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Especial “Girl Power” – 10 Mulheres Memoráveis do Cinema Fantástico

Em comemoração ao sucesso de Mulher-Maravilha, e para celebrarmos as personagens femininas icônicas do cinema de fantasia, nós preparamos uma lista com 10 personagens femininas marcantes do cinema fantástico (terror, fantasia e ficção científica)
Especial “Girl Power” – 10 Mulheres Memoráveis do Cinema Fantástico

Junho de 2017 já é um mês histórico para a sétima arte. Mulher-Maravilha estreou nos cinemas do mundo inteiro; o primeiro filme baseado em uma HQ sobre uma super-heroína. É claro que tivemos Mulher-Gato e Elektra na década anterior, porém, as duas personagens não são super-heroínas, e sim, anti-heroínas. No caso especial de Mulher-Gato, as características originais da personagem foram completamente deturpadas. Sem contar que, não é surpresa para ninguém, que ambos os filmes são desastrosos em qualidade.

Mulher-Maravilha, no entanto, se mostrou um belo filme de quadrinhos. Embora não tenha um roteiro perfeito, o longa é muito articulado em apresentar e desenvolver sua encantadora protagonista, falar sobre feminismo e igualdade de uma forma natural e contundente ao aproveitar sua comédia de costumes; e ainda enriquecer seus temas urgentes ao rodear Diana com personagens igualmente subjugados por séculos, não só pelo “homem”, mas sim pelo “homem branco”. Verdadeiramente emocionante (a cena da primeira batalha de Diana nas trincheiras da I Guerra Mundial é de levar qualquer um às lágrimas), o filme ainda traz Gal Gadot como uma verdadeira força da natureza, nos convencendo de todo seu poder, pureza e idealismo. Já a diretora Patty Jenkins (do inesquecível Monster – Desejo Assassino) soube não só como criar belas cenas de ação que focam nas habilidades de sua heroína (e não em suas curvas), como também dosar perfeitamente o drama e a comédia para nunca perder o peso das críticas e tragédias ali presentes. Jenkins realizou um trabalho de ritmo muito melhor que o visto em qualquer filme da Marvel, que são conhecidos por exagerarem na comédia e nunca demonstrarem verdadeira ameaça aos seus heróis.

É chover no molhado dizer que o cinema, até hoje, é uma indústria muito machista. Não precisamos nem procurar pesquisas e estatísticas específicas. Pensem consigo mesmos: Quantos dos seus filmes preferidos são dirigidos por mulheres? Quantos deles são protagonizados por mulheres? Quantos são protagonizados por personagens femininas que não girem em torno de um personagem masculino? Aliás, pensem em diretoras mulheres de sucesso, que possam figurar entre nomes masculinos populares, como Quentin Tarantino, Steven Spielberg ou Martin Scorsese. Difícil não é mesmo: Talvez os nomes que logo venham à cabeça seja Sofia Copolla e Kathryn Bigelow. Mas e se a pergunta fosse sobre diretores preferidos masculinos? A quantidade de respostas seria descomunal, não é mesmo?

Por falar em Kathryn Bigelow, a primeira (e única) mulher a vencer o Oscar de Melhor Direção, por Guerra ao Terror; é assustador pensar que esse feito ocorreu 80 anos após o início da premiação. Mais assustador ainda é se formos analisarmos a diferença gritante de salários entre homens e mulheres na indústria Hollywoodiana, que acomete até grandes estrelas como Jennifer Lawrence, Jessica Chastain e Natalie Portman.

Mas nada supera a cruel (e machista) situação em que caem as atrizes de Hollywood quando começam a envelhecer. Diferente dos atores homens, que continuam ganhando papéis, e muito dinheiro, com o avançar de idade, as mulheres são “obrigadas” a passar por vários tratamentos estéticos para que continuem mantendo, o máximo possível, a aparência jovial. Hollywood não tolera atrizes maduras que tenham uma aparência proporcional à sua idade. E se a situação já é difícil para atrizes como Kate Winslet, Helen Mirren e Cate Blanchet, imaginem para atrizes com menos prestígio...

Além do óbvio sexismo nos bastidores da indústria cinematográfica (que engloba desde falta de oportunidade para diretoras, diferenças exorbitantes de salários e o fato de não ser dado às atrizes o direito de envelhecer), também há um histórico grotesco de falta de representatividade feminina no cinema do gênero fantástico. Até o lançamento de Guerra nas Estrelas, as mulheres do gênero fantástico eram retratadas apenas como as vítimas indefesas e passivas que precisavam de homens ao seu redor para salvá-las. Mesmo com a mudança do contexto histórico e político do mundo através das décadas, as personagens femininas mantinham a mesma imagem de “donzela em perigo”, seja fugindo de monstros mitológicos (anos 30 e 40), viajando ao espaço e descobrindo alienígenas e monstro radioativos; ou até presas em universo de horror em um castelo gótico (anos 50 e 60).

Dentre os grandes filmes de gênero do cinema comercial na metade dos anos 70, Guerra na Estrelas nos apresentou a uma princesa que sim, era resgatada, por homens. Porém, A Princesa Leia de Carrie Fisher se recusava a seguir ordens, apontava o dedo na cara do vilão do filme e ainda era dona de suas ações, independente da aprovação de outras pessoas. Já em 1979, Sigourney Weaver nos trouxe uma Tenente Ripley que é sutilmente humilhada e subestimada por colegas de trabalho masculinos, mas que em uma verdadeira situação de desespero, é a única que bate a mão no peito e diz quem é o “chefe” ali.

