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Trama Alternativa: Irmã

Para quem é fã de filmes indies ou quer variar um pouco das típicas produções hollywoodianas, Irmã é uma boa pedida.

“Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”, já escreveu o saudoso Renato Russo como um dos versos da canção “Quase sem querer” da Legião Urbana. Da mesma forma, podemos dizer que fugir de situações que talvez ponham em xeque a sua identidade e a atual certeza das suas escolhas não é a melhor maneira de agir, apesar de ser bem mais fácil. Essa é a ideia motriz do filme Irmã.

O longa traz a história de Colleen (Addison Timlin), uma jovem freira em preparação para prestar os seus votos de eterna devoção (“viver uma vida de pobreza, castidade e obediência”) que recebe de sua mãe um e-mail informando que o irmão, Jacob (Keith Poulson), que havia sido internado ao sobreviver à explosão de uma bomba que desfigurou o seu rosto enquanto servia como soldado na guerra do Iraque, obteve alta e já está em casa. Bastante apegada ao irmão, Colleen pede alguns dias à madre superiora e retorna à sua antiga casa, na Carolina do Norte, deparando-se com a realidade que havia deixado para trás ao vocacionar-se à vida de beata.

O retorno ao lar funciona como ponte de contato com lembranças submersas pela rotina religiosa: sua adolescência de menina gótica, ainda sinalizada pela decoração do seu quarto; pais nada convencionais, que, por exemplo, sempre fizeram – e ainda fazem – uso frequente de drogas; o estigma de esquisita, devido ao forte uso de maquiagem, aos cabelos coloridos e às unhas pintadas de preto, o que levou à sua segregação; a sua “caretice”, pois, apesar de garota gótica, ela nunca bebeu, nunca usou outras drogas e ainda se mantém virgem; o forte apego ao irmão, desde a infância até que este precisou participar da guerra no Iraque. Com a emersão de tudo isso, Colleen passa a perceber que a realidade da qual ela buscou fugir, em vez de enfraquecer a sua fé e a convicção quanto ao seu futuro, na verdade, expõe a necessidade de encarar e lidar com seus próprios demônios.

O diretor e roteirista Zach Clark construiu uma trama extremamente paradoxal: apesar de sugestionar um drama denso, toda essa carga dramática fica no ar, dissolvida e espalhada, para que o espectador procure captá-la. Personagens com potencial para serem profundamente trabalhados são simplesmente expostos pouco além da sua superfície, o que é reforçado pela atuação um tanto blasé, sem o desenvolvimento dos personagens, dando a impressão de que é justamente essa a proposta de Clark: a partir da constante espera por mudanças e transformações, promover a linearidade, marcada por uma complexidade podada, desencadeando uma monotonia apática que pesa não só sobre os personagens, mas sobre a trama em si, tendo em vista que os vislumbres de mudanças, na verdade, colaboram para que tudo permaneça como estava.

Outros paradoxos se dão por meio das simbologias delineadas, como o sagrado versus o profano (a busca de Colleen por santidade e proximidade com Deus, em oposição à vida desregrada mantida pelos seus pais), a beleza versus a feiura (antes do acidente com a bomba na guerra do Vietnã, Jacob, o irmão da protagonista, era muito belo e cobiçado, mas depois adquiriu uma aparência monstruosa devido à desfiguração do rosto; o contraste entre a imagem de Colleen como freira e como gótica), o vazio versus a plenitude (o vazio, que manifesta um desejo de fuga, que Colleen sente em sua casa contrastando com a possibilidade de plenitude que a escolha pelo celibato preanuncia), a vida versus a morte (a vida frustrada que a mãe da jovem freira leva sendo antagônica da tentativa de morte, também frustrada; a vida com Deus que prediz a morte das próprias vontades).

Para quem é fã de filmes indies ou quer variar um pouco das típicas produções hollywoodianas, Irmã é uma boa pedida. Possui um roteiro linear que apresenta pontos de sublimação apenas sugeridos, personagens tristes e em constante busca de um sentido para suas vidas, uma bela fotografia e uma trilha sonora que merece destaque pela apurada consonância com o desenrolar da trama, regendo, literalmente, a sequência de acontecimentos de forma precisa, inclusive, entrecortada por instantes de silêncio agudamente pontuais. Fugindo de fórmulas clichês e não pendendo para a construção nem de um drama psicológico nem de uma comédia dramática, esse longa pode ser considerado uma bela surpresa.


Divulgaí

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