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Crítica: Neve Negra

Neve Negra é um filme que funciona na medida para um drama, mas apresenta decisões questionáveis em seu enredo como thriller, embora sua ambientação e direção sem dúvida façam jus ao gênero.
Crítica: Neve Negra

Ricardo Darín se tornou uma unanimidade entre os cinéfilos. Até entre aqueles espectadores bastante casuais, o excepcional ator argentino definitivamente desperta admiração e aquele quase mito popular de que ele “está em todos os filmes argentinos”. É realmente inegável que ele ajudou o cinema de seu país a ganhar espaço no coração do público brasileiro, principalmente depois de O Segredo dos Seus Olhos, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010.

Quem acompanha a carreira do ator ainda não deixou de se deslumbrar pela sua capacidade e versatilidade. Dono de uma presença sempre forte e de um cuidado cirúrgico na caracterização de seus personagens, Darín costuma ser aquele que eleva qualquer material no qual esteja envolvido, mesmo que este não seja dos melhores. Neve Negra, novo thriller do diretor Martin Hodara – que foi assistente de direção em Nove Rainhas: primeira consagração crítica de Darín – não se encaixa exatamente nem entre os piores e nem entre os melhores do ator; é apenas um bom filme que conta com sua ilustre presença, um eficiente clima de suspense, e duas outras ótimas atuações.

Na trama, Marcos (Leonardo Sbaraglia), juntamente com sua esposa Laura (Laia Costa), viaja à Patagônia para se encontrar com seu irmão Salvador (Ricardo Darín), com o intuito de convencê-lo a vender suas terras herdadas do recém falecido pai. Encontrando o irmão vivendo há anos sozinho na casa onde passou sua infância, Marcos tem de resolver o problema da herança enquanto enfrenta velhos fantasmas de seu passado com sua família.   

Estabelecendo a bela e opressora paisagem da Patagônia como local onde se desenrola o enredo, Neve Negra é um filme que sabe utilizar sua ambientação com o objetivo de transportar a experiência de Marcos e Laura para o espectador. Contrapondo os momentos iniciais, quando o ambiente se apresenta apenas como parte da pequena cidade, à medida que eles se aproximam da morada de Salvador, as florestas inóspitas e as montanhas imponentes formam um clima ameaçador em volta da casa onde Marcos cresceu e onde está a origem do mistério que permeia a narrativa.

Salientando constantemente a relação entre o frio cortante e a sensação de desconfiança, Hodara e o Diretor de Fotografia Arnau Colomer nos colocam num ambiente que parece sempre sugerir que algo de errado está para acontecer. Desde a pequenez dos personagens em reação à imensidão de neve ressaltada pelos planos gerais, até aos “embates” claustrofóbicos à pouca luz noturna, o suspense criado pelo isolamento e a solidão de Salvador é o responsável pela nossa expectativa em querer saber o passado do homem solitário e o porquê da tensão nas tentativas de conversa entre os irmãos.

Aliada ao visual, a estrutura narrativa se baseia em saltos no passado com o intuito de despertar nosso interesse em descobrir o que realmente aconteceu num momento específico salientado pela montagem. Tanto através de cortes secos que levam às caçadas que Marcos fazia com o pai e os irmãos, como também usando panorâmicas e travellings para “viajar no tempo” no mesmo plano, mostrando as duras memórias que o irmão guarda dos cômodos da casa, somos levados e montar um quebra-cabeça que justifique o porquê do comportamento defensivo e quase agressivo de Salvador. O cineasta ancora a construção dessa expectativa num jogo de pistas que vão e voltam no tempo, mantendo a boa fluidez e impedindo que a natureza do espaço onde se passa a história deixe a narrativa entediante.

Aí também é necessário salientar o talento de Darín em não transformar Salvador numa espécie de figura misteriosa com ares de sociopata, mas sim em alguém que carrega um trauma no olhar, no qual se enxerga mais a tragédia do que a ameaça. É esse cuidado que acaba sendo responsável pelo nosso envolvimento com o personagem. Por paralelismo, o mesmo pode se dizer do talentoso Leonardo Sbaraglia (do ótimo O Silêncio do Céu), que compõe um Marcos que, apesar de se mostrar inquietante com as atitudes do irmão, apresenta um comportamento que também denota intensões que não são claras para o espetador. 

Apesar de contar com bons personagens, não se pode defender Neve Negra apenas como um estudo de seus habitantes. A maneira como a narrativa é estruturada claramente subordina as personalidades dos irmãos aos acontecimentos do passado, isto é, à trama. Sem entregar nada, é possível dizer que há dois aspectos no arco de Marcos e Salvador: uma causa, representada por um fato específico, e uma consequência que resulta numa tragédia familiar. O problema aqui é que a consequência acaba se tornando bastante previsível, ainda mais considerando os momentos específicos onde a narrativa escolhe cortar do passado para o futuro, praticamente não deixando muita escolha diante das possibilidades para compor as lacunas na história; fora que é ela, e não a causa, que se mostra determinante para entendermos os conflitos de Salvador. Sendo este um thriller psicológico, a experiência da surpresa acaba sendo um pouco prejudicada pelas escolhas do longa, embora ainda tenhamos alguns arcos surpreendentes para fechar em relação ao desfecho dos personagens.  

O mérito do thriller de Hodara acaba sendo a inversão das expectativas que tínhamos dos personagens em relação às suas ações no presente, principalmente as que envolvem Laura e seu papel de intermediária na relação entre os irmãos. O roteiro, também do diretor e em parceria com Leonel D´Agostino, consegue subverter as impressões que tínhamos de Marcos e Salvador, transformando o suspense numa tragédia e fazendo com que as ações atuais soem mais instigantes que o passado, o que acaba reforçando que o suspense atrelado às expectativas sobre a trama em si decepcione, nos restando o desfecho do trio no presente. Basicamente isto é dizer que, embora a trama em si perca força, os personagens acabam crescendo no 3º ato, felizmente. 

Sem poder dizer mais para entregar de menos, Neve Negra é um filme que funciona na medida para um drama, mas apresenta decisões questionáveis em seu enredo como thriller, embora sua ambientação e direção sem dúvida façam jus ao gênero. Ainda não é aquele exemplar do cinema argentino que tanto costuma ser celebrado aqui no Brasil (mais do que o nosso, infelizmente), mas acaba valendo pelo suspense e pela ótima atuação do trio principal.

Divulgaí

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