Apesar do sucesso das duas personagens, o cinema fantástico continuou a se manter relutante em relação às figuras femininas fortes. A maioria das personagens marcantes nas décadas seguintes se restringiam a vilãs ou anti-heroínas, mas nunca como verdadeiras protagonistas dos filmes. A verdade é que o universo nerd é muito machista! Foi somente com o sucesso de público de Katniss Everdeen e a Imperatriz Furiosa que os filmes do gênero fantástico começaram a dar vez ao protagonismo feminino, viabilizando longas como Malévola, As Caça-Fantasmas, A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell, Atômica e até os recentes Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força e Rogue One - Uma História Star Wars. Já as animações infantis tiveram uma evolução enorme desde Valente, Enrolados e A Princesa e o Sapo, culminando em maravilhas como Frozen – Uma Aventura Congelante, Zootopia – Essa Cidade é o Bicho e Moana – Um Mar de Aventuras.

Ainda é MUITO pouco, mas a tendência é só melhorar! E o sucesso de público de Mulher-Maravilha veio para fincar de vez a ideia que as mulheres podem (e devem) ter representatividade de qualidade em gêneros que não sejam de comédia, romance ou drama. E a representatividade deve ser tanto na frente das telas, quanto por trás delas também!

Portanto, para comemorarmos o sucesso de Mulher-Maravilha, e para celebrarmos as personagens femininas icônicas do cinema de fantasia, nós preparamos para vocês, nossos leitores “Loucos por Filmes”, uma lista com 10 personagens femininas marcantes do cinema fantástico (terror, fantasia e ficção científica). As personagens forma escolhidas de acordo com sua força e independência, ou por estarem em um ambiente que denuncie o sexismo e a misoginia. A lista evitará personagens pop do cinema atual como Katniss Everdeen, Hermione Granger e Imperatriz Furiosa, já que elas ainda estão muito frescas na memória dos cinéfilos. A ideia era pegar personagens fortes de décadas passadas, não somente para retratar a importância das mesmas, mas também para apresenta-las a alguns jovens “Loucos por Filmes” que talvez não as conheçam.

As personagens estão listadas de acordo com o ano em que seus filmes foram lançados. Vamos lá!


Princesa/General Leia Organa (Franquia “Star Wars”)

Eternizada na pele da saudosa Carrie Fisher, Leia não é somente um dos melhores, e mais queridos, personagens da saga de Star Wars, como também um símbolo máximo de que as mulheres, ao contrário do que o pensamento machista acredita, são seres multifacetadas; e podem ser SIM, “princesas” e “generais” ao mesmo tempo.

Na verdade, um dos aspectos mais interessantes de Leia é o modo como ela é apresentada no filme. Revolucionária e à frente da estratégia da “Aliança Rebelde”, Leia é segura de si o suficiente para encarar Darth Vader de frente e jogar na cara dele toda sua tirania. E quando George Lucas parece enveredar o roteiro por um caminho que a colocará como uma “donzela indefesa” a ser resgatada, a presença magnética de Carrie Fisher transforma Leia na líder daquela equipe de resgate, recusando-se a aceitar as tolas ideias dos “homens” que se acham superiores, e sendo a própria responsável por sua vida.

Sendo a primeira verdadeira personagem feminina forte do cinema fantástico, Leia não deixou de ter uma subtrama romântica, como era o tradicional na época. Porém, o talento de Carrie Fisher nunca deixa nos mostrar que Leia não se permite ser subjugada pelo “grosseiro” Han Solo em momento algum; e ela está naquele romance porque ela quer!

Carrie Fisher, símbolo feminista, tinha tanto controle de sua personagem que chegava a reescrever falas e cenas inteiras dos roteiros de Star Wars. Após uma bela introdução em Uma Nova Esperança, a personagem liderou mais uma vez a estratégia da “Aliança Rebelde” em O Império Contra-Ataca, tendo seu profissionalismo, talento e seriedade retratados até por seu figurino sóbrio e prático, indo na contramão da hipersexualização das mulheres em filmes de fantasia (alguém se lembra de Barbarella?). Infelizmente, a personagem foi sabotada pelo primeiro ato do roteiro de O Retorno de Jedi, que a obrigou a se tornar a “Escrava Leia” com um famigerado biquíni dourado. Carrie Fisher se ressentiu desse elemento do roteiro até a sua morte, e chegou a aconselhar a nova protagonista de Star Wars Daisy Ridley, a nunca deixar ninguém a forçar utilizar um “biquíni dourado”.

Independente do terceiro capítulo da trilogia clássica, a Princesa e General Leia Organa foi um belo exemplo de força e independência para as garotas de sua época. Além de ter plantado uma semente inovadora de feminismo.

Como não poderia deixar de ser, a saga Star Wars ressurgiu nesses novos tempos com fascinantes personagens femininas. Além da corajosa e adorável Rey (Daisy Ridley), a mais nova Jedi da saga, também tivemos o prazer de conhecer a batalhadora Jynn Erso (Felicity Jones) de Rogue One. Jynn Erso, aliás, é responsável por um dos maiores feitos da luta contra o “Império Galáctico”. Uma grande heroína e mártir.

Outras grandes personagens femininas de franquias famosas do cinema fantasioso são: a criativa Sarah (Jennifer Connely) de Labirinto – A Magia do Tempo; a estudiosa e independente Hermione Granger (Emma Watson), que sempre rouba a cena em Harry Potter; a destemida Tenente Uhura (Zoë Saldana e Nichelle Nichols) da saga Star Trek, uma franquia que sempre militou acerca de igualdade; e as mulheres da Terra-Média, Arwen (Liv Tyler), Éowyn (Miranda Otto), Galadriel (Cate Blanchet) e Tauriel (Evangeline Lilly), em O Senhor dos Anéis e O Hobbit.


Carrie (“Carrie, a Estranha”)

Representada com muito talento por Sissy Spacek em 1976, inclusive com indicação ao Oscar de Melhor Atriz, a trágica Carrie White não está na lista por ser um símbolo de poder como Ellen Ripley, ou inteligência como Clarice Starling. O que torna Carrie uma das personagens femininas mais marcantes do cinema fantástico não é, tampouco, seu letal poder sobrenatural, mas sim sua ENORME capacidade de ser resiliente a uma sociedade preconceituosa e intolerante (principalmente dentro de casa); quase como se fosse a própria história da mulher através dos tempos.

