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Crítica - Guardiões da Galáxia Vol. 2

Guardiões da Galáxia Vol. 2 revigora sua força e destaca novamente sua personalidade no universo cinematográfico da Marvel, ainda que não se torne tão memorável quanto o primeiro longa.
Crítica - Guardiões da Galáxia Vol. 2

Com um impremeditado sucesso arrebatador em 2014, James Gunn entregou o trabalho mais autoral da Marvel Studios agradando de forma unânime seus espectadores. Com isso, havia em seus ombros a responsabilidade de contar um novo capítulo da recém-descoberta equipe de heróis mantendo o mesmo nível ou, como esperado por muitos, superando seu antecessor (este que, de fato, não ocorre). A escolha por manter Gunn na direção é incontestavelmente sábia, retomando suas peças como ingredientes para repetir o sucesso de 2014, alcançando o objetivo de manter a marca deixada antes. Pois Gunn consegue, mais uma vez. Guardiões da Galáxia Vol. 2 pode não ser superior ao primeiro, mas mantém os principais fatores responsáveis por encantar o público há 3 anos, ainda que tenha sucesso em se destacar de forma independente sem se tornar repetitivo, uma armadilha comum em sequências.

Desta vez, a atrapalhada equipe liderada por Peter Quill (Chris Pratt) já está estabelecida como um grupo de possíveis mercenários da galáxia e precisam lutar para manter sua família unida. Em paralelo, segredos e mistérios são construídos em torno da verdadeira paternidade do Senhor das Estrelas.

Assim como no primeiro filme, o Vol. 2 se inicia com uma longa viagem ao passado de Peter Quill, desta vez apresentando 1980 com um belíssimo trabalho de maquiagem digital para rejuvenescer Kurt Russel - já revelado de antemão como intérprete do pai biológico de Peter. Note como assim como utilizado com Michael Douglas em Homem-Formiga, encontramos um verdadeiro Kurt Russel jovem, exatamente como visto em Os Aventureiros do Bairro Proibido (1986), e não um simples efeito de remoção de rugas. Tal tratamento serve tanto como uma agradável viagem no tempo para quem acompanhou a carreira de Russel, quanto para o deslumbramento de um trabalho tão bem feito a ponto de não desviar a atenção de forma prejudicial, algo comum em efeitos superficiais de rejuvenescimento de atores.

A maquiagem, aliás, é um reflexo da liberdade criativa do design de produção, exercendo a função de dar vida e formas peculiares para as diversas raças alienígenas apresentadas (e reapresentadas) na expansão do universo intergaláctico proposta por Gunn. Este, na verdade, é mais um ponto que chama a atenção em Vol. 2: a vasta densidade daquele universo se torna ainda mais ampla, dando profundidade e vida para algo ainda pouco visto na Marvel dos cinemas, exercendo a função de concretizar a crença na vida extraterrestre. Para resumir, é importante que Gunn exercite a criatividade dos espectadores fazendo com que acreditem em seu mundo. Para isso, tanto a maquiagem quanto o trabalho de cenografia são extremamente cuidadosos e bem-sucedidos ao associar o design criativo de criaturas com uma certa familiaridade com nossas culturas e paisagens. A expansão, por fim, se conclui com a inclusão de novos personagens com novas possibilidades de exploração para o futuro da franquia, como o caso da intrigante e breve participação de Stallone e a importância de uma das 5 cenas pós-créditos.

Mas não espere grandes conexões com outros filmes do universo cinematográfico da Marvel. Guardiões da Galáxia Vol. 2 se relaciona apenas com seu antecessor, ainda que de forma sóbria e satisfatória. Se muitos dos filmes do estúdio tendem ao risco de soar episódicos por se prenderem a tais conexões com o resto das outras obras, Vol. 2 se beneficia por sua independência ao se preocupar em contar uma história fechada. Aliás, não era de se esperar algo diferente, pois Vol. 1 sempre funcionou como o filme mais independente da Marvel.

