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Crítica: Rei Arthur - A Lenda da Espada

Rei Arthur: A Lenda da Espada demonstra a relevância de sua releitura ao destacar a direção estilosa de Guy Ritchie em um de seus trabalhos mais autorais.
Crítica: Rei Arthur - A Lenda da Espada

Não há crime algum em comparar o novo filme de um diretor com suas obras anteriores, principalmente ao se tratar de diretores de assinatura, como Ridley Scott e o nome do dia: Guy Ritchie. Percorrer o estilo e excentricidade de um diretor ao longo de sua carreira e tentar encaixá-los na análise de um filme serve, no mínimo, como referência para o leitor se situar no que está interessado em assistir. Asneiras alheias à parte, esta é uma crítica que exemplificará (não apenar citar por alto) a correlação de trabalhos anteriores de Ritchie com seu Rei Arthur para o melhor entendimento do leitor.

Não por acaso Rei Arthur é um prato cheio para referências clínicas, seja por seu histórico fabuloso e cinematográfico em suas inúmeras versões, quanto pela familiar autoria de Guy Ritchie em um dos filmes mais “Guy Ritchianos” de sua carreira – no melhor sentido. Antes disso, porém, há talvez uma necessidade de embarque para a viagem proposta pela releitura em questão, ao que depende mais do seu próprio ponto de vista do que pela estrutura da obra. O que quero dizer é que não há timidez visual em A Lenda da Espada, que por sua vez, não poupa megalomania e não se acanha em exibir monstros gigantes e rajadas de energias em batalhas grandiosas. Afinal, esta sempre foi a proposta do filme e da própria fábula. E se toda esta megalomania exibida, em sua maioria, é crível e deleitosa aos olhos já embarcados, se tornando um ansiado espetáculo visual, Ritchie ainda combina uma suficiente complexidade aos efeitos especiais e design de produção da obra, se safando de cair no gratuito e superficial, ainda que ocorra em mínimas quantidades.

Parte desta relevância substancial consiste na elaboração de atmosfera, tão bem apresentada aos primeiros minutos do prólogo, ditando um tom épico e consistente para o filme. Ritchie faz sentir que cada peça de seu xadrez seja fundamental para a jornada do herói, que por mais íntima e habitual que possa ser para parte do público, consegue se destacar na direção ágil e excepcionalmente estilosa do diretor. E é exatamente aqui onde A Lenda da Espada irá dividir opiniões. Se por um lado há o argumento de um suposto desgaste em histórias recontadas em Hollywood, por outro, haverá o risco da chamada falta de respeito com a obra original e seus fãs, sendo algo absolutamente injusto neste caso. Com isso, o mais íntimo dos apreciadores da fábula terá de considerar o embarque novamente, pois A Lenda da Espada não desrespeita, mas inova a obra de Thomas Malory do ponto de vista cinematográfico.

Se a familiaridade com a origem de Arthur pode soar fatigante, Guy Ritchie adota o recurso da história dentro da história, seja contada por seus próprios personagens em diálogos articulados e divertidamente cômicos, ou por uma edição ágil e objetiva de passagem de tempo. Por exemplo, o modo como os personagens secundários são apresentados assegura tempo para seus desenvolvimentos, que embora não se aprofundem a ponto de desenvolver um laço densamente afetivo com o espectador, são mínimos para a elaboração da empatia dando relevância a equipe de apoio. E é por isso que o empenho no mundo criado em A Lenda da Espada é importante para o desenvolvimento de Arthur (Charlie Hunnan em boa interpretação) ao longo de sua jornada. Pois por mais que o personagem título seja um protagonista autossuficiente e, consequentemente, inclinado a imortalidade no ponto de vista estrutural, sua relação com seus apoios é intensificada na importância que cada um tem para ele, apresentando assim um equilibrado senso de urgência aos conflitos.

Porém, enquanto Ritchie acerta com sua peculiaridade, não se livra completamente de cair em suas próprias armadilhas. Se a edição ágil adotada na exibição da origem de Arthur foi um trunfo para evitar a sobrecarga do mesmo, o artifício prejudica uma promissora sequência pessoal do protagonista em uma ilha no segundo ato. A side quest de Arthur é desnecessariamente apressada, chegando a soar descartável devido ao raso desenvolvimento, ainda que não deixe de ser interessante visualmente. Talvez fosse mais sábio usar este tempo para aprofundar a responsabilidade do protagonista retratando as consequências de seus erros, uma vez que personagens escolhidos pelo destino tendem a perfeição. Não que Arthur careça de humanidade e identificação, pois o carisma e dedicação física de Hunnan são elementos cativantes e fundamentais. Porém, há um momento trágico envolvendo a partida de alguém importante para Arthur que acaba sendo narrativamente ignorado em seguida.

Há um fascinante equilíbrio cômico em A Lenda da Espada, adotando um humor habitual de Ritchie tão bem usado em trabalhos anteriores como Sherlock Holmes, de 2009, combinado a objetividade de Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, de 1998. As boas tiradas cômicas são encaixadas em momentos precisos da trama, sem que fique no caminho de momentos tensos e dramáticos, pois quando neles, explorado de forma sútil. A hilária participação de David Beckham, por exemplo, é chamativa a ponto de roubar a atenção do espectador, mas curta suficiente para não prejudicar o momento mais emblemático da fábula do Rei Arthur. Há, de certo modo, um interessante contraste climático nesta construção. A propósito, há uma bela e sensível elaboração da trama que envolve a história da espada fincada, justificando com humanidade a motivação por trás da profecia do escolhido a retirá-la.

Gosto também da independência de A Lenda da Espada, que abre possibilidades para novos rumos de uma franquia sem se prender a deixar pontas abertas. A releitura é fechada com um encerramento claro de sua trama, cabendo ao espectador explorar por conta própria sua interpretação para o futuro do universo estabelecido por Ritchie (o mago Merlin, por exemplo, é apenas brevemente citado, assim como Morgana Le Fay). O reflexo deste acerto reside em pontos como o espaço dado ao desenvolvimento do vilão Vortigern (Jude Law), que embora não seja uma figura inovadora e imprevisível em sua jornada, exerce de forma eficaz o papel de um antagonista desprezível e imponente, destacando-se na habitual elegância de Law, sempre evidenciando grande presença em cena.

A ação moderna adotada nas cenas de batalha pode não funcionar para todos os espectadores, muitas vezes inspiradas claramente em vídeo games (há muito de Dark Souls, principalmente ao confronto final), o que pode soar destoado para quem busca cenas de ação cruas e sangrentas, mais habituais para temática. Como disse antes, não há timidez na megalomania de A Lenda da Espada, e por isso, a maioria dos combates se encontram ao tom ditado desde a proposta inicial de Ritchie, por mais que certos momentos visuais não atinjam a satisfação. Conjunto a isso, a trilha sonora empolgante de Daniel Pemberton (O Agente da U.N.C.L.E.) eleva a atmosfera ao épico, apostando em orquestras de marcha ao rock celta, colaborando para tornar A Lenda da Espada uma aventura marcante.

Rei Arthur: A Lenda da Espada demonstra a relevância de sua releitura ao destacar a direção estilosa de Guy Ritchie em um de seus trabalhos mais autorais. Acertando em caminhos arriscados e tropeçando em pequenos passos, há grande potencial na possível franquia começada aqui.

Divulgaí

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