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Crítica #2: Corra!

No fim, Corra! é um excelente filme que quase dá uma aula sobre terror psicológico.
Crítica #2: Corra!

Com o objetivo de surpreender o espectador e ao mesmo tempo fazê-lo refletir sobre questões raciais, Corra! do diretor estreante Jordan Peele pode ser descrito como um filme de terror pouco convencional. Com um tom puxado para um suspense pesado e um terror psicológico intenso, a trama é bem amarrada mas peca no excesso – o que, felizmente, não prejudica o filme ao todo. A produção conta com elementos que lembram o clássico O Massacre da Serra Elétrica, além de uma pegada mais atual como o recente Corrente do Mal de David Robert Mitchell, e acaba tornando-se um filme de terror que não será esquecido tão cedo.

A história do filme se passa inteiramente em um único final de semana. Chris é um jovem fotógrafo negro que, prestes a conhecer os pais de sua namorada Rose, está nervoso se a família aceitará a relação inter-racial do casal. A princípio, os modos estranhos dos pais parecem como uma tentativa desajeitada de lidar com a nova relação da filha. No entanto, acontecimentos nada normais e descobertas perturbadoras levam Chris para uma situação que ele jamais imaginou que poderia acontecer.

Apesar do enredo parecer fugir do terror usual para o suspense, o filme não sai desse gênero, apenas pendendo para seu lado psicológico – não será difícil o espectador ser pego na atmosfera tensa e confusa que o deixa levemente incomodado e atônito o tempo inteiro, levando-o a um ponto em que ele está ardilosamente criando teorias para tentar entender o que está acontecendo. O filme aborda de forma sutil, mas ao mesmo tempo ácida, questões raciais – sobretudo o preconceito e a ignorância. A cena final é um forte exemplo disso, onde a simples inversão de papéis entre um afro-americano e um caucasiano poderia mudar o rumo da história, abordando um tema bem atual (principalmente nos EUA): a violência da polícia contra os negros.

Sem recorrer a jump scares, Corra! explora um leve teor do terror clássico, procurando mais perturbar o espectador do que assustá-lo. Com uma excelente ambientação, que parece prestes a engolir quem está assistindo por tamanha tensão entre os personagens – os comportamentos estranhos e as cenas de hipnose são os pontos altos nesse quesito. A ótima trilha sonora, com forte influência dos filmes de terror antigos, mas sem perder um toque moderno, auxilia na atmosfera que o filme quer transpassar e se torna um elemento importante na narrativa. A cinematografia de Toby Oliver (A Escuridão e 33 Cartões Postais) é outra característica marcante do longa-metragem de Peele, com takes detalhistas e simples – buscando muitas vezes movimentos de câmera engenhosos. Sua fotografia, tomada por tons puxados para o azul, constrói a estética gélida do filme – tornando-se um aspecto visual importantíssimo. Sua montagem e edição, importantes devido às obscuridades do enredo, são muito bem realizadas.

O roteiro muito bem escrito pelo diretor, conta uma história amarrada cuja fluidez é excelente. No entanto, conta com uma característica que, ao mesmo tempo, se torna um marco e um problema no filme. Muitas pistas de acontecimentos que ainda estão por vir são colocadas em cenas e nos diálogos, o que é um detalhe interessante, mas por serem tão frequentes, acabam entregando as surpresas antes da hora, deixando a história com um gosto amargo de previsibilidade. Um erro que poderia ter sido evitado com uma mão mais apurada, mas que não prejudica a grandiosidade do filme ao todo. Ao todo, Jordan Peele faz um excelente trabalho na direção em sua primeira vez, que com ousadia e originalidade, realiza uma produção bem feita e que impressiona com tantos elementos diferentes.

O elenco, que conta com nomes levemente conhecidos no cinema e na televisão, é um dos pontos fortes de Corra! - algo que vale ressaltar em filmes de terror, porque infelizmente, esse gênero ainda carrega a fama de más atuações. Daniel Kaluuya (Black Mirror), Allison Williams (Girls), Bradley Whitford (O Segredo da Cabana), Caleb Landry Jones (Antiviral) e Catherine Kenner (Quero Ser John Malkovich) formam o elo principal do filme: o protagonista Chris e os quatro membros da família Armitage, respectivamente. Sem querer deixar o bom humor de lado, temos Sid (Lil Rel Howery), o melhor amigo de Chris e o alívio cômico do filme. Mas não apenas isso, se tornando um personagem importante em cena.

No fim, Corra! é um excelente filme que quase dá uma aula sobre terror psicológico. É difícil não emergir na atmosfera sufocante e o mistério atraente de sua história. Suas cenas diferentes e visualmente belas – como as da hipnose da mãe de Rose – são inteligentes e bem construídas. Mesmo com pequenos erros amadores no roteiro e uma estrutura que força (sem precisar) a confusão na mente do espectador, o longa-metragem de Jordan Peele é um ótimo filme – e um pouco incomum - de terror real que conta com críticas inteligentes ao decorrer de toda a trama - algo inusitado nesse gênero.

Divulgaí

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