Além de ser uma clara história, muito à frente de seu tempo, sobre os horrores do bullying no ambiente escolar, Carrie também é um belo filme de terror sobre o modo horrendo como a sociedade oprime a mulher e sua liberação sexual. O texto de Stephen King, e a elegante câmera de Brian de Palma, já nos trazem essa opressão pelo ambiente de fanatismo religioso em que Carrie vive dentro de sua casa. Interpretada de forma assustadora por Piper Laurie (também indicada ao Oscar), a mãe de Carrie representa toda a ignorância e o machismo com que as religiões cristãs condenarem as mulheres, e o sexo, através dos séculos. E Carrie não é só oprimida pela religião, como também pela sociedade, que reage de forma grotesca ao amadurecimento daquela mulher. Não à toa, a primeira experiência traumatizante de Carrie que testemunhamos, é originada por sua primeira menstruação; metafórico, acima de tudo.

O filme é orquestrado de tal forma que coloca Carrie como um símbolo da emancipação feminina, e da autoconfiança, para se livrar de uma realidade que as julga e as condena à imagem de “Eva, a pecadora”. O despertar dos poderes telecinéticos de Carrie, através de sua passagem pela adolescência, simbolizam o amadurecimento e o empoderamento de uma mulher independente. E por ela estar em seu direito de ter ideias próprias, e não somente reagir à sociedade machista ao seu redor, Carrie é massacrada e ridicularizada. O final apoteótico e dramático do filme é muito claro: a sociedade daquela época ainda não tolerava tratar as mulheres com a mesma igualdade que os homens. A sociedade continuava fantasiando “bruxas”, como na Idade Média. Carrie representava um progresso que sua comunidade não compreendia, e respondia com violência. Acho que todas as mulheres (ou até integrantes de outras minorias) podem se identificar com isso, não é mesmo?

Além de um clássico de Brian de Palma, e um clássico do cinema de terror, Carrie também é, indubitavelmente, uma das melhores adaptações de Stephen King, se não “a” melhor. O interessante é que King escreveu o livro (seu primeiro romance) e o jogou no lixo logo em seguida, não acreditando na qualidade de sua história. E foi justamente sua esposa, Tabitha King, quem retirou o manuscrito do lixo e o convenceu a seguir adiante. Desde então, Stephen King é considerado um dos maiores autores da literatura de ficção de todos os tempos. E ele deve seu sucesso a duas GRANDES mulheres: sua esposa visionária, e a memorável Carrie White.

Outro clássico do terror, O Bebê de Rosemary, também funciona como uma denúncia ao modo como as mulheres viviam em uma sociedade que as forçavam a serem criaturas passivas. Com a diferença que, aqui, Rosemary não possui o potencial progressista de Carrie; sendo uma vítima frágil e passiva das circunstâncias. O escritor Ira Levin, não só criticou o tratamento dado às mulheres da época em O Bebê de Rosemary, como também no cult As Esposas de Stepford, que gerou um filme de terror pouco lembrado de 1975. Já a corajosa e doce Ophelia (Ivana Baquero) de O Labirinto do Fauno, também é outra personagem feminina oprimida por uma sociedade terrível, assim como Carrie.
Ainda em relação a filmes de terror, há outras icônicas personagens que devem ser lembradas: As aterradoras “Três Mães” da trilogia de Dario Argento composta por Suspiria, A Mansão do Inferno e A Mãe das Lágrimas – O Retorno da Maldição; a maligna Sadako/Samara de Ringu e O Chamado; a onipresente personagem título de A Bruxa de Blair, a vingativa Alessa (Jodelle Ferland) de Terror em Silent Hill, a superprotetora Sra. Voorhees (Betsy Palmer) de Sexta-Feira 13; a romântica, mas racional, Tiffany (Jennifer Tilly) de A Noiva de Chucky; e as vampiras Claudia (Kirsten Dunst) de Entrevista com o Vampiro, Eli (Lina Leandersson) de Deixa Ela Entrar e Carmilla (Ingrid Pitt) do clássico gótico A Vampira de Karnstein.


Laurie Strode (Franquia “Halloween”)

Outra personagem que pode gerar alguma polêmica sobre a escolha. Laurie Strode talvez seja a “scream queen” mais lendária do cinema, interpretada pela excelente Jamie Lee Curtis, filha de Janet Leigh, protagonista da icônica cena do chuveiro de Psicose. O fato é que Halloween – A Noite do Terror não foi o primeiro slasher do cinema estadunidense. Apesar disso, sua ENORME fama na época gerou inúmeras cópias, dentre elas está Sexta-Feira 13, a mais bem-sucedida. Todas os outros slashers seguintes padronizaram uma “fórmula” identificada no roteiro de John Carpenter e Debra Hill, sendo que o único personagem que sobreviveria ao assassino seria a garota virginal que não consome álcool ou drogas.

Segundo John Carpenter, sua intenção ao criar Laurie Strode como heroína era que ela fosse uma “outsider” assim como Michael Myers; que ela conseguisse enganar e sobreviver ao vilão justamente por ter uma personalidade compatível de individualidade. Mas o modo como Carpenter fez para individualizar Laurie Strode dos outros personagens caiu em um discurso de moralismo cristão que foi escancarado nas diversas cópias: se você, jovem, beber, usar drogas ou fazer sexo pré-nupcial, morrerá violentamente. E não só isso; muitos críticos da época acusavam os slashers de serem filmes misóginos, já que colocavam suas vítimas mulheres sob várias situações de sofrimento por um assassino psicopata, majoritariamente, do sexo masculino. Os cineastas que trabalhavam com slashers refutavam essa ideia, já que alegavam que suas protagonistas sempre sobreviviam no final e conseguiam matar os assassinos.

De certa forma, eu acho o discurso sobre misoginia nos slashers exagerado, afinal de contas, tanto personagens do sexo masculino, quanto feminino, sofrem os mesmos destinos nesses filmes. No entanto, não há como negar o moralismo cristão ali presente.

