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Crítica #2 – T2: Trainspotting

Mesmo não conseguindo superar o primeiro filme, T2: Trainspotting consegue mostrar que tem seu próprio brilho e suas próprias cenas inevitavelmente icônicas, algumas até mesmo retomando certas características de Trainspotting – Sem Limites, como o excelente monólogo de Mark
Crítica #2 – T2: Trainspotting

"Escolha viver. Escolha um emprego. Escolha uma carreira, uma família. Escolha uma televisão enorme. Escolha lavadora, carro, CD Player e abridor de latas elétrico. Escolha saúde, colesterol baixo e plano dentário. Escolha viver. Mas por que eu iria querer isso? Escolhi não viver. Escolhi outra coisa. Os motivos? Não há motivos. Quem precisa de motivos quando tem heroína?” Ao som de uma versão instrumental de Perfect Day de Lou Reed voltamos à Edimburgo, Escócia, vinte anos desde que Mark Renton roubou 16 mil dólares de seus melhores amigos. Vinte anos desde que Tommy morreu de toxoplasmose. Vinte anos desde que Dawn perdeu sua chance de viver. Vinte anos desde que a heroína tomou conta da vida de cinco escoceses que não se importavam com mais nada. Mark, Sick Boy, Spud e Franco reencontram-se após duas décadas sem nenhum contato, deixando a reação de cada um deles ao se reencontrarem, completamente imprevisível. Retomando uma história trainspotting (vide o trocadilho com o título), que agora se apresenta como uma releitura voltada para redenção, reconciliação, reconstrução e todos os “res” que se pode imaginar.

Baseado no livro “Porno” de Irvine Welsh – autor da série de livros - e contando com uma pegada mais madura que seu filme antecessor, T2: Trainspotting não perde suas características principais e ainda consegue desenvolver novos desfechos para personagens tão únicos, problemáticos e, sobretudo, instáveis. Tendo sempre em mente o enredo original de Trainspotting – Sem Limites de 1996, o novo filme de Danny Boyle opta por um interessante amadurecimento não apenas de sua narrativa, mas de seus personagens e até mesmo, do “mundo das drogas” e da capital escocesa. Embasado em diversas referências ao filme anterior, que se configuram em cenas quase idênticas às originais, mas paradoxalmente, bem diferentes – levando em conta a mudança da história e das características dos personagens - como a icônica cena inicial de Mark esbarrando em um carro e dando um sorriso totalmente sem sentido ao motorista, enquanto foge da polícia. O diretor cuidadosamente realiza um retrato novo e mantém a mesma linguagem, dando cara e forma singulares para a sequência, e uma continuidade digna para a enorme ponta solta que foi deixada pelo primeiro longa-metragem nos anos 90.

A volta aparentemente tardia de um dos filmes mais impactantes do cinema no final do século 20 é dada como proposital por seu criador e autor, Welsh, que vê o novo filme como uma imagem do envelhecimento prematuro dos homens. Mark Renton reaparece em sua cidade natal, a princípio apenas para rever em uma dose momentânea de nostalgia, o lugar que se tornou um enorme beco sem saída do mundo das drogas em sua juventude. Ewan McGregor não encontra dificuldades para se reencontrar em seu antigo personagem, o qual interpretara aos 25 anos e agora aos 45, e entrega uma nova face de Renton – e a antiga também. Sick Boy, que agora mantém uma preferência ao seu nome Simon, deixa um pouco de lado suas divagações sobre os filmes de James Bond relacionados a metáforas da vida, e parece agora ter colocado seus planos (por mais que estranhos) em prática. Jonny Lee Miller, entre os quatro principais personagens, é de longe o melhor em seu papel. O ator consegue perfeitamente lembrar Sick Boy do original e entregar uma forma mais madura e ao mesmo tempo, ainda juvenil, como se o próprio personagem ainda estivesse nesse impasse. O inesquecível e desajeitado Spud, que agora parece tentar se reerguer de todos os males que lhe ocorreram nesses últimos anos, não decepciona e a atuação de Ewen Bremner é outro ponto forte do longa-metragem. Robert Carlyle como o temerário Begbie não perde forças e acompanha o restante do quarteto original. Apesar de ter uma aparição relativamente curta, resumida em poucas cenas e falas, Kelly Macdonald rouba a cena como Diane - a antiga namorada de Mark. Há um novo nome no elenco que também ganha bastante destaque, a simpática parceria de negócios e “namorada” de Simon, Veronika – interpretada por Anjela Nedyalkova.

