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Estreou Há 10 Anos: Grindhouse - Planeta Terror e À Prova da Morte

O conjunto inteiro de Grindhouse é uma maneira inteligente e inovadora (levando em conta a época atual do cinema) que homenageia e, ao mesmo tempo, segue seu estilo próprio, entregando uma experiência cinematográfica única
Estreou Há 10 Anos: Grindhouse - Planeta Terror e À Prova da Morte

Um grupo de sobreviventes, liderados por uma "go-go dancer" com uma arma no lugar de sua perna, tenta sobreviver a um apocalipse zumbi e a inesperados ataques do governo. Um dublê de filmes de estrada, misógino e psicopata, persegue mulheres e planeja matá-las usando seu carro "à prova da morte". O que essas duas histórias têm em comum? Ambas saíram da parceria entre as mentes mirabolantes e nostálgicas dos diretores e roteiristas, Quentin Tarantino e Robert Rodríguez, há dez anos atrás como grandes homenagens ao "double feature exploitation" dos anos 60 e 70 - quando dois filmes B, de orçamentos baixíssimos, eram apresentados como uma só sessão nos cinemas Grindhouse, ou seja, quem ia assistir pagava apenas um ingresso para assistir a "dobradinha" de filmes cheios de sangue, violência, nudez e muita história apelativa.

Seguindo o modelo original, os dois Filmes B devem ser entrecortados com trailers de outros filmes do gênero exploitation, além de ter pequenas pausas para breves intervalos. Esse lançamento ao melhor estilo grindhouse de Planeta Terror e À Prova da Morte, apesar de ser uma homenagem inventiva e fora dos parâmetros da indústria cinematográfica atual, não teve uma boa recepção nas bilheterias, devido (principalmente) à sua extensa duração de três horas. E claro, por abordar um gênero não tão cobiçado assim no meio atual. Os cinco trailers falsos, de filmes a princípio imaginários, que foram utilizados no formato grindhouse contaram com a ajuda de mais quatro diretores para serem gravados - Rob Zombie, Edgar Wright, Eli Roth e Jason Eisener. Curiosamente, dentre os cinco trailers, três acabaram rendendo em filmes reais: Machete (2010) e Machete Mata (2013) de Robert Rodríguez; e O Mendigo Com uma Escopeta (2011) de Jason Eisener.

Sendo o primeiro na ordem dos dois filmes, Planeta Terror recaptura a atmosfera perfeita dos filmes de terror dos anos 80 - a década de ouro para esse gênero. Com ares inspirados em clássicos como A Volta dos Mortos Vivos e A Noite do Cometa, o longa-metragem dirigido por Robert Rodríguez (Sin City e Um Drink no Inferno) cultiva as principais características do gênero trash. Muito sangue, violência e uma excelente maquiagem que entrega os aspectos mais nojentos que se pode imaginar - no melhor sentido possível.

A história de Planeta Terror, com seus personagens marcantes e bem característicos, busca intensificar os exageros do enredo e adiciona um excelente toque de humor negro ao roteiro, passando muito longe do clichê e mantendo um clima nostálgico. Com excelentes reviravoltas, sua narrativa é imprevisível e divertida. Sua fotografia, realizada pelo próprio Robert Rodríguez, é outra característica forte que auxilia na grande reconstrução dos gêneros homenageados. Realçando todas as cores na tela (principalmente os tons primários) e prezando um aspecto escuro e visualmente “sujo”. Além de adicionar intencionalmente aqueles pequenos "erros" e traços escuros que ficavam na tela nos filmes antigos, devido às edições manuais nos rolos de filme.

Os movimentos rápidos e closes repentinos configuram na ótima cinematografia do filme - com particularidades bem puxadas para o cinema dos anos 80. A edição e a montagem também estão à moda antiga, seguindo a direção tomada pelas principais características dos estilos exploitation e trash, com cortes bruscos e "erros" propositais - como a cena romântica entre Cherry Darling (Rose McGowan) e El Wray (Freddy Rodríguez), quando o filme “queima” abruptamente.

