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Crítica: A Vigilante do Amanhã - Ghost in the Shell

Quantas vezes você não pensou em Matrix e em O Fantasma do Futuro lá na década de 90 (supondo que você tenha a idade para isso) e quantas vezes você não foi desafiado por obras que expandiram boas ideias a partir dessas influências?
Crítica: A Vigilante do Amanhã - Ghost in the Shell

“Ghost in the Shell de 1995 foi uma grande influência para Matrix”

Você já deve ter lido essa frase algumas vezes por aí desde que a versão live-action do anime de 22 atrás foi anunciado e pretendia realizar aquela já conhecida ocidentalização de produtos que são grande sucesso nas terras orientais. Não que a animação comandada por Mamoro Oshii (conhecida como O Fantasma do Futuro aqui no Brasil) tenha ficado apenas por lá. Baseado no mangá original de Masamune Shirow, lançado em 1989, a animação japonesa traz a Major Motoko como a agente cyborg responsável por casos de terrorismo cibernético na fictícia cidade de New Port City, em 2029. Com apenas sua mente servindo como resquício de sua humanidade, Motoko Kusanagi é constituída inteiramente por partes sintéticas e, projetada para ser um supersoldado com habilidades de luta e inteligência aprimoradas, é a principal arma da Seção 9 – braço da força policial responsável por crimes cibernéticos – na caça a um poderoso hacker conhecido como Mestre dos Fantoches.

Toda obra artística acaba refletindo o período de sua concepção. Termos como “crime cibernético” e “hacker” se tornaram bastante populares na cultura pop numa época onde os computadores pessoais e a internet começavam a ser parte do cotidiano. No universo de Ghost in The Shell, a maior parte da população possui componentes artificiais no corpo e é passível de ser ligada a uma rede neural capaz de interagir entre si. Em 1999, Matrix uniu a jornada do herói de Neo a uma concepção onde a realidade aparente era uma interação causada por uma gigantesca rede ligada à consciência de todos os seres humanos. Se a trilogia das irmãs Wachowski seguiu um caminho com suas ideias próprias, em 2017 já estava na hora de reviver o produto original, ou pelo menos é o que diz a lógica de Hollywood de seguir com seus ciclos de remakes e reboots. Sempre que uma nova versão de um produto conhecido e influente acontece, a questão da inovação versus tradição entra na pauta. O quanto esta nova versão, com o título de A Vigilante do Amanhã, consegue andar com suas próprias pernas sem perder as ideias tratadas por seus antecessores?

O filme começa bem já com uma rápida apresentação da Major (Scarlett Johansson) e uma excelente sequência de ação envolvendo uma invasão a um prédio, que acaba revelando o primeiro sinal da presença de um hacker poderoso, posteriormente conhecido como Kuse (Michael Pitt). O ocorrido leva a Seção 9, chefiada por Aramaki (o grande Takeshi Kitano), a investigar os passos de Kuse, contando com as habilidades incomparáveis da Major e com a ajuda de seu parceiro Batou (Pilou Asbaek).

A energia visual impressa nessa parte inicial é uma das qualidades evidentes do longa. Unindo uma direção de arte caprichada e a excelente mistura de CGI com um ótimo trabalho de efeitos práticos, o aspecto visual de A Vigilante do Amanhã faz jus ao apuro de uma grande produção hollywoodiana e à conhecida estética cyberpunk, ainda que essa se apresente consideravelmente mais “limpa” do que aquelas mais características do subgênero.

Convenhamos que não se espera algo menos do que isso nesse aspecto, principalmente pela natureza da adaptação e pelo que já tinha sido pincelado nos trailers. E se temos a chance de apreciar o ótimo visual do filme no seu início, à medida que ele avança, a oportunidade vai ficando restrita aos planos abertos ocasionais e às sequências de ação ao ar livre, que, aliás, acontecem menos do que se espera.

Rupert Sanders (do esquecível Branca de Neve e o Caçador) conduz sua narrativa com significativa oscilação. As cenas de luta e tiroteio são bem filmadas e não sofrem da maldição da câmera tremida e da montagem excessivamente picotada. Porém, não se pode dizer que há alguma inventividade no quesito, o que vai invariavelmente causar a sensação de “já vi tanto isso antes” no restante do filme.

O que nos leva a apoiar nossa expectativa na história que o filme quer contar. Sim, é possível afirmar que não há nada de superficial no tema de A Vigilante do Amanhã, porém a forma como o roteiro, assinado por William Wheeler, escolhe trabalhar as questões existenciais da protagonista acaba se baseando muito mais na exposição do que na capacidade do espectador de ser desafiado. No decorrer da trama, enquanto a Major persegue o hacker que tem a capacidade de se utilizar de uma rede neural para invadir a mente das pessoas, ela também passa a questionar seu passado e a própria natureza de sua existência.

Quando se diz questionar, o roteiro de Wheeler não hesita em expor os pensamentos dos personagens sempre que possível. Mesmo que algumas vezes justificadas na teoria, as exposições constantes simplesmente tiram a capacidade do espectador de participar ativamente dos questionamentos e descobertas daquele universo. O resultado é que, novamente, a comparação com o longa de 1995 insiste em ficar evidente, já que nela o teor filosófico é o que acaba movendo a história, enquanto que agora o arco da “vingança” – como anunciado nos trailers – reduz a jornada da Major a uma luta que acaba se encaixando mais na tradicional cartilha hollywoodiana de heróis e antagonistas. E mesmo se encaramos o longa como tradicional, ainda sim soa genérico a um olhar mais abrangente. Ele questiona, mas sem jamais nos dar tempo para responder, já que ele mesmo o faz para nós.

A Vigilante do Amanhã não é um filme ruim. Seu valor de produção e seu visual certamente vão agradar uma parte do público. Sanders não compromete muito, mas também não consegue dar personalidade ao seu filme. Sabemos que nenhuma obra cinematográfica tem obrigação de depender de outro material para funcionar no sentido da coesão de sua própria narrativa e das próprias bases estabelecidas, mas, como dito anteriormente, toda obra é produto de um tempo e mesmo que o tema abordado seja relevante e mais atual do que nunca, é inevitável comparar a abordagem muito mais corajosa da animação de 1995 do que esta, que soa mais como um sci-fi genérico de ação.

Quantas vezes você não pensou em Matrix e em O Fantasma do Futuro lá na década de 90 (supondo que você tenha a idade para isso) e quantas vezes você não foi desafiado por obras que expandiram boas ideias a partir dessas influências? Infelizmente, mesmo que você se divirta com A Vigilante do Amanhã, temo que somente o visual fará parte dos seus pensamentos depois da sessão.



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