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Crítica: Colossal

Vigalondo tem consciência da abordagem que escolheu e, dentro de sua proposta, consegue entregar um resultado que soa refrescante e diferente.
Crítica: Colossal

O cineasta espanhol Nacho Vigalondo chamou a atenção da crítica em 2007 quando dirigiu Crimes Temporais, uma ficção científica com toques de suspense e viagem no tempo. O filme, com cara de indie e orçamento de indie (baixo orçamento mesmo, não o independente no "jeitinho", porém com orçamento de média produção, como acontece muito nos EUA), ganhou um certo falatório no cenário mais alternativo por conseguir adentrar bem no terreno sci-fi sem necessitar de muito dinheiro – só precisando mesmo de um roteiro redondo e uma boa direção. Outro filme da carreira do diretor, Perseguição Virtual, apesar de já ter uma qualidade bem duvidosa, serve ao menos para perceber uma certa tendência de Vigalondo em contar histórias que usam de grandes reviravoltas e certos exageros da realidade a fim de atingir alguma mensagem relevante.

O que é o caso de Colossal, novo projeto do mesmo diretor, que conta com um orçamento considerado baixo ainda para os padrões americanos de produção (US$ 15 milhões) e tem como protagonista uma atriz de alto escalão em Hollywood. Aqui, Gloria (Anne Hathaway) é uma escritora que perde o emprego em Nova York e, ficando sem lugar para morar, acaba tendo que voltar para a sua pequena cidade Natal. Lá, ela encontra um amigo de infância, Oscar (Jason Sudeikis), ao mesmo tempo em que descobre ter estranhas conexões com uma criatura gigante que está atacando a cidade de Seul, capital da Coréia do Sul. 

Lendo a sinopse, ou mesmo dando uma conferida no trailer, não é difícil perceber a estranheza na premissa de Colossal, o que já causa uma curiosidade em saber como seu idealizador vai abordar essa aparente falta de conexão entre gêneros. Como foi dito anteriormente, até que não é surpresa o resultado dessa empreitada quando notamos sua predileção por uma extrapolação da realidade para chegar no ponto crucial que o filme quer discutir. Mantendo um certo ar cool que remete ao cinema independente norte americano, Colossal usa da fonte do realismo fantástico para inserir o espectador no arco de Gloria. Uma das características marcantes desse tipo de abordagem é a aparente “naturalidade” com que os personagens lidam com situações obviamente absurdas (um ataque de monstro gigante) enquanto desenvolve sua narrativa em torno de seus dramas comuns (o alcoolismo e a responsabilidade que traz a maturidade).    

Essa naturalidade que, em teoria, deveria ir de encontro aos aspectos fantásticos do filme, na verdade é trabalhada com bastante consciência pelo roteiro, também escrito pelo cineasta. O espectador vai sendo acostumado aos poucos a aceitar as alegorias que o filme propõe enquanto acompanha uma dramédia comum sobre uma personagem cheia de problemas que é obrigado a enfrentar o passado. Nesse sentido, o filme poderia funcionar até mesmo sem a parte nonsense, já que consegue relativo sucesso em apresentar personagens cativantes e bons momentos de humor.

E a maior parte do longa realmente depende deles. Anne Hathaway exibe sua segurança e encanto natural de sempre com Glória, fazendo com que não seja tão difícil torcer pela protagonista e entender seus conflitos. O elenco secundário, principalmente Joel (Austin Stowell) e Garth (Tim Blake Nelson), é responsável pela leveza e humor da narrativa, o que acaba contribuindo para que não levemos o filme a uma seriedade além do que se propõe. É preciso também destacar o ótimo trabalho de Jason Sudeikis, que transforma Oscar numa constante contradição entre o bom sujeito e o antipático perigoso e imprevisível: essa característica, aliás, é fundamental para que se denotem as conexões entre o arco de Gloria e os elementos absurdos do filme.  

O fato é que Vigalondo não se contentou em apenas contar sua história de maneira convencional. Ao usar a conexão de Gloria com o monstro gigante de Seul, Colossal estende sua alegoria para um aspecto mais visual. É quase como se o diretor fosse uma criança trancada em seu quarto escutando seus pais brigarem todos os dias enquanto resolve demonstrar suas feridas desenhando monstros gigantes numa folha de papel e lhes atribuindo características familiares à situação. É fato que não se pode dizer que a metáfora aqui é trabalhada com extrema sutileza. Pelo contrário, a maneira mais expositiva, até quase mastigada, através da qual conectamos os pontos no roteiro acaba sendo um ponto fraco do filme, e este acaba ficando limitado a boas realizações e não necessariamente grandes reflexões. A boa notícia é que, ainda assim, o filme consegue envolver em sua caminhada. 

O que nos leva ao verdadeiro tema do longa, que é relacionar o elemento “filme de monstro” com situações humanas e destrutivas para os personagens, principalmente o alcoolismo e os relacionamentos abusivos. Portanto, é interessante notar, por exemplo, como Gloria reage quando percebe que o monstro imitou todos os seus movimentos enquanto ela estava embriagada na noite anterior, o que acaba causando destruição e morte em Seul. O fato dela não se lembrar de nada do que fez e ainda acordar com a sensação de que “machucou” outras pessoas não é novidade em quem sofre com a bebida em excesso. Mais evidente ainda é a relação que se faz entre o perigo representando pela criatura e a progressão da culpa em quem é vítima de um relacionamento abusivo recheado de falsas promessas, machismo e violência. À medida que avançamos na narrativa, fica clara a intenção de Vigalondo em unir o significado de “catástrofe” a partir da conexão absurda entre duas abordagens tão distantes.

Falando assim, parece até que Colossal é um filme carregado de pesar e com um tom sombrio, mas a abordagem mais leve e sem nenhuma pretensão de ser um grande estudo sobre os temas faz com que aquela mistura aparente de gêneros funcione bem. É um pouco decepcionante perceber que este é um projeto que poderia ser um pouco mais arriscado e desafiador caso optasse por uma narrativa mais aberta e séria, mas Vigalondo tem consciência da abordagem que escolheu e, dentro de sua proposta, consegue entregar um resultado que soa refrescante e diferente.


Divulgaí

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