Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegação

Crítica: Power Rangers - O Filme

Sem deixar de criar simbólicas referências nostálgicas, Power Rangers tem sua parcela de erros, mas é eficaz no que se propõe.
Crítica: Power Rangers - O Filme

Quem está na casa dos “vinte e tantos” anos, e nos anos 90 gostava de assistir a Rede Globo antes de ir para escola, como eu, vivenciou a febre que eram os Power Rangers (originalmente, a série japonesa Super Sentai, criada por Haim Saban e Shuki Levy). O seriado de aventura que acompanhava um grupo de cinco adolescentes guerreiros que protegiam a Alameda dos Anjos de vilões bizarros, com poderes místicos, era a fantasia perfeita para a molecada da época. É verdade que a série sempre caía no tosco: as cenas de ação do seriado japonês eram costuradas a cenas filmadas com atores estadunidenses; além de que, a maquiagem, efeitos especiais e visuais eram de péssima qualidade. No entanto, a mitologia criada envolta daquelas figuras conseguia manter sempre o interesse da criançada, que faziam seus pais gastarem até o último centavo com álbuns de figurinhas e bonecos que giravam a cabeça. Aliás, pessoalmente, a versão gigante daqueles bonecos sempre foi meu sonho de consumo.

É importante lembrar que o Power Rangers a chegar aos cinemas nesse ano de 2017 não é a primeira versão cinematográfica dos heróis. Em 1995, já havia sido lançado um filme inspirado na primeira temporada do seriado, Power Rangers – O Filme, bem como uma sequência em 1997 intitulada Turbo: Power Rangers 2. Assim como o seriado, os dois filmes só agradaram os jovens fãs dos personagens. Para alguns, inclusive eu, talvez os filmes possam funcionar como guilty pleasures; já que só memória afetiva pode justificar o divertimento através de obras com roteiros, atuações e direção tão ruins quanto desses filmes.

Dito isso, podemos apontar um GRANDE diferencial dessa nova versão de Power Rangers em relação a tudo que havia sido feito antes: o cuidado e a preocupação que o roteiro exibe na hora de apresentar e desenvolver seus personagens. Bryan Cranston (que interpreta Zordon no filme) já havia dito que o filme faria pelos personagens o que Batman Begins fez pelo Homem-Morcego no cinema. Não chega a tanto, infelizmente; mas a vontade de querer investir na personalidade e interação de seus personagens é patente durantes toda a duração da obra.

O roteirista John Gatins (Gigantes de Aço, O Vôo) cria uma versão contemporânea de O Clube dos Cinco e coloca seus personagens no universo de Poder Sem Limites; trocando o teor sombrio do último por uma diversão descompromissada. Aliás, o embasamento no clássico longa “oitentista” de John Hughes fica extremamente claro ao ambientar algumas cenas em uma sala de detenção, e até ao caracterizar seu quinteto. Jason seria o atleta em crise existencial que Emilio Estevez interpretou; Kimberly simboliza a patricinha que questiona seus próprios atos, bem como a persona de Molly Ringwald; Billy é o nerd boa gente, assim como o personagem de Anthony Michael Hall; já Trini, funciona como a freak encarnada por Ally Sheedy, enquanto Zack é o rebelde com histórico familiar complicado, assim como o personagem de Judd Nelson. Mas Gatins não se priva em apenas dar “uma” característica aos seus personagens, o que poderia limitar a empatia dos espectadores. O roteirista quebra algumas expectativas ao oferecer algumas camadas mais complexas e humanas, bem como criar um entrelaçamento mais genuíno entre todos.

Apesar de terem vidas sociais e históricos dispares, cada um dos personagens possui algum tipo de questionamento particular em relação às suas vidas que os tornam mais “palpáveis” e tridimensionais. Seja o fato de Jason não se sentir à vontade em se tornar aquilo que querem que ele seja, ou mesmo Trini tendo que desafiar os rótulos que sua família quer lhe impor, cada um dos problemas de vida pessoal enfrentados pelos heróis, é hábil em criar paralelos com eventos reais da vida dos espectadores. E se John Gatins ainda é inteligente ao brincar como nossos julgamentos em relação ao conflito inicialmente clichê de Kimberly e suas amigas, ele ainda nos surpreende ao oferecer a Billy o verdadeiro protagonista da história, apesar de Jason ser “tradicionalmente” o líder da equipe. Também é interessante notar o modo como os pais são retratados de forma problematizada, de modo similar ao que Wes Craven realizou em A Hora do Pesadelo, com as mesmas intenções de complexar as ações dos filhos.

O roteirista não apenas consegue trazer os seus heróis para mais perto dos espectadores, e consequentemente nos fazer torcer mais por eles, como também usa a diversidade de emoções de cada um como catalizador do que os torna verdadeiramente heróis, e alem disso, uma EQUIPE. A cumplicidade que vai se criando entre os personagens ao longo do filme, e que acaba sendo a força motriz dos Powers Rangers, ainda funciona como uma excelente metáfora para a necessidade de união da diversidade, e como somente assim o mundo poderia resolver seus problemas. Há uma determinada cena, com os personagens em volta de uma fogueira, que simboliza exatamente as mensagens do clímax de O Clube dos Cinco. Pessoalmente, fico extremamente emocionado de me ver representado em um filme de super-heróis mainsteram com o primeiro personagem abertamente gay; e que as diferenças de orientações sexuais e raças sejam tratadas com tamanha naturalidade, sem haver necessidade de piadas de duplo sentido.

