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Estreou Há 10 Anos: Apenas Uma Vez

Com uma conclusão que deixa nosso coração em frangalhos assim como no emocionante Encontros e Desencontros, Apenas Uma Vez também nos traz esperança.
Estreou Há 10 Anos: Apenas Uma Vez

Imaginem se Jesse e Celine de Antes do Amanhecer fossem dois jovens humildes que tivessem a música como maior ponto em comum; e Lars Von Trier dirigisse a história dos dois com o mesmo estilo naturalista com que fez seu clássico Dançando no Escuro. No entanto, ao contrário da atmosfera depressiva do cinema de Von Trier, o filme exibisse uma aura de romantismo maduro como a vista no inesquecível As Pontes de Madison, com canções influenciadas pelo trabalho de Bob Dylan. Esse filme existe, e está completando 10 anos de estreia em março de 2017.

Apenas uma Vez foi o longa que lançou o diretor/roteirista John Carney mundialmente, que mais tarde faria os excelentes Mesmo se Nada der Certo e Sing Street: Música e Sonho. O filme acompanha uma breve passagem de vida de duas pessoas, cujos nunca descobrimos os nomes. O “rapaz” (Glen Hansard) e a “moça” (Marketa Iglova) se encontram casualmente enquanto o primeiro tentar ganhar alguns trocados tocando violão em um calçadão de Dublin. Com a oportunidade de se conhecerem melhor, eles criam um vínculo muito grande através da música, e mudam sua história de vida a partir dali.

Despido de qualquer glamour ou senso de ideal romântico hollywoodiano, Carney decide por apostar em uma estética documental e crua que evoca uma atmosfera moderna do neo-realismo italiano. Deste modo, Carney naturaliza nossa posição como testemunhas daquela amizade, investindo em longos planos com câmera na mão, além de explorar a iluminação natural dos cenários, para fidelizar o realismo daquelas figuras e, consequentemente, seus sentimentos. O fato de os personagens não falarem seus nomes não é de graça, Carney quer nos passar a impressão de que essa história é sobre pessoas comuns, que podem estar em meio a uma multidão de desconhecidos.

Aliás, o realismo do cineasta é seu maior triunfo como contador de história, já que, concordemos, não há gênero mais fantasioso que o musical. Com muita inteligência, Carney utiliza suas canções para demonstrar os sentimentos dos personagens, e até substituir seus diálogos, como simbolismos pautados no mundo real. Tomem como exemplo a cena em que o casal canta junto pela primeira vez (a belíssima Falling Slowly); em que o rápido ensaio antes da canção representa a cumplicidade que cada um sente pelo outro, além de canção funcionar como um ponto de partida para o surgimento do amor sincero entre as figuras. Além disso, o cineasta demonstra criatividade ao criar uma sequência de flashback importante para que entendamos os sentimentos do “rapaz” através de recortes de filmagens antigas de VHS enquanto ele treina uma canção em seu quarto, ao lado de uma sugestiva fotografia.

Com estas decisões artísticas, Carney não apenas consegue levar a narrativa adiante com um toque de originalidade particular, como também cria uma metáfora essencial para o filme: a música é a forma com que aquelas figuras conseguem se expressar e “expurgar seus demônios”. Notem como a cena do flashback do “rapaz” cria uma rima temática LINDA com o singelo momento em que a “moça” canta, emocionada, uma canção a respeito de seu relacionamento complicado.

Ademais, o roteiro de Carney também segue fiel ao realismo na forma como pauta as reações dos personagens de acordo com a história de vida de cada um. Se inicialmente não compreendemos totalmente a reação da “moça” a uma primeira investida, logo depois testemunhamos a realidade tocante (e factível) em que ela se encontra, dando valor a suas prioridades. E é igualmente valioso a forma como o roteiro de Carney não explora algumas situações complicadas em que os protagonistas vivem com a intenção de criar algum drama maniqueísta; o que a maioria dos diretores fariam, infelizmente. Não há como não destacar o momento em que o “rapaz” idealiza planos futuros para os dois, mas tem um choque de realidade quando a “moça” o faz apenas uma pergunta direta, e completamente lógica. Apenas Uma Vez não é o tipo de romance que traz soluções fáceis.