Voltando a Laurie Strode. Por mais que ela seja a “boa garota da vizinhança”, que não festeja como os outros jovens, é inegável que ela seja a única que consegue machucar e enganar o imbatível Michael Myers no clássico de 1978. Já na boa sequência de 1981, Halloween II – O Pesadelo Continua, Laurie continua com sua habilidade de fugir do assassino dentro de um sombrio hospital, embora continua somente reagindo às ações daquela figura. A verdade é que Laurie cai inesperadamente em uma situação muito fora de seu cotidiano, assim como Sarah Connor em O Exterminador do Futuro, se limitando a reagir circunstâncias, ao invés de ser proativa. E em ambos os filmes, Laurie é sempre auxiliada pelo intenso Dr. Loomis, o que tira um pouco de sua força.

Mas TUDO muda em Halloween H20 – Vinte Anos Depois, uma sequência idealizada principalmente por Jamie Lee Curtis após o sucesso do jovem clássico Pânico. Traumatizada pelos eventos de sua juventude, Laurie forjou sua morte, adotou outro nome (Keri Tate) e se mudou para outro estado. Mesmo 20 anos depois de ser perseguida por Michael Myers, Laurie continuava temerosa e se escondendo de um possível novo ataque. E quando Michael Myers finalmente a encontra, Laurie é envolta por uma força até então insuspeita e toma as rédeas da situação. Um dos momentos mais memoráveis do cinema de terror é quando Laurie salva seu filho e sua namorada, fecha o portão de aço de sua moradia, quebra o controle, pega um machado e vai atrás do assassino gritando “MICHAEL!” a plenos pulmões.

A Laurie Strode de Halloween H20 simbolizou uma redenção para as scream-queens de todas as épocas. Elas não mais precisariam apenas fugir, se esconder ou gritar de pavor quando os assassinos viessem ao seu encalço. A madura Laurie Strode mostrou a elas que todas tinham o poder de se salvarem sozinhas, salvarem outras pessoas, e de ser uma figura a ser temida pelo vilão assim como ele era. Laurie Strode guiou as scream-queens para o caminho do empoderamento que elas tanto mereciam.

Em relação a heroínas proativas e poderosas do cinema de terror, também devem ser citadas: Sidney (Neve Campbell) de Pânico, a primeira scream-queen a sobreviver justamente por subverter as regras dos slashers; as bravas Nancy (Heather Langenkamp) e Alice (Lisa Wilcox) da franquia A Hora do Pesadelo; a habilidosa Erin (Sharni Vinson) do recente Você é o Próximo; a vingativa Jennifer do xploitation A Vingança de Jennifer; a inabalável Tangina Barrows (Zelda Rubenstein) de Poltergeist, o Fenômeno (1982); as irmãs Ginger e Brigitte (Katherine Isabelle e Emily Perkins) do cult Possuída; a excêntrica India (Mia Wasikowska) de Segredos de Sangue; e a altruísta Hellen (Virginia Madsen) de O Mistério de Candyman; e as sofisticadas Marion Crane (Janeth Liegh) de Psicose e Melanie Daniels (Tippi Hedren) de Os Pássaros.


Tenente Ellen Ripley (Franquia “Alien)

Interpretada por Sigourney Weaver em quatro filmes (leiam aqui nosso especial sobre a franquia), a Tenente Ellen Ripley talvez seja o maior exemplo do personagem feminina poderosa da ficção científica. No clássico de 1979, a personagem tem um arco dramático muito simbólico, pois precisa superar o sexismo e preconceito de seus colegas de profissão (inclusive alguns subalternos) para conseguir expressar suas ideias sobre como aniquilar a criatura alienígena presente naquela nave. Os dois primeiros atos não deixam claro que Ripley é a verdadeira protagonista ali (um belíssimo trabalho de direção de Ridley Scott). É só quando chega o ato final que Ripley “bate a mão no peito” e, finalmente, toma a liderança da situação, marcando para sempre a história do cinema fantástico. A importância de Ripley para as mulheres no cinema é enorme, já que pela primeira vez, uma personagem feminina ativa, inteligente e independente foi protagonista de um filme de gênero majoritariamente masculino.

Já em Aliens, o Resgate, a personagem continuou sendo a voz da razão em um universo militar tradicionalmente masculino, tomando a frente de um verdadeiro pelotão de soldados, inclusive de alguns muito experientes, e angariando o respeito e admiração de todos. Além disso, Ripley possui um arco dramático nesse filme que apela para uma sensibilidade exclusivamente feminina, a maternidade; com a inclusão de outra personagem feminina forte no cânone da série, a pequena Newt. E o fato de o grande vilão do filme ser uma “Rainha”, é só a cereja do bolo para as mensagens feministas que Aliens, o Resgate traz para sua audiência. A personagem foi tão bem representada na sequência, que Sigourney Weaver se tornou a primeira atriz a concorrer ao Oscar por uma protagonista de filme de ficção científica/ação.

Apesar de continuar sempre interessante, Ripley foi sabotada por roteiros ruins e direções equivocadas em Alien3 e Alien – A Ressurreição. Apesar disso, há alguns elementos feministas interessantes ali, como o modo que Ripley é segura em relação à sua vida sexual independente de julgamentos, no terceiro capítulo.

Felizmente, os dois primeiros filmes são FORTES o suficiente para manterem a personagem como um dos ícones máximos da representatividade da mulher no cinema fantástico. Ripley discute com homens de igual para igual e não se sente intimidada por nenhum deles; a Tenente pega em armas e enfrenta o alienígena como nenhum outro personagem. E o mais interessante é que Ripley é bem-sucedida como heroína “bad ass” justamente por nunca deixar de lado a sensibilidade inerente ao gênero feminino.

