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Crítica: A Tartaruga Vermelha

A direção de Dudok de Wit combina com as características propostas pelas outras partes técnicas, prezando os pequenos detalhes naturais e realizando ótimos enquadramentos bem pensados
Crítica: A Tartaruga Vermelha

"Olhe bem para a natureza e você entenderá tudo melhor", já dizia Einstein. Impulsionada por grandes produtoras - entre elas a icônica Studio Ghibli - A Tartaruga Vermelha foge dos moldes de uma animação comum ao abrir mão das falas e se focar de maneira total em uma história puramente visual e metafórica, misturando emotividade e poesia ao retratar três temas interligados: a natureza, o ser humano e a relação entre eles.

Carregando uma perfeita harmonia entre sensibilidade e delicadeza, desde a sutileza dos contornos de uma folha que caiu no chão à brabeza de fortes ondas do mar que quebram nas pedras, A Tartaruga Vermelha explora uma narrativa simples carregada de simbolismos, voltada principalmente para a natureza e o ser humano em si. Em uma história profunda, triste e poética, A Tartaruga Vermelha é um filme relativamente simples, mas paradoxalmente, extremamente complexo, e com diversas camadas. Sua subjetividade é um dos pontos mais interessantes do longa-metragem, abrindo sua narrativa de modo muito amplo. Um homem sobrevive ao naufrágio de seu navio e acaba em uma ilha deserta, sendo esta a deixa para uma pequena jornada de vida envolvendo um estudo da natureza e do ser humano, seus instintos mais intensos e os sentimentos mais verdadeiros.

Lutando para sobreviver, o náufrago precisa encarar múltiplas dificuldades, sozinho e com muito esforço. Não sabemos nada sobre ele, nem ao menos seu nome, apenas percebemos seu desespero em seus berros com sua voz falha e seus movimentos ansiosos. Após diversos dias esforçando-se para arranjar comida e abrigo sem sucesso, tenta pensar em algo diferente. Em uma tentativa de deixar a ilha, o náufrago constrói uma pequena balsa. Mas no caminho, se depara com uma grande tartaruga vermelha que inexplicavelmente insiste em quebrar sua balsa, evitando sua fuga. Tentando uma segunda vez e falhando novamente pelo mesmo motivo, o náufrago é pego por um acesso de ódio. É nesse momento em que surge certa dubiedade na história, onde cada espectador terá sua própria interpretação. A tartaruga é a conexão entre o primeiro ato e segundo, afetando diretamente o protagonista e o rumo da narrativa. Ela desconstrói o ato inicial e desenvolve o segundo em uma história inteiramente nova com outros elementos, mas sem esquecer seu tema principal.

A Tartaruga Vermelha é desenhado em traços inspirados no estilo ligne claire (criado por Hergé, criador de As Aventuras de Tintin) e na arte japonesa ukiyo-e (da famosa xilogravura A Grande Onda de Kanagawa de Hokusai), misturando desenhos feitos à mão e no computador. Tais ilustrações são coloridas por uma paleta de cores em tom pastel arquitetando um visual limpo e bem original, que destacam elementos importantes para o filme – como o tom árido e escuro da areia e o intenso azul do mar. Esses estilos de design auxiliam no aspecto frágil e profundo montado pelo excelente enredo, aderindo uma perspectiva poética extra ao longa.

A animação sem falas dirigida pelo premiado Michaël Dudok de Wit (dos curtas-metragens Pai e Filha e The Monk and the Fish), encanta por tratar de uma história tão sutil e sensível. E consegue com sucesso manter o espectador preso em sua narrativa - algo consideravelmente complicado para uma animação muda - graças a um bom roteiro escrito pelo próprio de Wit e por Pascale Ferran (Pessoas Pássaro e Lady Chatterley). A Tartaruga Vermelha passa uma mensagem de que é um mundo duro e trágico, mas que gradualmente (por meio de nossa vivência e experiência) descobrimos que há algo lindo e generoso nele também. E que tudo isso é nada menos do que a própria vida e que faz parte dela – até mesmo aqueles acontecimentos que lamentamos. Como por exemplo, uma das tartarugas filhotes não consegue chegar ao mar e acaba morrendo, mas sua morte trágica torna-o um alimento para os filhotes de caranguejos que moram na beira da praia. O velho ciclo da vida.

A direção de Dudok de Wit combina com as características propostas pelas outras partes técnicas, prezando os pequenos detalhes naturais e realizando ótimos enquadramentos bem pensados. A edição e a montagem seguem os mesmos aspectos – sem excesso e com todos os nós bem apertados e aparados. Como não há falas na narrativa, muito da premissa e do objetivo do filme dependem unicamente desse conjunto de qualidades técnicas e artísticas, que foram realizadas graciosamente construindo uma atmosfera linda e triste. Com uma história poderosa, o melancólico e visualmente perfeito longa-metragem cheio de compaixão de Dudok de Wit, nos faz lembrar que aquilo que a natureza mais nos presenteia, é sempre a vida, começando com apenas uma ilha deserta, um náufrago e uma misteriosa tartaruga vermelha.


Divulgaí

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