagem ao som de “Raindrops Keep Fallin’On My Head” também é muito divertida tanto por utilizar da metalinguagem, como também brincar com freeze frame.

Trabalhando uma fotografia cheia de cores vivas que enaltecem a fantasia dos quadrinhos e a humanidade de seu herói, Bill Pope (Matrix, Scott Pilgrim Contra o Mundo) trabalha muito bem ambientes diurnos e claros, privilegiando o céu aberto, o sol e cores quentes (amarelo, alaranjado). Embalado por isso, Raimi cria duas das melhores sequências de ação do cinema de quadrinhos. A primeira envolve um roubo de banco com direito a sacolas de moedas de ouro e velhinhas raptadas que dá a oportunidade de Raimi brincar com o cartoon (os planos dos observadores histéricos), o humor (as reações de Tia May são muito divertidas) e o virtuosismo técnico; este último, através dos longuíssimos planos que se aproximam ou distanciam da ação de acordo com a interação dos personagens, nos dando uma sensação de fluidez incomparável (as quedas livres são impressionantes), acompanhado por uma coreografia de lutas INTENSA.

Já a segunda sequência de ação, que se passa em um trem, não somente traz de volta esses longos planos vivazes com várias quebras de eixo surpreendentes (que traz uma naturalidade formidável para a cena), como também intercala uma montagem mais rápida, mas que nunca deixa o espectador sem saber o que está acontecendo. Ao mesmo tempo, a fascinante coreografia de luta nos deixa sempre apreensivo sobre a capacidade, ou não, do herói conseguir vencer o vilão, além da imaginação ali investida para deixar a situação cada vez mais difícil para o herói resolver. Raimi também restringe a técnica de bullet time para retratar os estonteantes momentos de “sentido aranha” a viradas de trama pontuais, o que concentra a surpresa e o espetáculo visual máximo para momentos mais emocionais.

O que nos leva ao excelente vilão vivido por Alfred Molina (Frida). Doutor Octopus é muito bem desenvolvido e apresentado em uma sequência bem escrita, demonstrando ser um profissional e marido dedicado e carinhoso. É esse aprofundamento inicial do personagem que torna seu lado “vilanesco” mais denso, com diálogos e divagações que ganham contornos quase Shakesperianos. Outro ponto que FABULOSO do personagem são os efeitos especiais de sua caracterização, já que cada apêndice parece ter uma personalidade própria e demonstram uma praticidade enorme em sua concepção detalhada (as centenas de articulações dos apêndices são deslumbrantes). O design da máquina é fascinante ao mesclar conceitos lógicos de união ao sistema nervoso através de agulhas, até o chip controlador da inteligência virtual.

Através das cenas de seu vilão, aliás, Sam Raimi consegue criar momentos que entoam seu maravilhoso início de carreira no terror. A cena do Doutor Octopus no hospital, em especial, é uma carta de amor à trilogia Evil Dead, quando envolve um massacre em massa com violência e ferocidade (inclusive com um motosserra) com várias pessoas gritando em desespero ao serem arrastadas para cantos escuros enquanto arranham o chão, por meio de uma montagem intensa de planos detalhes (olhos arregalados e bocarras) e planos com steadycam lateral que tornam os tentáculos os próprios demônios de Evil Dead. Também é divertido o modo como o diretor usa os efeitos sonoros na cena do encontro entre Harry e Doutor Octipus para gerar um suspense de antecipação junto com os movimentos de câmera enervantes que não mostram todo o espaço. Até mesmo a trilha sonora de Danny Elfman brinca com ícones do terror, como ao colocar o tema de Cristopher Young para Hellraiser – Renascido do Inferno, durante a apresentação do projeto de Octavius.

Enquanto faz suas brincadeiras cheia de energia e vigor que nunca deixam de impressionar, Sam Raimi torna seu filme visualmente impressionante e cheio de imagens elegantes e memoráveis. Há desde momentos grandiosos (como uma máquina de fusão nuclear afundando em um oceano), românticos (como Mary Jane se segurando em uma enorme teia de aranha enquanto Peter rasteja em sua direção) e até intimistas (como o plano final delicado e cheio de promessas ambíguas para o futuro). Poucas vezes foi visto um trabalho de direção tão coerente e conciso com o caráter fantasioso e humano dos personagens expresso nas imagens da tela como Sam Raimi realizou aqui.

O filme arrecadou mais de $780 milhões de dólares ao redor do mundo e concorreu a 83 prêmios ao redor do mundo, tendo vencido o Oscar de Melhores Efeitos Visuais, e concorrido a Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som.

Indubitavelmente o MELHOR filme do Homem-Aranha, Homem-Aranha 2 traz Sam Raimi em sua melhor forma virtuosa conduzindo um roteiro cheio de humanidade, comoção e complexidade através de queridos personagens. Entra para aquele seleto grupo de sequências (O Poderoso Chefão – Parte II, Mad Max 2 – A Caçada Continua, O Império Contra-Ataca, O Despertar dos Mortos e outros) que superam o filme original.

IMDb: 7,3/10. Rotten Tomatoes: 94%.


Divulgaí

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