Indo de encontro a Ripley, há outras personagens que lutam contra criaturas bizarras que também merecem menção. A Barbara (Patricia Tallman) de A Noite dos Mortos Vivos (1990) demonstra muito controle e inteligência em uma situação calamitosa, enquanto a Sarah (Shauna MacDonald) de Abismo do Medo tem força para lutar em um ambiente claustrofóbico, mesmo com um passado doloroso envolvendo maternidade.

No mesmo quesito de “mulher superando uma realidade assustadora” estão a maternal Jess (Melissa George) de Triângulo do Medo; a racional Michelle (Mary Elizabeth Winstead) de Rua Cloverfield, 10; a corajosa Ann Darrow (Naomi Watts) de King Kong (2005); e até a resiliente “mulher do médico” (Julianne Moore) de Ensaio Sobre a Cegueira (2008).

Em maior ou menor grau, heroínas de terror recentes como Alice (Milla Jovovich) de Resident Evil, e Selene (Kate Beckinsale) de Anjos da Noite, beberam da fonte de Ellen Ripley.


Sarah Connor (Franquia “O Exterminador do Futuro”)

Outra personagem ICÔNICA do cinema de ação/ficção científica! Sarah Connor (Linda Hamilton, em seu melhor papel) é apresentada em O Exterminador do Futuro como um “working girl” normal que tem seu mundo virado de cabeça para baixo quando é perseguida por um ciborgue vindo do futuro para exterminá-la. A grande questão feminista desse clássico de 1984 é simbolizar a figura da mulher, e a bela característica de gerar vida, por meio da salvação da humanidade em um apocalipse robótico. Sarah Connor será a progenitora do humano que liderará a rebelião contra as máquinas no futuro. Sem Sarah Connor, não haveria esperança para a humanidade; somente uma mulher poderia carregar a possibilidade de procriação. A questão de Sarah ser protegida por um homem no primeiro filme não é só justificada pelo desenrolar da própria trama, como também pelo fato de, obviamente, ela não ter a mínima ideia de como se proteger de um robô assassino.

Mas se no primeiro do filme é ela quem dá cabo do vilão em um momento empoderador, em O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final, Sarah Connor demonstra uma personalidade embrutecida pela grande responsabilidade que carrega, o que a levou a adquirir MUITA força, inteligência e sabedoria mais do que suficientes, não só para ser um belo exemplo para seu filho, como também para conseguir se defender MUITO bem sem precisar de nenhum homem. A Sarah Connor de T2 é capaz de fazer qualquer marmanjo tremer nas bases. Independente e segura de si, Sarah é a dona não só de seu próprio destino, como também do destino de toda a humanidade. E ela luta com unhas e dentes, e todas as armas possíveis, para um futuro melhor.

Mesmo que a personagem não esteja nos desnecessários O Exterminador do Futuro 3 – A Rebelião das Máquinas e O Exterminador do Futuro – A Salvação, sua memorável personalidade é sempre presente naqueles filmes. Inclusive, T3 apresenta uma ciborgue feminina incrivelmente letal, T-X, interpretada por Kristanna Loken. Até mesmo o desastroso O Exterminador do Futuro – Genesys, que trouxe a talentosa Emilia Clarke como uma jovem Sarah Connor, não foi capaz de manchar a imagem da guerreira virtuosa que Linda Hamilton e James Cameron construíram nos dois primeiros clássicos de 1984 e 1991.

Ainda em relação a belas personagens femininas criadas por James Cameron, é preciso citar a aventureira Helen Tasker (Jamie Lee Curtis) de True Lies, que deseja muito mais que ser "apenas" uma dona de casa; além da solidária e justa Neytiri (Zoë Saldana) de Avatar, que demonstra, além de muita habilidade em se defender, uma personalidade inspiradora.

Outras personagens poderosas em filmes de ação são a habilidosa Samantha (Geena Davis) de Despertar de um Pesadelo; a cortante e objetiva M (Judi Dench) da franquia 007; e a superpoderosa Lucy (Sarlett Johansson). Já a perigosa mãe de Grendel (Angelina Jolie) em A Lenda de Beowulf, é tão mordaz ao proteger seu filho quanto Sarah Connor.

Já em relação a heroínas de filmes com universos apocalípticos ou distópicos, destacam-se a “Garota em Chamas” Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) de Jogos Vorazes; a revolucionária Evey (Natalie Portman) de V de Vingança; a andróide Pris (Daryl Hannah) de Blade Runner - O Caçador de Andróides; a surpreendente Trinity (Carrie Anne-Moss) de Matrix; a obstinada Imperatriz Furiosa (Charlize Theron) de Mad Max: Estrada da Fúria; a calculista Madeline Madrigal (Lena Headey) de Dredd – O Juiz do Apocalipse; e Baby Doll (Emily Browning) e seu esquadrão de garotas poderosas em Sucker Punch – Mundo Surreal.


Jessica Rabbit (“Uma Cilada para Roger Rabitt”)

Jessica Rabitt é outra personagem que pode gerar alguma controvérsia. Praticamente uma mistura de Lana Turner, Ava Gardner e Barbara Stanwyck, todas divas de film noir, Jessica é uma femme fatale que se vê dentro de uma trama de crime, mistério e comédia no jovem clássico Uma Cilada para Roger Rabitt. Esse longa de Robert Zemeckis é o melhor exemplo de mistura de live action com animação; é praticamente um milagre do cinema moderno que nunca se repetirá. Só em Um Cilada para Roger Rabitt você verá o Pato Donald em uma batalha épica de piano contra o Patolino, ou até o Mickey Mouse contracenando com o Pernalonga.

Como já deu para perceber, o filme é uma homenagem metalinguística, não só às animações da Era de Ouro do cinema, como também aos filmes policiais noir das décadas de 40 e 50. E Jessica Rabitt talvez seja a idealização máxima da femme fatale cuja enorme carga de sedução só é proporcional ao seu perigo. Fatalmente ruiva, com uma voz hipnotizante e um corpo com curvas voluptuosamente impossíveis, Jessica Rabitt possui uma figura que fica marcada na mente para sempre. Um verdadeiro ícone. Inclusive, quem deu voz a Jessica foi Kathleen Turner, que já havia interpretado uma femme fatale em Corpos Ardentes.

