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Crítica #2: Um Limite Entre Nós

Crítica #2: Um Limite Entre Nós

Baseado na aclamada peça teatral homônima de August Wilson, Um Limite Entre Nós se caracteriza como aquele filme poderoso com fortes diálogos, capaz de nos fazer questionar coisas óbvias e simples da vida, para as quais não temos tempo de prestar atenção para refletir ou simplesmente não conseguimos desvendar e entender.

Pittsburg, 1950. A família Maxson é uma família como as outras, com seus momentos felizes e tristes, acha um meio de continuar vivendo nesse tão conturbado mundo. Troy (Denzel Washington), o pai da família, representa-se como a peça central da história. Orgulhoso e "durão", tem suas próprias maneiras de lidar com as situações cotidianas. Maneiras que para os outros podem parecer controversas. Rose (Viola Davis) é sua esposa, que fiel ao marido, tem como principal prioridade sua família e representa-se como o alicerce dela.

Seus filhos, o romântico músico Lyons (Russel Hornsby) e o aspirante a jogador de beisebol Cory (Jovan Adepo), servem como pontos extremos opostos que colidem com as maneiras do casal, servindo para ótimos questionamentos divergentes - e um excelente contraste entre gerações. Bono (Stephen Henderson), amigo próximo à família, apesar de ter pouca aparição serve como um elo paralelo ao relacionamento da família. E Gabe (Mykelti Williamson), o irmão de Troy que sofreu um traumatismo craniano durante a Segunda Guerra Mundial e ainda guarda sequelas, como o segundo elo paralelo à família.

E é assim que Um Limite Entre Nós é configurado. Com uma narrativa tão densa que chega até ser pesada, se apoia em seus diálogos fervorosos entre poucos personagens, cujos contrastes são evidentes e muito bem construídos. Com simbolismos e metáforas relacionados ao beisebol e até à Bíblia, o longa serve como uma desconstrução da moralidade, levantando valores e pensamentos não apenas sobre preconceito, mas principalmente sobre família, desejos, redenção, raiva, sonhos, medos, angústias, arrependimentos, decepções e erros. Todos aqueles sentimentos para os quais nós, meros seres humanos, estamos propensos a ter. E que nos caracterizam como tais.

Apesar de sua narrativa - relativamente lenta - parecer direta a primeira instância, há muita subjetividade entre as entrelinhas do roteiro, escrito pelo mesmo criador da peça teatral, August Wilson. Em certa altura do filme, há uma breve discussão do porquê Rose querer construir uma cerca ao redor de sua casa. Seria para manter algo fora de sua casa, ou algo dentro dela? A dubiedade e metáforas envoltas desses diálogos torna o enredo de Um Limite Entre Nós ainda mais grandioso, tornado-o um filme que muitas pessoas vão conseguir se identificar ao desenvolver sua própria interpretação. Todos os personagens têm suas próprias "cercas". Restam a eles, encontrar a saída e a entrada para aquilo que eles querem que sua vida molde. E também, se querem manter a cerca mais alta ou baixa.

"Precisa rebater todas as bolas. Tanto as retas, quanto as curvas" diz Lyons, parafraseando o próprio pai em um dos momentos finais do filme. Todos somos sujeitos a erros. Todos nós temos a capacidade de guardar ressentimentos e arrependimentos ao longo da vida. Todos podemos perdoar. E depende apenas de nós mesmos, lidar com esse emaranhado de complicações. Um Limite Entre Nós é um filme onde as emoções transbordam, a vida transborda. Onde é posto à prova o mundo e sua complexidade. E tudo isso, usando como plano de fundo o preconceito racial e as dificuldades que isso impõe à uma família.

Denzel Washington dirige o longa dentro de sua área de conforto, sem takes ambiciosos e residindo na simplicidade. Até mesmo porque seu foco é manter-se em longas cenas em um único cenário, como uma peça teatral. Algo interessante em sua direção, é a maneira que demonstra o passar do tempo e a mudança de estações - o derretimento da neve e a lenta queda de uma folha seca. A fotografia rústica de Charlotte Bruus Christensen (A Caça, A Garota no Trem e Submarino) captura o sentimento das antigas ruas da década de 50 nos EUA. E realça a simplicidade dos cenários - principalmente o aspecto velho e frio da madeira - e até mesmo as cores escuras do figurino.

Mantendo-se contido nos aspectos técnicos - até porque, dada a narrativa, não precisa fazer o contrário - sua edição e montagem seguem as mesmas simplicidades da direção. Resguardando o aspecto teatral da história, apenas focando inteiramente nos personagens e seus veementes diálogos. Gostando ou não de Um Limite Entre Nós, algo é incontestável: as atuações são os pilares do longa-metragem, e dizer que estão impecáveis, é pouco.

Denzel Washington interpreta o protagonista Troy, e entrega uma atuação onde seus trejeitos e modo de falar personificam vigorosamente seu personagem, destacando suas principais características árduas – mesmo excedendo um pouco em uma atuação demasiadamente teatral. Mas quem realmente rouba a cena quando aparece, é Viola Davis como sua esposa, Rose. Com toda sua expressividade e emoção, a atriz explode em cena, entregando uma das melhores atuações de sua carreira. E é dona de um dos melhores diálogos do filme, na cena em que descobre um lado de seu marido que lhe ainda era desconhecido. Mykelti Williamson como o irmão de Troy, Gabe, é outro grande destaque do elenco. Interpretando o duro papel de um homem que sofre as consequências de um alistamento no exército, o ator está excelente em cena. Os jovens Russel Hornsby como Lyons e Jovan Adepo como Cory - filhos de Troy - entregam atuações competentes, seguindo o ritmo dos atores principais.

Com um final que dividirá um pouco as opiniões, por desviar de seu enredo realista e inflexível para um desfecho subjetivamente bíblico e espiritual, Um Limite Entre Nós é marcado sobretudo por seus diálogos poderosos, que até nos fazem perder o fôlego, e suas incríveis atuações. Um excelente filme que, sem exuberância, consegue emocionar e nos fazer refletir sem medir esforços.



Divulgaí

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