Agora com uma equipe estabelecida e, de certo modo, familiar (tanto como personagens quanto elenco), Gunn se preocupa em realçar o conforto de seus atores em seus papéis enquanto estuda e desenvolve seus personagens abrindo espaço para crescimentos independentes, distribuindo tramas pessoais e íntimas para as figuras centrais da história. Enquanto a Gamora de Saldana tem seu relacionamento familiar bem explorado com um adequado equilíbrio entre profundidade e humor (aqui muito bem representado pela arrogância cativante de Gillan como Nebulosa), Rooker se diverte e brinda com seu incontestável talento no papel de Yondu, um padrasto que revela camadas complexas e adoráveis para o arco dramático de Vol. 2. Pratt, por outro lado, não alcança o mesmo êxito dramático exigido por sua trama, tendo como seu maior revés a revelação antecipada de Russel no papel de pai biológico de Peter Quill, precipitadamente apresentado em um dos trailers de divulgação (sem contar o anúncio oficial da escalação de Russel durante um evento). Boa parte do desenvolvimento da trama familiar de Quill se torna previsível e, até mesmo, monótona, sendo salva por uma montagem que alternava entre o momento e ótimas cenas lideradas por Rocket, Groot (Diesel) e Yondu. Deveríamos estar mais interessados nos mistérios

envolvendo a descoberta da paternidade de um planeta (Ego) do que na cômica fuga do trio, mas somos pegos absolutamente mais cativados pela doçura de Groot do que pelo desenvolvimento do personagem de Pratt. Mas se por um lado a “revelação” pouco funciona como impacto narrativo, por outro, Gunn volta a captar as atenções ao estabelecer um novo mistério iminente em torno da descendência de Peter Quill.

Mas estes poucos deslizes não se tornam suficientes para incapacitar a sequência de extrair o entusiasmo proposto por Gunn e sua equipe. Se Vol. 2 não alcança com precisão seus objetivos dramáticos ao tentar desenvolver o lado emotivo de seus personagens – algumas vezes flertando com o risco de soar superficial -, o filme exibe um espetáculo visual estabelecido pelos grandiosos efeitos especiais mesclados com a atmosfera habitual da ficção científica, fotografada por um belo trabalho de Henry Braham, tornando a ambientação ainda mais orgânica e estonteante do que obras anteriores como Thor: O Mundo Sombrio e até mesmo o primeiro filme dos guardiões.

Outro importante foco de Vol. 2 reside na comédia de assinatura de James Gunn, com piadas descaradas e tradicionais, beirando o absurdo (no melhor sentido) em cada momento das mais de 2 horas de projeção, ainda que nem todas as tiradas consigam extrair o mesmo entusiasmo planejado (note como a ótima piada com David Hasselhoff é construída ao longo do filme, mas acaba sendo usada mais uma vez além do suficiente), há grandes momentos cômicos a serem lembrados novamente. Ainda assim, Vol. 2 se baseia em um clima brevemente mais sério que o filme de 2014, justamente por explorar dramas mais íntimos de seus personagens. Mas se há um belo momento para se destacar na seriedade, é o desfecho do relacionamento entre Peter Quill e Yondu.

Ainda muito presente no segundo filme, a trilha sonora repleta de clássicos do rock (de My Sweet Lord, de George Harrison, à cativante Surrender, de Cheap Trick) se mantém viva na construção de cenas e atmosferas que tornam cada música essencial para cada momento. Executada muitas vezes de forma diegética com a função de contracenar com o elenco em instantes apropriados ou em função de estabelecer impactos singulares de narrativa, como dar ênfase a cenas de ação – a primeira batalha é um grande exemplo de como a transição do formato funciona bem, utilizando um pretexto para a execução de música durante uma cena de ação.

Ainda que Vol. 2 se encontre em tropeços não tão relevantes ao longo de sua jornada, a sensação conclusiva é vigorosamente satisfatória e se sai bem ao provocar o entusiasmo aguardado por grande parte de seu público. Tendo como maior trunfo o carisma incontestável de suas figuras centrais (Groot, novamente roubando as atenções, ainda que sabendo se destacar de como fez em 2014), Guardiões da Galáxia Vol. 2 revigora sua força e destaca novamente sua personalidade no universo cinematográfico da Marvel, ainda que não se torne tão memorável quanto o primeiro longa.


Divulgaí

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