Mas se inicialmente a personagem poderia ser fruto de mentes masculinas machistas, que idealizam a mulher perfeita apenas através de um corpo escultural (e de proporções impossíveis), Jessica solta uma frase que, de tão profunda em seus significados adultos, entrou para a lista da AFI (American Film Institute) como uma das 100 melhores frases do cinema: “Eu não sou má, só fui desenhada assim”. Remetendo aos pensamentos da feminista francesa Simone de Beauvoir, Jessica escancara o modo como uma sociedade machista idealiza uma mulher e determina preconceitos a respeito de suas personalidades através da sua imagem. A partir da silhueta chamativa de Jessica Rabitt, todo o público já determina em sua cabeça a personalidade daquela mulher. Jessica Rabitt não é uma mulher perigosa, fria e calculista apenas porque ela se parece com as femmes fatales que culturalmente conhecemos.

Pelo contrário, Jessica Rabitt é apaixonada por uma figura acima de qualquer suspeita, apenas porque ele a faz rir. E mais do que isso; Jessica se recusa a ser passiva aos acontecimentos do filme. Como as figuras masculinas se limitam a enxerga-la como objeto de desejo, Jessica é inteligente ao usar isso a seu favor. Ela comanda os acontecimentos de sua vida e não apenas reage às decisões masculinas em sua volta, tanto que em determinado momento, ela fica muito à frente da investigação que estão fazendo acerca do desaparecimento de Roger, sem a ajuda de nenhum homem. Assim como toda femme fatale inteligente e poderosa, Jessica Rabitt sobrevive em tempos machistas tirando proveito da misoginia que limita o intelecto dos homens.

E mais do que isso, Jessica Rabitt pode ser um símbolo da independência sexual das mulheres. Elas são donas de seu próprio corpo, elas têm direito a ter uma vida sexual como elas acharem melhor e devem utilizar roupas conforme se sente confortáveis. A decisão é inteiramente DELAS! Não é porque as mulheres valorizam o que acham de mais bonito em seus corpos que isso significa um convite aos homens. Jessica Rabitt é assim; ela usa o que gosta. E se ela é julgada por sua imagem, Jessica é segura o suficiente para saber que isso diz muito mais sobre o caráter de quem julga, do que sobre ela mesma.

Em relação a outras mulheres fortes dos filmes de animação nós podemos citar a estudiosa Bela de A Bela e a Fera; a corajosa Mulan; as guerreiras Pocahontas e Merida de Valente; a independente Moana; a madura Elsa de Frozen; e a trabalhadora Tiana de A Princesa e o Sapo. Há de se citar também a tocante versão live action de Malévola, que Angelina Jolie nos entregou.


Agente Especial do FBI Clarice Starling (“O Silêncio dos Inocentes”)

Especialmente no thirller de horror de 1991 que introduziu Anthony Hopkins como Hannibal Lecter, Jodie Foster encarnou a intrépida agente Clarice Starling com a força e o poder que já lhe são característicos.

Clarice é uma talentosa agente do FBI formada em Direito e em Psicologia. Com uma traumática infância marcada por tragédias familiares e rejeição por parte da família, Clarice foi obrigada a criar uma “casca” de invulnerabilidade, o que lhe serviu, e muito, para conseguir atuar com destaque em uma área que é majoritariamente desempenhada por homens. Com uma relação psicologicamente íntima com Hannibal Lecter, Clarice é a única agente inteligente o bastante para conseguir extrair informações sobre o serial killer Buffalo Bill (Ted Levine); e conseguir, finalmente, rastreá-lo e ir em seu encalço.

Criada pelo autor Thomas Harris, a personagem Clarice é desafiada diariamente durante seu serviço, a vencer o machismo e a misoginia em seu meio de trabalho. Não somente por olhares tortos e comentários estúpidos, Clarice também precisa superar as tentativas de sabotagem por colegas de trabalho homens, principalmente quando, por seu enorme talento e inteligência, consegue descobrir algo que nenhum outro agente do gênero masculino havia conseguido. Por ser mulher, ela não tem direito a privilégio no FBI, e é duplamente testada para receber o mesmo mérito de um agente do gênero masculino que trabalhou menos que ela. A personagem foi tão marcante em O Silêncio dos Inocentes, que fez com que o autor escrevesse uma sequência, Hannibal, com o retorno da mesma; algo que não aconteceu com o investigador principal do livro Dragão Vermelho, escrito antes de O Silêncio dos Inocentes.

O filme dirigido por Jonathan Demme, que também trabalhou com outras personagens femininas marcantes em filmes como O Casamento de Rachel e Ricki and the Flash: De Volta para a Casa, foi um dos três únicos filmes a vencer os cinco principais prêmios do Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Melhor Atriz e Melhor Ator. Anos depois foi lançado a adaptação de Hannibal, mas que trouxe Julianne Moore como Clarice Starling, já que Jodie Foster não concordou com os rumos tomados pela personagem nessa nova história. Realmente, a Clarice Starling de Hannibal não demonstra toda a sagacidade que a enalteceu no primeiro filme, se tornando apenas uma personagem manipulada, nenhum pouco ativa e que apenas reage aos personagens masculinos ao seu redor.

No entanto, a Clarice Starling de Jodie Foster, do jovem clássico de 1991, continua sendo a nossa agente do FBI preferida. Uma profissional que não tem medo de enfrentar os machistas colegas de profissão; uso sua inteligência e competência para ganhar espaço no seu meio de trabalho e ainda é sagaz o bastante para conseguir a atenção do assustador Hannibal Lecter e tirar informações valiosíssimas dele, mesmo que ela precise entrar em um jogo psicológico doentio para isso. Jodie Foster também interpretou outra mulher, e profissional, exemplar (Eleanor) na clássica ficção científica Contato. Outra grande personagem feminina de uma ficção científica é a Dr. Louise (Amy Adams) de A Chegada.

