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Crítica: Alien - Covenant

Há energia nas sequencias mais dinâmicas, mas elas não são fortes o suficiente para deixar o espectador tenso na cadeira, com exceção, talvez, do 3º ato, quando o filme ensaia se parecer mais com o clássico.
Crítica: Alien - Covenant

Lembro-me da sensação que tive quando terminei de assistir a Prometheus, em 2012: “Hum, aparentemente esse filme não quis se embrenhar na franquia Alien e decidiu explorar outros caminhos... se bem que Scott não resistiu e acabou o ligando aos seus antecessores na cena final... talvez ele junte as duas coisas então”

Esse foi um pensamento que acabou fazendo sentido com o passar do tempo, principalmente porque ele passou a representar a realização de que eu não precisava necessariamente esperar sempre o mesmo filme sobre o alienígena. E foi assim mesmo que Prometheus, e agora Alien: Covenant, seguiu com seus próprios passos sem precisar apoiar nossas expectativas no que já vimos antes em outros filmes. Embora o longa de 2012 tenha problemas, principalmente na maioria de seus personagens unidimensionais – e inclua aí parte da tripulação esquecível da nave e a vilã de novela interpretada por Charlize Theron, junto com uma discussão de ideias que se propõe grandiosa, mas acaba só riscando a superfície em meio a um enredo problemático – é de se reconhecer que, por mais que o resultado tenha divido opiniões, fez bem a Scott simplesmente não repetir o que quatro outros filmes já tinham feito, quando uma das criaturas mais famosas do cinema era o ponto central daqueles filmes iniciados na obra-prima de 1979 e encerrados no lamentável Alien: a Ressurreição. (Por favor, não é necessário sequer mencionar os crossovers com o Predador).

Não que mudança no estilo seja uma coisa nova para o nosso icônico Xenomorfo. Apesar de sua configuração sempre ter soado como terror, James Cameron conseguiu inseri-la perfeitamente no contexto de um filme de ação com seu Aliens: O Resgate (aliás, um excelente exemplar do gênero que ainda perdura como um dos melhores da década de 80). Portanto, não há problema em deslocar o vilão para ouras abordagens. Agora em Alien: Covenant, Scott uniu partes das ideias apresentadas em Prometheus com o clima mais urgente e angustiante da franquia original. De fato, ele se sai melhor que seu antecessor ao abrir espaço para desenvolver alguns temas de maneira um pouco mais objetiva e clara. O problema é que apesar de conter uma trama promissora, o recheio ainda soa genérico e cinematograficamente decepcionante, principalmente levando em conta seu cineasta e sua experiência com o material. 

O novo longa se passa 10 anos depois dos acontecimentos de Prometheus, quando a tripulação da nave Covenant está a caminho do planeta Origae-6 numa missão de colonização. Depois de um acidente ocorrido com a nave, o androide Walter (Michel Fassbender) é obrigado a acordar a tripulação, agora chefiada por Oram (Billy Crudup), composta, dentre outros, por Daniels (Katherine Waterson), Tennessee (Danny McBride), Karine (Carmen Ejogo) e Lope (Demian Bichir). O acontecimento faz com que a Covenant capte uma transmissão vinda de um planeta próximo, fazendo com que Oram decida organizar uma expedição de reconhecimento pelo planeta, o qual acaba se mostrando misterioso e, principalmente, perigoso.

Se há uma coisa que não se pode negar em relação a esse filme é que ele não se propôs a depender exclusivamente de seu vilão. A pauta sobre a relação de criador e criação permite que não seja obrigatório que a maior parte da narrativa de Covenant tenha de girar em torno de pessoas correndo de um predador perfeito. É nesse caminho que se encontram os bons momentos do filme, quando, novamente, os dilemas do androide David, e agora também Walter, dão substância ao enredo e são responsáveis manter vivo o fio condutor idealizado em Prometheus. Se naquele, a pretensão de discutir a origem da vida se tornou grande demais para a narrativa, em Covenant, o foco é apontado diretamente para a trama dos androides, fazendo com esta se torne mais objetiva.

Mas é preciso calma. Dizer que a premissa envolvendo o desenvolvimento de David continua sendo um importante aditivo para a série não faz com que seu tratamento seja digno de uma grande ficção científica. Já vimos isso bastante – e melhor – em outros filmes (incluindo do próprio Ridley Scott e um certo caçador de androides). Há uma discussão razoável em Covenant, mas, ainda assim, não é o suficiente para transformá-lo em um filme que se possa chamar de “profundo”. Na verdade, é mais justo dizer que grande parte do nosso envolvimento com a trama se deve mais uma vez pela excelente performance de Michael Fassbender. O ator é extremamente hábil em despertar nosso imediato interesse por David e Walter: dois personagens que compartilham a mesma natureza, embora tenham personalidades bastantes distintas, todas perfeitamente diferenciadas pelo talento de Fassbender. E se há algum envolvimento emocional, ele se deve ao androide e à sua transformação num personagem mais complexo que os humanos. É nele que a reflexão sobre o papel questionador da criação sobre o criador – com a adição do alienígena, dessa vez - ganha força.

