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Crítica #2 - Mulher-Maravilha

Mulher Maravilha é um retrato inspirador e representativo para todos, empolgante e revigorante em sua própria estética ao longo de um ótimo e estável ritmo.

Há uma carregada responsabilidade aos ombros de Mulher Maravilha em 2017, e ainda que precise acabar com a desconfiança geral dos filmes da Warner/DC (sucedendo o decepcionante Esquadrão Suicida e o polêmico Batman vs. Superman) gerando certo alívio, um fantasma ainda mais antigo ronda a produção: Maravilha é o primeiro filme de super-heroína em anos, injustamente adormecidas após absolutos fracassos anteriores. Porém, a responsabilidade do filme se estende, jogando com o maior símbolo feminino da cultura popular em uma época em que o sexismo é debatido eminentemente, sendo assim, surge-se uma sensibilidade cuidadosa ao explorar contextos e mensagens naturais com a força de uma personagem que carrega o nome Mulher em seu título, ainda que não se prenda a impactar forçando mensagens de formas superficiais.

Dirigido por Patty Jenkis (do excepcional Monster – Desejo Assassino, que rendeu um Oscar à Charlize Theron) e estrelado por Gal Gadot, Robin Wright, Chris Pine, David Thewlis, Danny Huston e Elena Anaya, Mulher Maravilha conta a origem de Diana Prince ao conhecer o estrangeiro Steve Trevor, descobrindo que uma guerra está se espalhando pelo mundo. Certa de que pode acabar com o conflito, a Mulher Maravilha vem ao nosso mundo para descobrir sua verdadeira missão.

Por mais que se trate de uma história de origem que não dispensa explorar a infância e o crescimento de Diana em Themyscira, Jenkis teve liberdade para estudar as relações da protagonista com sua terra e familiares, estabelecendo a importância de Antíope (Wright) em sua vida, por exemplo. Com isso, a origem ganha tempo e equilíbrio por já ter trabalhado a empatia e a apresentação de Gadot no papel em Batman vs. Superman – mesmo que a obra de Snyder não seja essencial para o entendimento de Mulher Maravilha, há um usufruto da empatia da heroína quando o filme explora o seu temperamento e sua descrença com a humanidade. Continuo, porém, mais inclinado a origens contadas como em Deadpool (2016), alternando entre linhas temporais para dar objetividade ao primeiro ato, mas não que a forma de estabelecer a origem de Maravilha seja morosa ou monótona, trata-se apenas de uma alternativa promissora.

Outro equilíbrio em Maravilha reside em seu tom – algo muitas vezes criticado em filmes deste universo -, tanto por uma fotografia atraentemente paradisíaca nas formas tropicais de Themyscira, que combina certa singeleza visual com um clima soturno de guerreiras treinando para suas batalhas mortais, contrastando com uma Europa crua e cinzenta, que curiosamente exibe bom humor e alívios cômicos ao filme ante uma atmosfera visualmente melancólica e pós-apocalítica. O essencial cuidado com o figurino somado à bela reconstituição urbana de época contribuem para que o filme seja uma verdadeira viagem no tempo para o espectador – algo muitas vezes tratado de forma superficial, especificamente em blockbusters modernos. O humor, inclusive, é bem dosado e conveniente ao contexto do filme, ou seja, não há quebra nas urgências propostas pelo antagonismo, que se leva a sério na medida exigida pela obra, suficiente para não torna-la climaticamente pesada. Mulher Maravilha é satisfatoriamente mais leve que seus antecessores, ainda que consiga se encaixar na sisudez do universo criado por Zack Snyder em 2013.