Assim como Clarice, outras mulheres estudiosas e investigadoras ganharam nossa atenção no cinema fantástico. Dentre elas estão as “Hitchcockianas” Charlie (Teresa Wright) de A Sombra de uma Dúvida e Lisa (Grace Kelly) de Janela Indiscreta. Também se destaca a independente e ousada Lisbeth Salander (Rooney Mara) de Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres; a intrêmula “mãe solteira” (Sarah Snook) de O Predestinado; a destemida Rachel Dawes (Katie Holmes e Maggie Gyllenhaal) da franquia O Cavaleiro das Trevas; e até as divertidas Caça-Fantasmas (Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Kate McKinnon e Leslie Jones).


Catherine Tramell (“Instinto Selvagem”)

Membro da Lista da AFI (American Film Institute) de “Melhores Vilões do Cinema”, Catherine Tramell é a quintessência da femme fatale pós-moderna. Milionária, influente, graduada e romancista de sucesso, Catherine Tramell possui não só a beleza estonteante de Sharon Stone, como também uma personalidade enigmática e envolvente que é capaz de deixar todos os espectadores completamente em dúvida sobre suas verdadeiras intenções e sentimentos. Não à toa uma das referências para a criação da personagem foi Kim Novak no clássico Um Copo Que Cai.

Dirigido por Paul Verhoeven, que nos entregou o fascinante e feminista Elle no ano passado, Instinto Selvagem trabalha o que seu título original clama, “Instintos Básicos” do ser humano; a atração, a sedução, o sexo. E ninguém sabe mais sobre como utilizar esses artifícios a seu favor que Catherine Tramell. Suspeita de ter assassinado seu namorado durante o ato sexual (uma cena inicial impactante), Catherine é uma personagem que deixa os investigadores completamente perdidos sobre sua culpa, ou não. E o principal motivo disso, e o que torna a personagem tão emblemática, é o fato de ela utilizar o seu ardor sexual pulsante como arma para cegar aqueles homens fracos.

A grande questão feminista de Instinto Selvagem é a ridicularização da libido estúpida dos homens; o modo como eles, frequentemente, “pensam com a cabeça de baixo”. Catherine, assim como muitas mulheres, reconhece que isso é uma fraqueza dos homens, e que ela pode manipulá-los a seu bel prazer somente por atuar como uma donzela indefesa e frágil. Com a ilusão de estarem no comandando daquela relação, os homens que sucumbem à inteligente sedução de Catherine ficam inconscientemente vulneráveis ao seu poder. E é aí que mora o perigo. Catherine é capaz de encarar diversos policiais homens em um interrogatório sem medo algum; e é justamente quando eles acham que estão no comando que ela oferece uma cruzada de pernas milimetricamente calculada para desestabilizar todos aqueles “pênis” que estão tentando encurralá-la. E a atuação de Sharon Stone é nada menos que PERFEITA para ilustrar como Catherine ri e debocha internamente de todas aquelas figuras masculinas. É MUITO fácil conseguir o controle deles.

Não somente por escancarar essa óbvia fraqueza estúpida dos homens em relação as mulheres, o filme também é importante por levantar a bandeira da liberdade sexual feminina sem julgamentos. Catherine Tramell é uma mulher independente que tem seus próprios desejos; ela tem direito SIM de ter sexo casual assim como todos os outros homens tiveram durante os séculos. Como ela diz a um affair em determinado momento do filme: “Não vou te contar os meus segredos só porque tive um orgasmo”.

Outras femme fatales poderosas do cinema fantástico que merecem menção são: a ardilosa Matty Walker (Kathleen Turner) de Corpos Ardentes; a sedutora Laura (Renecca Romjin) de Femme Fatale; a inteligentíssima Ava (Alicia Vikander) de Ex_Machina; a plena Tia Entity (Tina Turner) de Mad Max: Além da Cúpula do Trovão; a habilidosa Lori Quaid (Sharon Stone) de O Vingador do Futuro (1990); a alienígena Laura (Scarlett Johansson) de Sob a Pele; a assustadora Amy Dunne (Rosamund Pike) de Garota Exemplar; a ardente Santanico Pandemonium (Salma Hayek) de Um Drink no Inferno; e a implacável Vampira Espacial (Mathilda May) de Força Sinistra.

As “bruxas” interpretadas por Cher, Susan Sarandon e Michelle Pfeiffer em As Bruxas de Eastwick não são femme fatales, mas também souberam reconhecer as fraquezas masculinas para se defenderem. Da mesma forma, Nancy (Jessica Alba), Gail (Rosario Dwason) e a gangue de prostitutas de Sin City são outras personagens esplendorosas. Já Ava Lord (Eva Green), está dentro do mesmo time “mulheres fatais”, assim como Catherine Tramell.


Mulher-Gato/Selina Kyle (“Batman – O Retorno”)

No mesmo ano que em Sharon Stone ARRASOU nos cinemas com sua intrigante Catherine Tramell, Michelle Pfeiffer também chegou para marcar eternamente a cultura pop. Nessa superior sequência de Batman – O Filme, Tim Burton destilou todo seu amor pelo cinema gótico dos anos 60 e o expressionismo alemão dos anos 20 com uma estética fabulosa e uma grande paixão por personagens sombrios, malditos e outsiders. Mas o que realmente fica com o espectador após assistir a Batman – O Retorno é a magnífica personificação de Michelle Pfeiffer como a Mulher-Gato.