Ao todo, as qualidades técnicas do longa-metragem e sua história - que conta com um elenco de peso e uma breve participação especial de Tarantino - conseguem com sucesso resgatar o estilo antigo e ao mesmo tempo, criar algo novo. Com um estilo próprio de Robert Rodríguez e sua inspiração em gêneros não tão cobiçados no mundo cinematográfico, Planeta Terror é um dos melhores filmes de terror trash das últimas décadas. E um dos mais insanos. Uma das cenas mais interessantes do filme, é a fuga do grupo de sobreviventes do posto de gasolina no segundo ato – uma breve referência a um clássico. É a mesma de A Volta dos Mortos Vivos, mas no filme de George A. Romero não funciona. Já em Planeta Terror, funciona.

Uma pequena curiosidade para aqueles fãs mais detalhistas: há um pequeno easter egg que conecta Planeta Terror ao longa de Tarantino. No momento em que Cherry Darling e El Wray estão no carro indo em direção ao The Bone Shack, a estação de rádio de Jungle Julia (personagem de À Prova da Morte) pode ser escutada em uma frequência instável. Mas se as duas histórias se passam no mesmo “universo” e em um breve intervalo de tempo é apenas uma teoria.



O segundo e último filme, À Prova da Morte - visto como o filme mais fraco de Quentin Tarantino (Pulp Fiction e Kill Bill) por muitos de seus fãs - visa as mesmas características do longa-metragem de Robert Rodríguez, mas sem cair no excesso de exageros (algo clássico de ser feito no gênero trash). Seus toques tarantinescos acabam se sobressaindo mais e o filme tenta trilhar um caminho paralelo, mas ao mesmo tempo, diferente e autônomo. Recheado de referências a outros filmes, como de praxe do modus operandi cinematográfico de Quentin, À Prova da Morte se inspira principalmente em clássicos road movies como Corrida Contra o Destino e Fuga Alucinada. Além de beber um pouco da fonte de Faster Pussycat! Kill! Kill! nos quesitos de violência e até mesmo girl power.

Tendo uma narrativa linear que alterna entre o grupo de personagens femininas principais e o dublê com o carro "à prova da morte", o segundo longa-metragem de Grindhouse é bem dirigido por Tarantino, ao estilo do cineasta. Com uma pegada mais lenta que Planeta Terror, foca-se muito nos diálogos entre os personagens e quando chega ao seu clímax, violência e sangue não são poupados. A fotografia, também do diretor, intensifica as cores dando prioridade às cores voltadas para o vermelho - além de também ter os mesmos "errinhos" e traços escuros que o Planeta Terror, para dar um ar mais exploitation. Sua cinematografia segue mais característica do diretor e não explora as mesmas particularidades que o "filme B" de Rodríguez, mantendo-se em movimentos de câmera menos frenéticos.

Com uma trilha sonora poderosa e cenas chocantes (como a do primeiro "acidente"), Tarantino traz novamente os ares antigos de clássicos do cinema underground, com diálogos simples e muito humor. Como de fetiche, entrega personagens significativos, como Jungle Julia (Sydney Tamiia Poitier), Abernathy (Rosario Dawson), Zoe (Zöe Bell) e o dublê Mike (Kurt Russell). À Prova da Morte é a perfeita personificação de um conjunto de filmes dos gêneros exploitation e underground, com as características mais tarantinescas possíveis. Um filme imperdível.

O conjunto inteiro de Grindhouse é uma maneira inteligente e inovadora (levando em conta a época atual do cinema) que homenageia e, ao mesmo tempo, segue seu estilo próprio, entregando uma experiência cinematográfica única. Pena que não temos um cinema grindhouse logo em nossa esquina, para ver algo tão brilhante assim pelo preço de apenas um ingresso.


Divulgaí

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