Falando nele, há belas movimentações ao estilo Snyder em sua boa forma nas cenas de ação, que por mais que possa soar repetitivo usar tantas vezes o artifício da câmera lenta, há muito o que se explorar técnica e visualmente, principalmente nas guerreiras amazonas, casando com as intensas e (sim) divertidas coreografias de luta. É absolutamente gratificante o modo como o filme exibe o poder feminino, motivacional e – principalmente – inspirador de sua protagonista com belíssimos planos visuais. A apresentação de Steve Trevor (Pine), por exemplo, retrata Diana como uma Deusa ao revela-la no ponto de vista do piloto, que por já ter compreendido seu cruel destino sob as águas, enxerga sua última e verdadeira esperança em forma de mulher ao olhar para cima. O mesmo tipo de estudo acontece novamente ao segundo ato, quando, na melhor cena já produzida dentre os 4 filmes deste universo da Warner/DC, Diana opta por salvar os necessitados de um pequeno e devastado povoado no meio de seu caminho. Tanto pela serenidade somada à inquietação na expressão exibida por uma cada vez mais talentosa Gal Gadot, quanto pela glorificação visual que Jenkins entrega novamente à Mulher Maravilha ao retratar sua liderança e força em planos exuberantes de puro heroísmo, depositando densidade com a impactante trilha sonora de Rupert Gregson-Williams (perfeito em Até o Último Homem, de Mel Gibson). O tal heroísmo tão ausente em filmes que mais se preocupam em se tornar episódicos, certo?

Pois o filme, assim como a heroína, é independente de qualquer trabalho antecessor ou sucessor. A única ligação que se pode destacar deste filme com o aguardado Liga da Justiça é o estabelecimento definitivo da Mulher Maravilha, tanto por sua bela intérprete quanto pela personagem por si própria no universo cinematográfico da DC Comics (que, tratando-se disso, dá um banho no levemente apático Superman que temos). A interpretação de Gadot pode não ser o mais impactante e eficiente ao explorar os picos dramáticos de Diana, mas seu essencial empoderamento ao chamar a responsabilidade do filme faz lembrar, em certos momentos, a Sarah Connor de Linda Hamilton, tornando-se aqui a maior responsável pelo funcionamento da obra. Tal força é somada à uma delicadeza adorável aos meigos sorrisos de Gadot, deixando de lado uma possível e desnecessária sensualidade de sua personagem, que “seduz” muito mais por sua bravura e sensibilidade em cena. É absolutamente cativante quando, por exemplo, Diana se distrai com um bebê na rua enquanto conhece o mundo humano, uma atitude inocente que reforça uma (também) recém-nascida em seu contexto.

Inclusive, me agrada a fluidez de Jenkins ao retratar o sexismo e o empoderamento feminino de forma orgânica, sem se pendurar em armadilhas de representatividades, muitas vezes confundidas com pena. Por exemplo, a heroína se encontra em seu contexto de época (anos 10) e realidade, ao causar certa estranheza por suas atitudes, até mesmo ao adentrar certos lugares considerados inconvenientes. O modo como é mostrada a insistência do personagem de Pine ao tentar proteger Diana, seja lhe dando a mão ou se fazendo de escudo humano contra armas de fogo, é essencial por exibir um tipo de instinto cavalheiro (a ingenuidade de Diana ao estar sendo apresentada a um novo mundo lhe faz deixar ser conduzida por Steve ATÉ certo ponto), mas também importante ao revelar quem realmente precisa de proteção sem abusar de frases feitas e destoadas da proposta sutil do filme.

Os meros incômodos de Mulher Maravilha não tiram o brilho da obra, mas consistem em peças fundamentais para resultar em uma nota 10. Se o antagonismo de Danny Huston (em uma imponente interpretação acima de sua média) e Elena Anaya se tornam eficientes e instigantes durante boa parte da projeção, uma virada não tão previsível ao terceiro ato pode desapontar e aliviar o impacto construído ao longo dos 2 primeiros. A curta exploração de Themyscira também tende a decepcionar de forma moderada, uma vez que as personagens secundárias da ilha soavam mais interessantes que os apoios de Diana em sua missão (com exceção da carismática interpretação de Chris Pine).

Mulher Maravilha é um retrato inspirador e representativo para todos, empolgante e revigorante em sua própria estética ao longo de um ótimo e estável ritmo. O tabu foi destruído graças a coragem da Warner/DC, Patty Jenkins e, principalmente, a merecedora Gal Gadot, que me obriga a pedir singelas desculpas publicamente por minha desconfiança. Mulher Maravilha é um filme que precisamos e merecemos, finalmente.


Confira a crítica em vídeo.

Divulgaí

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