A fotografia de Anthony Dod Mantle (Anticristo e Snowden) segue uma paleta de cores mais escura e realista (fugindo das tonalidades fortes do primeiro longa-metragem), mas não deixa de prezar determinadas cores em cenas específicas, como a excelente cena do reencontro de Mark e Franco no banheiro de uma boate – onde a tonalidade azul foi fortalecida. A cinematografia se caracteriza como mais retraída e contida que seu precursor, e isto em um excelente sentido. Afinal, a brilhante cinematografia de Trainspotting – Sem Limites, com seus jogos de câmera instáveis e enquadramentos engenhosos, ganhava sentido e força pelo fato dos personagens estarem sempre sob o efeito de heroína, dando grande margem para “brincar” cada vez mais com a câmera. Como se trata da mesma história, mas em períodos e circunstâncias diferentes, uma mudança de técnica era necessária e foi perfeitamente executada. Utilizando recursos como ângulos oblíquos abaixo do nível normal da câmera e enquadramentos repentinos, sua cinematografia se torna realmente memorável.

A direção de Danny Boyle (Em Transe e 127 Horas) segue mais a linha de seus últimos filmes, mostrando uma clara diferença entre o primeiro e o segundo filme da série trainspotting. Com grande destreza e uma pontada de nostalgia, o diretor consegue realizar uma excelente direção. A edição e montagem andam de mãos dadas com a cinematografia no primeiro filme. E no segundo não poderia ser diferente. Sem deixar de lado os cortes repentinos e alternados, esse conjunto de qualidades técnicas são perfeitamente executas – tornando-se a maior estrutura para sua história se apoiar. A adoção de características modernas ao enredo foi um acerto inesperado, quem diria que uma cena de Mark e Simon brincando de “face swap” seria uma das cenas mais divertidas do segundo filme? As excelentes releituras dos personagens é um dos pontos mais fortes do filme, que com certeza, agradará muitos fãs. E o contraste entre a idealização e a realidade se destaca na história, se tornando um grande elemento na narrativa. Como esperado, a trilha sonora se destaca novamente com músicas poderosas, tornando-se mais um personagem em cena. Iggy Pop, The Clash, High Contrast, Blondie, Queen, Wolf Alice e Young Fathers são alguns nomes que aparecem na excelente trilha e é difícil não se apaixonar pelas cenas em que são tocadas.

Mesmo não conseguindo superar o primeiro filme, T2: Trainspotting consegue mostrar que tem seu próprio brilho e suas próprias cenas inevitavelmente icônicas, algumas até mesmo retomando certas características de Trainspotting – Sem Limites, como o excelente monólogo de Mark sobre escolher a vida e a reconstrução da cena em que Mark está fumando um cigarro, quando repentinamente cai no chão. Longe de ser apenas um fan service para os fãs mais ávidos, o filme que conta o reencontro de quatros amigos nada convencionais cumpre aquilo que prometia e ainda consegue dar uma nova cara para um clássico do cinema. E principalmente, aos personagens. Dando sentido, afinal, ao grande motto do filme “choose life”. Não há dúvidas de que a cena final ao som de Lust for Life de Iggy Pop ficará na mente de todos os fãs por muito tempo. Um desfecho épico para dois filmes épicos.

Divulgaí

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