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Crítica: Antes Que Eu Vá

No fim das contas, Antes Que Eu Vá é um filme inconstante que, embora apresente bons momentos envolvendo os dilemas da protagonista e uma ótima atuação central, não foge das caracterizações de lugar comum
Crítica: Antes Que Eu Vá

Talvez poucas premissas sejam tão eficientes em resultar num conto de moral quanto as que se baseiam em loopings temporais. Essas histórias geralmente são usadas para servir de reabilitação para personagens que necessitam percorrer atos bem definidos a fim de alcançar a redenção. Uma das mais emblemáticas é aquela contada em Feitiço do Tempo, em que o personagem de Bill Murray fica preso numa repetição infinita de um mesmo dia, sendo obrigado a confrontar dilemas que o forçam a crescer como pessoa enquanto aprende lições valiosas sobre a finitude de nosso tempo em vida (ok, mesmo que isso tudo seja porque está tentando conquistar uma mulher). Chegando aos cinemas essa semana, Antes Que Eu Vá é basicamente uma releitura, com uma estrutura bastante semelhante ao do longa de 1993, só que aplicado ao mundo highschool americano.

Adaptado do romance young adult de Lauren Oliver, o filme conta a história de Samantha Kingston (Zoey Deutch), uma jovem estudante que faz parte do grupinho popular de amigas no colegial e parece levar uma vida perfeita. Certo dia, ao sofrer um acidente de carro, é inexplicavelmente levada a recomeçar o dia anterior e obrigada revivê-lo constantemente, agora com tempo de sobra para refletir sobre aspectos de sua vida para os quais jamais tinha dado importância. 

O começo não é lá dos muito promissores. O ambiente escolar de Samantha não é mais que aquele já visto centenas de vezes em longas similares do público alvo, repleto de personagens que obedecem exatamente à cartilha que vem sendo utilizada e reutilizada desde a década de 70 no cinema: o rapaz popular, Rob (Kian Lawley), namorado da protagonista e seu primeiro pretendente à “primeira vez”; as amigas, lideradas por Lindsey (Halston Sage), que faz as vezes da patricinha com ar de superioridade; e os estudantes outsiders que aqui vão servir de recurso auxiliar para o arco da protagonista.

Falando em arco principal, sua condução pela diretora Ry Russo-Young oscila entre bons momentos, quando mostra surpreendente sensibilidade ao lidar com a maneira de Samantha reagir quando é obrigada a questionar seu estilo de vida, e outros que beiram à exposta autoajuda, principalmente ao recorrer a “testes” de moral que soam artificiais, ainda mais quando recaem sobre personagens unidimensionais. Dessa maneira, é frustrante que as roteiristas Maria Maggenti e Gina Prince-Bythewood insistam em usar Juliet Sykes (Elena Kampouris), a “esquisita” da escola (aliás, a partir de uma péssima caracterização que figura junto aos piores estereótipos do gênero), como um mero artifício para que Samantha repense sua amizade com Lindsey, sem falar que a esta também é dado um passado compartilhado com Juliet que soa pouco convincente desde o início. Pior ainda é que as atitudes atribuídas a essa personagem caem num terreno desrespeitoso, já que os problemas graves vividos por ela são simplificados demais a fim de servirem como meros elementos de motivação para a protagonista.

E falando em simplificações, boa parte de entendermos as ações de Samantha acaba dependendo da maneira como enxergamos sua relação com suas amigas. Não há muito o que dizer sobre Ally (Cynthy Wu) e Elody (Medalion Rahimi): personagens que não recebem praticamente qualquer tipo de desenvolvimento. Agora, no caso de Lindsey é que se sente mais o peso problemático do roteiro, já que certos acontecimentos de seu passado são grande parte da origem das motivações que justificarão as ações de Samantha na resolução da trama. O problema é que tudo isso é pincelado durante alguns diálogos expositivos e nunca dá tempo para que o espectador sinta qualquer conexão com Lindsey, o que prejudica consideravelmente nossa tentativa de criar empatia – e ainda há o fato de que as roteiristas parecem não fazer muito questão de conferir a ela uma transformação similar à de Samantha, o que nos faz desistir de criar qualquer simpatia pela amiga. 

Mas o longa de Young também apresenta seus bons momentos e estes estão sempre ligados à lampejos de sensibilidade da cineasta e à atuação incrivelmente segura de Zoey Deutch. Sempre procurando impedir que Samantha soe artificial, a atriz é inteligente ao conferir um olhar de constante compreensão que difere daqueles vistos pelas caricaturas que habitam o filme. Mesmo que seu arco tenha de estabelecer uma diferença evidente de como começou e terminou na história, a atriz nunca vai somente aos extremos. Seria muito mais cômodo, do ponto vista de roteiro, trabalhar com uma visão binária de Samantha, já que assim se tornaria mais evidente a diferença entre seus dois estados, mas Deutch mostra uma segurança admirável em mostrar, através de olhares e expressões, que Samantha já detinha qualidades que estavam impressas em sua personalidade desde o começo, tonando seu crescimento como personagem mais orgânico.

Por isso fica interessante notar como a personagem transita entre alguns momentos de egocentrismo e outros de pura sensibilidade, como ocorre na subtrama envolvendo seu amigo de infância Kent (Logan Miller). Ao contrário do que acontece quando o filme lida de maneira problemática com o núcleo envolvendo Lindsey e Juliet, a cineasta mostra segurança quando acerta o tom na química entre Miler e Deutch. São nesses momentos que o filme ganha um olhar mais caloroso de nossa parte: quando a relação dos dois personagens tem alguma substância e consegue render instantes emotivos em meio a uma narrativa por vezes insípida.  

No fim das contas, Antes Que Eu Vá é um filme inconstante que, embora apresente bons momentos envolvendo os dilemas da protagonista e uma ótima atuação central, não foge das caracterizações de lugar comum. O resultado é um filme razoável e a história vista aqui não consegue escapar muito dos clichês, sendo apenas encorpada num contexto mais jovem. Como espécie de introdução do público alvo para uma versão Feitiço do Tempo teen, digamos que ele é correto, mas, a não ser que você faça parte da faixa etária leitora das outras dezenas de adaptações de romances juvenis, é provável que esta apenas passe distante do pódio onde repousam obras melhores sob a mesma premissa.

Divulgaí

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