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Crítica: Corra!

Corra! é um filme que utiliza bem as alegorias de sua trama, mesmo que não o faça de uma maneira muito velada ou pretensiosa.
Crítica: Corra!

Um jovem negro caminha por um bairro que parece ser de classe média alta. Checando o celular e ocasionalmente dando olhares desconfiados para o lado, o rapaz procura um endereço. Não se especifica a hora, mas é de noite e percebe-se que as ruas estão vazias. Um carro aparece e emparelha com ele paralelo à calçada. A situação causa desconforto e o jovem rapidamente adota uma postura de cautela, ainda que simulando uma falsa tranquilidade: ele percebe que talvez ali não seja o seu lugar.

Trocando a “cor” do personagem e invertendo a situação econômica do local, basicamente fica mais fácil relacionar essa introdução com a realidade. Análises antropológicas, sociais e políticas à parte, o fato é que a segunda possibilidade ecoa com muito mais familiaridade quando encontra respaldo num longo histórico de racismo nos EUA: ela é a representação que o homem branco faz de um território “hostil” a ele, onde aquele ambiente está inserido em seu subconsciente como um local perigoso, ignorando o fato de que tudo, de certa forma, é uma resposta de intrincadas raízes que remontam às ações de seus antepassados. A inversão, onde agora o negro caminha por um bairro abastado e sente medo, é a sequência inicial de Corra!, do diretor Jordan Peele, e é uma elucidação quase direta do exercício de gênero que o cineasta fará durante todo a projeção.

Produto de uma renovação da safra de terror independente dos últimos anos (ainda que distribuído pela Universal, mas feito na Blumhouse Productions), Corra! é a estreia de Jordan Peele como diretor. O comediante já era conhecido nos EUA por fazer parte do elenco de MADtv, além de ter participado de roteiros em séries de TV e no filme Keanu. Assim como em outros exemplares do gênero saídos do festival de Sundance, como A Bruxa e Corrente do Mal, esse longa de 2017 usa estrutura e certas convenções do suspense e terror para construir uma narrativa que tem mais liberdade para brincar com sua temática e estilo, mesmo de uma forma bem mais “descarada” que a dos dois exemplos citados.

Na trama, Chris (Daniel Kaluuya) é um jovem negro que é convidado para passar um final de semana na casa de campo da família de sua namorada branca, Rose (Allison Williams). No começo, mesmo com certo receio da possível recepção, já que os sogros nunca o viram antes, Chris acaba aceitando o convite e parte com a namorada rumo ao local. Mas, à medida que o tempo passa, o tratamento aparentemente caloroso dos sogros Missy e Dean (Catherine Keener e Bradley Whitford) esconde um comportamento que parece ter sido ensaiado para disfarçar intenções muito mais estranhas e misteriosas.

Não necessita muito tempo de filme para notarmos que a intenção de Peele, também roteirista do longa, não é tratar seu tema de maneira extremamente sutil ou completamente disfarçada de simbolismos. Pelo contrário, o faz objetivamente e jamais escondendo que o racismo é a discussão que permeia a narrativa desde o começo, ficando claro que o objetivo é usar situações tiradas do cotidiano e usá-las num contexto mais extrapolado com o intuito de inseri-las num enredo de gênero. A boa notícia é que o cineasta não só consegue unir a temática com a estrutura, como também mostra saber utilizar as ferramentas que tem a favor de um filme que funciona em todos os sentidos, ao menos durante quase toda sua duração.