A própria “criação” da Mulher-Gato nesse filme, não só é o melhor elemento do roteiro de Daniel Waters (Atração Mortal), como também é um manifesto feminista que usa o pastiche para denunciar a ignorância dos machistas. Secretária (profissão, por excelência, feminina) e recatada por imposição de uma sociedade hipócrita, completamente descontente com sua vida, Selina Kyle é assassinada por seu patrão abusivo por tentar fazer uma coisa certa. Ao ser ressuscitada por figuras felinas que simbolizavam o que ela mais almejava para sua vida (reparem no breve, mas revelador, “diálogo” que ela tem com sua gatinha no início do filme), Selina literalmente destrói todos os símbolos de obediência e decoro impostos às mulheres presentes em sua casa, e usa sua persona para desafiar TODOS os homens presentes naquele universo. A roupa sadomasoquista para lutar contra “homens” é um tapa na cara da sociedade hipócrita que quer ditar um código de conduta para mulheres. Além disso, o destino trágico da personagem é uma analogia de como mulheres independentes são preconceituosamente combatidas em um mundo dominado por figuras masculinas.

Michelle Pfeiffer é capaz de dar, além de uma sexualidade pulsante, uma tridimensionalidade profunda para os dilemas de sua personagem, que é obrigada a se tornar uma vilã justiceira em um universo opressor; uma tragédia irônica. Tim Burton, reconhecendo sua personagem poderosa, independente e desafiadora, fornece a ela a verticalidade imagética que se restringia somente ao Batman. A Mulher-Gato é a única outra personagem daquele universo lúgubre que, assim como Batman, tem direito de ver Gotham City de cima. E ela chega a dominar esse ambiente em determinados momentos, vale lembrar.

Dentre outras personagens de quadrinhos, mais especificamente de universo de super-heróis, que ganharam nossa atenção no cinema, estão: as mutantes Mística (Jennifer Lawrence e Rebecca Romijn), Tempestade (Halle Berry e Alexandra Shipp) e Jean Grey (Famken Jansen e Sophie Turner) de X-Men; a pequena e feroz X-23 (Dafnee Keen) de Logan; a sanguinária (e desbocada) Hit-Girl (Chlöe Grace Mortez) de Kick Ass; Gamora (Zöe Saldana), Viúva Negra (Scarlett Johansson) e Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), todas do Universo Cinematográfico Marvel.


A Noiva (“Kill Bill Vol. 1 e 2”)

Homenagem de Quentin Taratino ao cinema asiático de kung-fu, filmes japoneses de samurais e faroeste italianos das décadas de 60 e 70, Kill Bill é uma saga xploitation com orgulho! Além de esbanjar todo o talento de roteirista e diretor de Tarantino para transformar o cinema B em A, Kill Bill também traz uma presença magnética de Uma Thurman, no papel de sua carreira.

Trazendo tons de A Noiva Estava de Preto (1968) e Lady Snowblood (1973), Kill Bill conta a história de uma assassina profissional, ex-membro de um esquadrão (Esquadrão Assassino de Víboras Mortais) que sofre um atentado no dia do ensaio de seu casamento. Todos seus amigos, inclusive o marido, são brutalmente massacrados nesse dia. Ela, em especial, é espancada e assassinada por seu antigo namorado, Bill (David Carradine), mesmo estando grávida. Mas o tiro que “A Noiva” recebeu de Bill não a matou; ela permaneceu em coma durante vários anos. E quando ela acorda, não há mais nada que ela possa fazer, a não ser buscar vingança.

Além da catarse de violência, e todo o estilo pop, habitual de Tarantino, Kill Bill também traz aquela que seria sua personagem mais famosa. “A Noiva” interpretada por Uma Thurman não somente é uma assassina extremamente eficiente, como também uma lutadora de kung-fu e espadachim formidável. Mais do que uma pessoa em busca de vingança por um ato cruel, “A Noiva” é uma mulher que luta pelo direito de emancipação de um antigo namorado violento e possessivo. Todos os eventos cruéis que aconteceram com ela são resultados de ciúmes doentio e orgulho ferido de um misógino que não aceitou a rejeição e se acha possessor das mulheres com quem teve algum relacionamento. “A Noiva” está aí para provar que NÃO, as mulheres não são posses dos homens; assim como qualquer outro ser humano, ELAS definem o rumo de suas vidas. Recentemente tivemos outro belo exemplo de uma personagem buscando emancipação de relacionamentos abusivos no pouco visto Colossal.

Além disso, Kill Bill ainda toca em outro sentimento muito caro, e exclusivo, às mulheres: a maternidade. “A Noiva” não somente teve negado seu direito a uma vida livre e independente, como também sua opção de ser uma mãe ideal para sua “cria”. E Uma Thurman, que havia sido mãe pouco antes das filmagens, trabalha todas essas emoções femininas com uma intensidade e carisma ímpar. Um trabalho de atuação grandioso que só não foi indicado a diversos prêmios por causa do preconceito contra os filmes B aos quais Tarantino homenageia.

Aliás, Tarantino é um mestre em criar belas personagens femininas. A começar pela hipnotizante Mia Wallace, também interpretada por Uma Thurman em Pulp Fiction – Tempo de Violência. Já a implacável Jackie Brown de Pam Grier é um símbolo supremo de todo o poder das mulheres negras que ajudaram a popularizar o blackxplotation. Em Kill Bill também há outras três grandes mulheres: a guerreira O-Ren Ishii (Lucy Liu); a perigosa Elle Driver (Daryl Hannah) e a assertiva Vernitta Green (Vivica A. Fox). Mais recentemente também tivemos a resiliente Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) do subestimado Os Oito Odiados, que por si só, já faz um belo comentário sobre a intolerância, inclusive contra mulheres, durante a construção da “América”.

Também não podemos nos esquecer do belo elenco de mulheres de À Prova de Morte, que são poderosas o bastante para combaterem um psicopata misógino. E falando em Grindhouse, não há como esquecer Cherry Darling (Rose McGowan) e a Dra. Dakota Block (Marley Shelton), que arrasaram em Planeta Terror.

E aí pessoal? Qual a opinião de vocês sobre essas personagens? Esquecemos de citar alguma que vocês gostam? Deixem suas opiniões no espaço de comentários.


Divulgaí

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