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Na Netflix: Mindhorn

Leve e, ao mesmo tempo, mordaz, a comédia Mindhorn provoca risadas pontuais e sarcásticas. Seu humor britânico é uma boa opção de entretenimento descompromissado porém arguto.
Na Netflix: Mindhorn

Até que ponto realidade e ficção são claramente definidas e diferenciadas? Quais os limites entre ambas? Às vezes, pode ser difícil para algumas pessoas dissociá-las. Assim, viver acaba se configurando como um simulacro de uma realidade inventada, mas que, ao mesmo tempo, estrutura uma existência real. Essa é justamente a problemática que movimenta a comédia britânica Mindhorn, uma das novas produções com selo Original Netflix, lançada dia 12 de maio.

Richard Thorncroft (Julian Barrat) é um ator medíocre porém arrogante que fez bastante sucesso ao interpretar o personagem Mindhorn – um detetive com um olho biônico, que, em suma, é um detector de mentiras ótico, o que lhe permite, literalmente, enxergar o que é verdade e o que é mentira. Com o fim da série do famoso detetive dos anos 90, sua carreira declina e ele prossegue inutilmente tentando viver sob a égide do mesmo personagem. Sem conseguir novos papéis, torna-se um ator decadente, uma celebridade de décadas passadas, mas que ainda se alimenta da fama obtida com o icônico personagem.

25 anos depois, em meio a testes de elenco malsucedidos para papéis medíocres, Thorncroft recebe uma proposta inusitada: um pedido da polícia da Ilha de Man (cidade onde se passavam os acontecimentos da série Mindhorn) para que compareça à delegacia da Ilha e interprete o detetive de olho biônico. O motivo do pedido policial: um serial killer havia entrado em contato com a polícia e ameaçado matar outras pessoas, sendo que ele só desenvolveria um diálogo mais preciso com uma pessoa: o detetive Mindhorn. Vendo o caso como uma possibilidade de se autopromover e, com isso, reconquistar a fama, o ator aceita. O que ele não esperava é se ver envolvido em uma investigação policial que revela que o caso não é exatamente o que parece. Além disso, ele vai perceber que representar um detetive fictício em uma situação real é completamente diferente de interpretar um personagem apenas na ficção.

A sacada do longa é mais do que compor uma ficção dentro da ficção – o que, aliás, não é nenhuma novidade –, mas corresponde à representação de um indivíduo nada admirável que, por sua vez, encarna o papel de alguém de caráter e motivações idôneos, e que acaba não conseguindo se desvincular dessa imagem midiática forjada. Com o desdobrar da narrativa, esse indivíduo mesquinho e convencido vai se mostrando profundamente humano: não apenas detestável devido à sua postura ou digno de pena por sua decadência, mas merecedor de um olhar mais atento e da nossa empatia, uma vez que sua complexidade é exposta por meio tanto das suas fraquezas quanto das suas potencialidades – ou seja, ele é egoísta e pensa em se autopromover a partir de um suposto ato nobre, entretanto, esse ato acaba por se tornar realmente nobre.

Dirigido por Sean Foley, o filme se utiliza de vários clichês, mas também faz menção a diversas referências da cultura do entretenimento – como programas e séries de TV, além do próprio cinema. A figura de um ator famoso por interpretar um ícone cultural que luta contra a ruína da própria carreira remete claramente ao longa ganhador de quatro Oscar Birdman. Já a imagem de um detetive idiota mas que se vê como defensor da lei aponta para o personagem britânico (e icônico) Johnny English. Além disso, é possível perceber no filme alusão à série de TV dos anos 1980 A Supermáquina, assim como à participação vergonhosa de Tom Cruise no programa da Oprah em dezembro de 2006 (quando o ator subiu no sofá, pulou e comemorou de forma histérica o noivado com a atriz Katie Holmes).

Leve e, ao mesmo tempo, mordaz, a comédia Mindhorn provoca risadas pontuais e sarcásticas. Seu humor britânico é uma boa opção de entretenimento descompromissado porém arguto.



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