Em se tratando do elenco, é preciso ressaltar que, embora essa tripulação apresente mais carisma que a de Prometheus, é decepcionante notar que o roteiro de John Logan e Dante Harper ainda cometa erros similares aos vistos no longa anterior. Para justificar a necessidade da trama em contextualizar os personagens no ambiente requerido pela ação, alguns dos tripulantes parecem tomar decisões que obedecem menos à lógica proposta por suas caracterizações e mais pela necessidade imediata da trama. Portanto, mesmo que Oram, por exemplo, decida explorar o planeta misterioso para provar sua capacidade perante os companheiros, pouco justifica que um personagem desse porte colocaria em risco uma missão extensamente planejada durante anos e, ainda por cima, ameaçando a integridade de milhares de colonos apenas para “provar sua fé” na humanidade. E nem é possível dizer que é algo pontual, já que o mesmo personagem toma ainda atitudes mais incoerentes para que o filme decida referenciar (novamente) o clássico original. Do pouco que se consegue imprimir de carisma nos personagens, a pressa da narrativa acaba os privando de despertar simpatia suficiente para que realmente nos importemos com eles. Talvez a exceção seja Katherine Waterson, que consegue dar a Daniels um ar simpático e humano e, mesmo que esteja longe da fazer as vezes de Ripley, é possível enxergar um esforço da atriz em não deixar que o arco de David e Walter tome completamente a narrativa.

À parte da trama envolvendo esses personagens, sobra o que foi prometido largamente na divulgação de Covenant: a volta às origens cinematográficas da franquia. O que significa dizer que o filme prometeu trazer de volta o aspecto de horror característico dos primeiros exemplares da série. Embora a intenção de Scott realmente não seja transformar a nova empreitada somente num filme de perseguição de monstros, a criatura teve tempo suficiente na cultura pop ao longo dos anos para se tornar icônica e despertar um maior grau de exigência do espectador. Apesar de alguns híbridos já terem aparecido no filme anterior, é inegável que sua forma clássica era aquela que todos estavam esperando para ver. Por isso é decepcionante constatar que a sensação é mesmo a de uma leve frustração.

O diretor até acerta em transformar a volta do Xenomorfo em algo que soe, no mínimo, uma homenagem ao clássico de 1979. O problema é que aqui acaba acontecendo tudo rápido demais. Não há tempo para criar uma atmosfera que desperte sequer parte da angústia e sensação de terror vista no filme original. Assim, mesmo que a direção de fotografia de Dariusz Wolski tenha êxito em reproduzir um ambiente ameaçador com um bom uso de sombras e espaços escondidos, quando as coisas complicam para os personagens, ao invés de prevalecer o suspense, ficam somente sequências de perseguição e um quê a mais de violência, que acabam caindo no convencional. Fora que a equipe de Scott parece ter se esquecido do poder ameaçador do Xenomorfo ao transformá-lo num “ninja” de CGI que acaba perdendo parte do charme de predador frio e calculista que era tão característico dos primeiros exemplares da franquia.

Em relação a Ridley Scott? Bom, seu nome invariavelmente traz expectativas. Não há nada em Covenant que faça com que sua direção seja ruim, mas também não há nada aqui que o diferencie do comum. A impressão que fica é que o filme está longe de figurar numa seleta lista de diretores visionários que seriam capazes de dirigi-lo. Há energia nas sequencias mais dinâmicas, mas elas não são fortes o suficiente para deixar o espectador tenso na cadeira, com exceção, talvez, do 3º ato, quando o filme ensaia se parecer mais com o clássico. Fora isso, ainda há o fato de que o enredo é bastante previsível – e aqui destaco, sem dar spoilers, algumas reviravoltas ocorridas no terceiro ato que são completamente telegrafadas devido a uma condução óbvia de Scott e a uma montagem não muito instigante.

No fim das contas, o cineasta parece ainda estar descobrindo para onde quer levar sua nova série de filmes (há mais programados para sair futuramente). Seu aparente objetivo de não ancorar a continuidade da franquia apenas no terror espacial é louvável, mas sua execução está caindo num lugar comum: uma série de sci-fi com grandes pretensões, mas com uma encorpada sempre genérica. Não adianta, o cineasta que entregou aos cinéfilos o primeiro filme da série, além de outras obras icônicas do cinema, sempre trará a responsabilidade de nos surpreender. Mesmo correndo o risco de parecer paradoxal, nem acho justo dizer que a culpa é exclusivamente de nossas expectativas, já que Alien: Covenant poderia ter surgido de qualquer outro diretor, e não necessariamente de um grande nome como Ridley Scott.

Divulgaí

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