O próprio design de produção do filme já demonstra muito ao espectador sobre a personalidade do casal. A casa onde o “rapaz” mora é claramente humilde mas aconchegante; além de que ele não se retém ao fazer de seu pequeno quarto um reduto musical (reparem nos vários recortes relacionados aos seus ídolos na parede). Já o detalhe do violão cheio de quebraduras e descascamentos é um toque de gênio. A casa da “moça”, por outro lado, é BEM mais austera, já denunciando seu estilo de vida limitado. Porém, o local não deixa de demonstrar um calor humano e aspecto familiar através de alguns móveis mais tradicionais.

Os atores centrais demonstram uma química MUITO terna. É quase palpável o modo como um demonstra respeito pelo outro, e, acima de tudo, desejam a felicidade do parceiro. Glen Hansard (substituindo Cilian Murphy, que desistiu do papel) nos convence do talento musical de seu personagem, assim como, de sua inspiração ter sido oriunda de um fato doloroso de sua vida. Exalando paixão por música, Hansard toca nossos corações pelo modo como encara estarrecido a “moça” tocando piano pela primeira vez, utilizando nada mais que os olhos para exclamar sua admiração. E suas próprias interpretações das canções já são intensas o bastante. O momento musical em que a “moça” o assiste pela primeira vez, em especial, é de uma entrega singular.

Por falar nela, a jovem Marketa Iglova (com apenas 17 anos na época) representa o coração do filme. Com modos extremamente humildes e olhar carinhoso, Iglova encarna a “moça” de uma forma tão adorável que fica muito simples ao espectador entender o porquê de o “rapaz” se sentir tão afeiçoado por ela. Partindo nosso coração em vários momentos (“Eu tenho minhas responsabilidades!"), Iglova fornece a identidade natural daquela figura com uma doçura que nunca cai na idealização tola. Com uma segurança invejável, a atriz transita de momentos dramáticos (como aquele em que chora timidamente ao lembrar de seu relacionamento) a outros de humor (quando barganha o preço do aluguel de um estúdio de gravação).

E como deixar de citar as MARAVILHOSAS canções do filme? Fazendo parte integrante da narrativa, todas as músicas são compostas com muita delicadeza e emoção, com GRANDE destaque para o crescendo sufocante de “Falling Slowly”. Além desta, “When Your Mind‘s Made Up” e “If You Want Me” também são excelentes exemplos da emoção verdadeira que o filme nos transmite.

Com uma produção extremamente modesta (o filme custou apenas 180 mil euros), John Carney teve o auxílio de amigos e parentes durante as gravações do filme; além de ter abdicado do próprio salário para pagar outros integrantes da equipe. No entanto, o filme pode ser considerado um sucesso comercial se considerarmos o investimento, já que rendeu, só nos EUA, mais de nove milhões de dólares enquanto ficou em cartaz em poucos cinemas. Também, o filme permaneceu no Top 30 das bilheterias dos EUA por mais tempo que vários blockbusters do mesmo ano, inclusive Homem-Aranha 3 e Shrek Terceiro.

Incluído no livro “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer” de Steven Schneider, o filme venceu o “Prêmio do Público” no Festival de Sundance e ganhou o Oscar de Melhor Canção por “Falling Slowly” em 2008. Além disso, concorreu há mais de 50 prêmios mundialmente, incluindo importantes associações de críticos de cinema, como as de Londres, Los Angeles, Chicago e Dallas; e até o Grammy, por Trilha Sonora e Melhor Canção. O filme também ganhou uma adaptação de sucesso para a Broadway.

Com uma conclusão que deixa nosso coração em frangalhos assim como no emocionante Encontros e Desencontros, Apenas Uma Vez também nos traz esperança. Algumas vezes, basta testemunharmos uma pequena história de amor fraternal entre duas pessoas comuns, com problemas reais, para que tenhamos fé em uma vida mais harmoniosa. A felicidade geralmente vem de pequenos momentos banais. E John Carney entende isso como ninguém.


Divulgaí

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