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Crítica #2: Fragmentado

Com uma excelente cena final que cria uma ligação inesperada, mas inteiramente lógica, com um dos melhores filmes do diretor, Fragmentado prova que Shyamalan ainda possui algumas cartas na manga para impressionar as audiências
Crítica #2: Fragmentado

A filmografia de M. Night Shyamalan é, no mínimo, interessante. Mesmo que não seja um fã do diretor, e reconheça desastres como Fim dos Tempos, A Dama na Água, Depois da Terra e O Último Mestre do Ar, é impossível ignorar o valor de obras como O Sexto Sentido e Corpo Fechado. E mesmo que Sinais possua um roteiro problemático, ou que A Vila contenha erros de montagem; não há como negar o talento do cineasta para arquitetar belas sequências de tensão e suspense. Porém, o diretor está longe de ser o “novo Alfred Hitchock”, como muitos cantaram a pedra após seu lançamento mundial em 1999 (afinal de contas, nós ainda temos Brian De Palma, não é mesmo?).

Após um singelo retorno às raízes do terror psicológico no bom A Visita, Shyamalan parece ter encontrado um “lar” na Blumhouse Productions, a produtora do bem-sucedido Jason Blum. O empresário em questão, é responsável pelos filmes de terror de maior sucesso atualmente, dentre eles, franquias como Atividade Paranormal, Sobrenatural e Uma Noite de Crime; além de outras excelentes obras como O Espelho, O Presente e Ouija – A Origem do Mal. E pelo visto, orçamentos humildes e projetos menores parecem estar fazendo bem à carreira do diretor. Após um breve sucesso com A Visita, depois de quatro fracassos retumbantes, Shyamalan realiza seu trabalho mais coeso desde Sinais.

Após acompanharmos uma cena onde três garotas são raptadas pelo, inicialmente, intrépido personagem de James McAvoy, Fragmentado faz os espetadores acompanharem as tentativas de sobrevivências das personagens em um cativeiro misterioso. Ao mesmo tempo, Shyamalan nos convida a penetrar cada vez mais na psicologia daquele raptor, principalmente através da personagem Dra. Fletcher (a veterana Betty Bluckley), a psiquiatra responsável pelo acompanhamento médico daquela figura que possui, nada menos, que 23 personalidades coexistindo dentro de sua mente.

É seguro dizermos que a história de Fragmentado, assim como a do recente A Chegada, depende INTEIRAMENTE das emoções do personagem central e de uma atuação que conseguisse transmitir sua complexidade; e James McAvoy cumpre essa função com louvor. Com uma expressividade tão rica em variedade quanto o trabalho de John Lithgow no similar Síndrome de Caim, McAvoy utiliza os seus recursos disponíveis para encarnar vários personagens de forma completamente distinta uma da outra. Mesmo que alguns possam utilizar a desculpa que cada uma das personalidades possui idades e características díspares entre si, e isso facilitaria o trabalho do ator, é inegável o modo como McAvoy transcende a caricatura que aquilo poderia gerar.

Desde uma mulher de meia idade educada e com modos refinados, um homem sistemático e com TOC por limpeza, até uma criança de nove anos de idade que não consegue esconder seu entusiasmo por estar fazendo algo de errado, McAvoy consegue manter sempre o mesmo tom de ameaça e perigo inerente ao seu distúrbio psiquiátrico. Shyamalan sabe que tem um grande ator em mãos, e faz questão de enfocar o ator em primeiros e primeiríssimos planos (aqueles que focam nos rostos dos atores) para extrair o máximo das nuances faciais do artista.

As cenas em que o personagem de McAvoy é confrontado por sua psiquiatra no consultório, em especial, demonstra como o ator domina um talento ilimitado ao demonstrar uma das personalidades através da impressão de outra personalidade. Além disso, toda a postura e trabalho corporal do ator já é capaz de fazer o espectador acreditar naquela personificação (observem o contraste entre a postura “fina” e delicada de Patricia com os modos similares, mas impassíveis, de Dennis). Mas o verdadeiro grande momento de McAvoy vem no terceiro ato, quando ele é obrigado a transitar entre VÁRIAS personalidades diferentes initerruptamente durante um momento de confronto. Pela intensidade, e credibilidade quase impossível da retratação, esse é desde já um dos melhores momentos do cinema de 2017.

Mas McAvoy, apesar de carregar todo o filme nos ombros, não é único a brilhar em Fragmentado. A novata Anya Taylor-Joy (do fascinante A Bruxa) consegue problematizar de forma interessante uma personagem que poderia causar antipatia desde o princípio. A atriz aposta em um tom comedido e sussurrado de fala que contrasta com sua postura determinada, o que nos faz compreender melhor sua história de vida, e seu modo de enfrentamento, quando essa nos é revelada. Enquanto isso, a escolha de Betty Buckley como a Dra. Fletcher não só serve para dar muita dignidade às justificativas científicas que o roteiro quer entregar ao espectador, como também cria um paralelo interessante com Carrie – A Estranha de 1974 (Brian De Palma, mais uma vez), já que a atriz interpretou naquele filme a professora que tentaria trazer um pouco de luz e esclarecimento à complexa e abusada personagem título do filme.

Com um design de produção que parece ter se inspirado na estética dos aposentos sufocantes e amedrontadores de Bufallo Bill do clássico O Silêncio dos Inocentes, o filme apresenta um ritmo sempre constante de tensão e expectativa sobre o que está por vir. Aliás, ninguém pode dizer que Shyamalan não tem talento para criar suspense, já que o diretor exibe em Fragmentado suas táticas habituais para nos deixar na ponta das poltronas. Além de torturar a plateia ao alongar em demasia os planos que imprimem maior urgência (como o primeiro plano de Casey ao perceber que alguém estranho adentrou o carro), o diretor ainda movimenta sua câmera pelo cenário para sempre criar tensão por alguma surpresa que posa aparecer inesperadamente (reparem no movimento de câmera circular enquanto Casey assiste a um vídeo no computador).

O diretor ainda utiliza bem a trilha sonora de West Dylan Thordson (de Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo) para sempre ditar uma atmosfera opressiva para aquele ambiente em que as garotas estão presas.

No entanto, o roteiro do filme não está imune a alguns erros que podem atirar alguns espectadores para fora da tela. O terceiro ato do filme apresenta alguns personagens, principalmente Dra. Fletcher, realizando alguns atos que não condizem logicamente com suas reais intenções. Além disso, em outros momentos algumas situações se resolvem mais por dependerem de coincidências (como Casey encontrar um determinado bilhete) do que por uma boa estrutura de roteiro. Porém, não é nada tão grave quanto os alienígenas alérgicos à água de Sinais, só para citar um exemplo da carreira de Shyamalan. Ademais, é notável como o artista consegue criar uma história interessante mesmo após tantos filmes que exploraram personagens com o mesmo distúrbio de personalidades. Além do clássico Psicose (que é claramente referenciado pelos créditos iniciais), ainda se destacam Vestida para Matar, Síndrome de Caim, Identidade (de James Mangold, mesmo diretor de Logan) e A Janela Secreta, só para citar alguns exemplos.

Com uma excelente cena final que cria uma ligação inesperada, mas inteiramente lógica, com um dos melhores filmes do diretor, Fragmentado prova que Shyamalan ainda possui algumas cartas na manga para impressionar as audiências. Torçamos para que ele continue a melhorar cada vez mais após um longo período de declínio. E que James McAvoy ainda nos brinde com outras atuações tão impressionantes quanto essa.

Divulgaí

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