Tendo nossa visão de espectador guiada pelo olhar subjetivo de Chris, passamos a entender toda a justificativa de sua relutância em frequentar um local que as circunstâncias o ensinaram a evitar. Sim, vivemos em 2017, mas isso não impede que um rapaz negro tema conhecer a família caucasiana de sua namorada, ainda que ela constantemente se esforce para mantê-lo despreocupado: “Eles não são racistas! Eu teria te avisado”, diz ela ao responder a expressão desconfiada de Chris. Convencendo o rapaz a prosseguir, basta a primeira tarde na casa dos sogros para que ele lance um “eu te avisei...” a ela. Não que os anfitriões tenham recusado o novo namorado da filha. Do contrário, ele é tratado com a melhor das recepções que poderia imaginar... isso pelo menos é o que transparece nos primeiros momentos, já que ele se vê constantemente em situações onde está claramente sendo tratado com certa condescendência, mesmo que inicialmente as intenções pareçam nobres. Sendo assim, o sogro faz questão de dizer que votaria em Obama pela terceira vez se fosse possível ao mesmo tempo que tenta reconhecer a ironia de só ter empregados negros na casa. Em outro momento, Chris é constantemente alvo de olhares curiosos e comentários repletos de uma tentativa forçada de naturalidade, quando na verdade são um retrato de um racismo que se caracteriza pela sua aparente inexistência; de fato, é esse o que mais corrói lentamente, já que sempre tenta encontrar um disfarce na falsa isenção. 

Mas realmente a grande qualidade do filme é utilizar essas situações como motivos narrativos para inserir o espectador num clima de suspense. Ao invés de se valer de uma trama tradicional e de ferramentas já batidas para o gênero, Peele utiliza a bizarrice do que vai ocorrendo com o protagonista para causar um incômodo no espectador, que é levado a encarar a sensação crescente de desconfiança em forma de um filme de terror (algo que me lembrou bastante de Eles Vivem, de John Carpenter). Por esse motivo, a estrutura de Corra! vai gradativamente transformando as aparentes boas intenções dos personagens em uma série de situações desconfortáveis, que vão de um humor meio involuntário (aquele em que rimos de nervoso) até chegar ao ponto onde a trama assume seu verdadeiro formato: uma eficiente mistura de terror com toques satíricos.

A construção de tensão, portanto, é feita com bastante segurança. Não só o diretor mostra saber como tratar bem o material que tem em mãos, como também se sai bem em estabelecer uma atmosfera de conspiração que se mostra certeira em brincar com nossas expectativas frente à crescente estranheza de seus personagens. Sem apelar para sustos fáceis ou efeitos grandiosos, o cineasta usa sua inventividade na câmera e na composição para criar um clima de angustia que vai tomando conta do filme. Sem negar suas raízes, o diretor também tem boa noção de tom e consegue aliar o suspense e aquele humor incômodo já citado com outro de caráter mais crítico que alivia um pouco quando é necessário – o que acontece na figura de Rod (Lil Rel Howery), o alívio cômico que funciona surpreendentemente bem, principalmente por fazer rir sem deixar de comentar sobre a temática do filme (como acontece numa sequência que se passa numa delegacia).

É importante entender que certos caminhos tomados pelo enredo vão parecer bastante exagerados, ou até beirando a breguice, se deixarmos de enxergá-los como recursos metafóricos para que o diretor aborde várias faces de seu tema (incluindo, principalmente, certos acontecimentos no 3º ato). Assim como fez outro filme recente, Colossal, as situações envolvendo os crescentes absurdos da trama são maneiras visuais de se estabelecer reflexões as quais o autor pretendia. Se no filme de Nacho Vigalondo isso é feito através de um “filme de monstro”, aqui Peele se vale de um suspense/terror para relacionar o arco do protagonista com uma visão que pede um mínimo de nossa empatia.

Corra! é um filme que utiliza bem as alegorias de sua trama, mesmo que não o faça de uma maneira muito velada ou pretensiosa. Talvez esse seja um fator que acabe o tornando um pouco previsível, o que pode atrapalhar para aqueles que esperam as surpresas que o gênero costuma prometer. Ainda assim, é um filme que funciona muito bem como um exercício de convenções narrativas tão saturadas pelo cinema americano. Por isso, tanto merece reconhecimento pelo seu grau de originalidade, quanto figurar nessa nova leva revigorante do gênero.   

Divulgaí

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