Porém, por mais que devamos enaltecer os acertos do roteiro de John Gatins, o mesmo também possui alguns erros graves que poderiam ter sido evitados. O filme contém MUITOS diálogos ruins e exageradamente expositivos, principalmente se levarmos em consideração os momentos em que Rita Repulsa ou Zordon estão em cena. E se o prólogo do filme é bem resolvido quanto a aclimatizar os espectadores no tom fantasioso da história, o mesmo não pode ser dito sobre a coincidente descoberta da vilã (do fundo do mar) ao mesmo tempo que os personagens principais encontrem as moedas de Zordon. E o filme ainda chega MUITO perto dos piores momentos do seriado quando Rita Repulsa finalmente confronta um dos heróis, quando os personagens começam a tomar decisões completamente equivocadas se levarmos em conta suas naturezas.

Rita Repulsa, aliás, poderia ter se tornado um dos piores pontos do filme se não tivesse sido interpretada com a sagacidade habitual de Elizabeth Banks. A atriz/produtora/diretora canadense (que vai de filmes trash divertidos como Seres Rastejantes, até blockbusters como Jogos Vorazes) encarna a vilã com comedimento nas expressões exageradas e com uma postura de invencibilidade e segurança que realmente nos faz acreditar na força da personagem. Inclusive, devemos destacar sua caracterização, que parece uma deturpação da armadura dos Rangers; enquanto seu cajado possui detalhes macabros de partes humanas que faria inveja ao Leatherface de O Massacre da Serra Elétrica. Os outros atores cumprem satisfatoriamente bem seus papéis, principalmente por aproveitarem as cenas em que fazem auto-paródia da situação absurda em que se encontram seus personagens. Bill Hader diverte como o autêntico Alpha 5, enquanto Bryan Cranston traz algumas camadas rancorosas, até então, nunca vistas para a personalidade de Zordon. Já os heróis estão homogeneamente bem, com destaque para a presença sempre radiante de RJ Cyler (que já havia nos encantado em Eu, Você e a Garota que Vai Morrer). O ator demonstra um timming cômico impecável, além de exibir MUITA simpatia. É a verdadeira estrela do filme.

Por falar em aspectos técnicos, todo o design da armadura dos heróis é muito bem resolvido visualmente, ganhando credibilidade pela incrível variedade de texturas (reparem nos detalhes das luvas), camadas e reflexibilidade de suas superfícies. Além disso, é um alívio ver o rosto dos atores verdadeiramente "por dentro" da armadura. Ademais, a atualização tecnológica da nave de Zordon, sua localização e o seu próprio painel são realizados de forma prática e lúdica ao mesmo tempo (o conceito da aguada com fundo oco é muito interessante). Os próprios efeitos visuais, também, aplicam detalhes inteligentes para ajudar a caracterizar suas figuras, sendo o mais notável, o modo harmonioso como a armadura vai se formando no corpo dos heróis enquanto “morfam”, em contraste com as formas agressivas e cheias de arestas do mesmo processo no corpo de Rita Repulsa. Mesmo o figurino de Kelli Jones (Straight Outta Compton: A História do N.W.A.) já rompe com o clichê das cores características de cada herói “gritando” em seus vestuários normais, implementando apenas pequenos detalhes em tons difusos.

Em conjunto com seu diretor de fotografia Matthew J. Lloyd, o diretor Dean Israelite integra ao universo dos Power Rangers um visual similar ao que já havia feito em Projeto: Almanaque. As imagens dão valor a grãos fortes e tons obscuros e realistas dos ambiente, que contrastam com as cores fortes e saturadas oriundas das fontes fantasiosas da história, principalmente em relação ao uniforme dos heróis. Já o uso da trilha sonora do compositor Brian Tyler (experiente em filmes de heróis como Constantine e Homem de Ferro 3) mescla as músicas pop de forma autêntica (como a versão moderna de Stand By Me, referenciando adequadamente Conta Comigo) e deixa o tema clássico de Powers Rangers para um momento simbólico.

Israelite faz um trabalho razoavelmente eficaz como diretor. De uma forma geral, há sempre um ritmo constante de empolgação com a história. Por um lado, o diretor arquiteta as sequências de aventura com exagero de frases de efeito e piadas feitas sob medida para o público adolescente (com exceção do divertido “Yipikaye, mother ...” que satiriza a censura do filme referenciando Duro de Matar). Já em outros momentos, ele não usa o trabalho de perspectiva tão bem quanto poderia usar para filmar Goldar e o Megazord, e criar um efeito tão impressionante quanto em Círculo de Fogo. Por outro lado, o diretor maneja adequadamente sua câmera para criar um tom urgente pelo modo cia movimentos rápidos e zooms quase documentais (assim como Zack Snyder fez em O Homem de Aço). Sem contar alguns quadros realmente estilosos que o cineasta cria, com destaque para aquele em plano plongée que um dos Rangers é carregado pelos outros quatro heróis; ou mesmo aquele que três personagens mergulham em direção à nave de Zordon abraçados um ao outro. E só perdoo o diretor pelo momento dramático maniqueísta dos heróis à beira de um abismo, pelo plano-sequência realizado em um momento de Jason no início do filme, que realmente nos deixa sem fôlego. Mas a melhor cena de ação do filme, e que prova que o diretor tem noção de mise-em-scène, é aquela em que os heróis fogem de uma pedreira após uma explosão.

Sem deixar de criar simbólicas referências nostálgicas (reparem na participação de dois atores do seriado original), Power Rangers tem sua parcela de erros, mas é eficaz no que se propõe. O longa redime seus equívocos por manter sempre um ritmo constante de diversão e por tirar sua maior força pela diversidade e representatividade do lado humano de seus heróis. John Hughes ficaria orgulhoso!


Divulgaí

Deixe sua opinião:)