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Estreou Há 10 Anos: O Cheiro do Ralo

Estreou Há 10 Anos: O Cheiro do Ralo

Um ralo, o seu cheiro e uma bunda. Essas são as obsessões e preocupações de Lourenço, protagonista de O Cheiro do Ralo, produção nacional lançada em março de 2007.

Baseado no romance homônimo de Lourenço Mutarelli (que, inclusive, debuta como ator), com direção de Heitor Dhalia, o filme nos apresenta Selton Mello no papel de Lourenço, um comprador de objetos usados que mantém diariamente uma espécie de jogo com as pessoas que o procuram para lhe vender seus pertences: ele lhes dá algum dinheiro – menos do que o merecido – e recebe em troca não necessariamente os objetos, mas o prazer por tratá-los com frieza e indiferença.

Auxiliado pelos serviços da secretária (Martha Meola), que faz uma pré-triagem de quem é digno da sua atenção, e do segurança (Mutarelli), que enxota os clientes desagradáveis e insistentes, Lourenço intercala a rotina de comprar e desprezar objetos e seus donos com refeições em uma lanchonete servidas por uma funcionária que lhe chama a atenção por sua bunda e, por isso, cujo nome jamais conseguiria pronunciar. Em meio a essa rotina, ele percebe e incomoda-se cada vez mais com o cheiro que sai do ralo do banheiro, que perturba seus pensamentos por seu caráter incontrolável.

O cheiro do ralo – a princípio, uma preocupação, que, posteriormente, torna-se uma obsessão –, passa a incomodá-lo a tal ponto que ele sente necessidade de explicar a cada cliente a proveniência do cheiro. “Eu não me importo com ninguém. Eu só não quero que eles pensem que o cheiro do ralo é meu”. A intensidade do cheiro, cada vez mais forte e fétido, leva Lourenço a querer extingui-lo de qualquer maneira, chegando a cimentar o ralo para que deixe de ser problema seu.

A rotina de Lourenço é representada por planos fixos de câmera, além de ambientes com poucas pessoas e paisagens completamente vazias e inertes, nas quais transita apenas o protagonista (ou outros personagens na chegada e saída do galpão, mas sempre sozinhos). A ausência de movimento, somada às cenas representativas do percurso de ida e volta do galpão (que são iguais, porém em sentidos contrários), realçam o cansaço, a falta de novidades e a repetição produzidas por esse dia a dia. Já a realidade de estar envolto por coisas antigas é transmitida, principalmente, por meio da temperatura da fotografia em tom pastel e do figurino.

O humor ácido e crítico fica por conta de Selton Mello, que incorpora perfeitamente o personagem. Sua voz rouca, seus olhares, seus silêncios, as constantes tragadas de cigarro sinalizam a personalidade de um homem com certo poder que, por isso, trata as pessoas como objetos, coisificando-as a partir de uma relação de compra, descarte e substituição, pois seus olhos enxergam o quanto úteis, descartáveis, interessantes ou desprezíveis elas podem ser.

Na verdade, com o desenrolar da narrativa, percebe-se que ele aparenta ser tão seguro, distante e indiferente justamente por saber-se tão fraco e vulnerável quanto os outros (o ator consegue imprimir essa perturbação em sua interpretação com naturalidade). Conforme busca esconder suas próprias fraquezas para manter a imagem de homem poderoso e que detém o controle das coisas, das pessoas e das situações (o que é simbolizado pela tentativa de eliminar o cheiro desagradável ao cimentar o ralo), ele compreende que não pode viver sem aquilo que tentou extinguir, pois, na verdade, faz parte de si. Assim, chega à conclusão: “Talvez o cheiro seja meu”.

Apesar de não ter figurado no rol de produções de grande público, O Cheiro do Ralo corresponde a uma excelente produção nacional. Com uma carga metafórica e crítica forte, interpretada e transmitida por Selton Mello, que captou exatamente essa essência, esse é um filme que vale a pena ser assistido não apenas por apreciadores do cinema nacional, mas por todos quantos se interessam por obras cinematográficas de qualidade.


Divulgaí

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