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Crítica: La La Land - Cantando Estações

Sem perder nenhuma oportunidade, Chazelle utiliza todo o talento de sua equipe técnica para criar metáforas visuais...

Infelizmente, estamos vivendo em um mundo cínico. Um mundo que não nos proporciona espaço para sonhos ou anseios maiores do que já possuímos. Um mundo em que a desesperança corrói os mais jovens logo no início de sua vida madura, graças a portas fechadas e tapas na cara metafóricas; além de imensa frustração por reconhecerem a realidade dos diversos meios profissionais, onde a falta de ética e respeito imperam agressivamente e se sobrepõem à criatividade.

Assim como realizar denúncias que escancaram verdades veladas da nossa sociedade, e entregar exercícios de estilo escapistas (nada de desmerecedor nisso, vale lembrar), o cinema, como qualquer outra arte, também possui uma importantíssima função: possibilitar um escape do nosso massacrante cotidiano e nos transportar para mundos e personagens que consigam nos trazer leveza e encantamento.

Interessante notar como a premiada película de Damien Chazelle utiliza a mesma linguagem do inesquecível Dançando no Escuro de Lars Von Trier, um musical moderno e com toques naturalistas que celebra os musicais clássicos da Era de Ouro de Hollywood (período de produção cinematográfica entre a década de 1920 e 1960). Porém, as mensagens desses filmes não poderiam ser mais diametralmente opostas.

Enquanto Von Trier utiliza o musical como forma irônica de denunciar a cultura egoísta que norteia o mundo ocidental e nos faz refletir sobre a realidade deprimente que estamos vivendo, Chazelle traz à tona a ingenuidade e otimismo da época de Fred Astaire, Debbie Reynolds, Ginger Rogers e tantos outros artistas, para inspirar a criatividade e entusiasmo de jovens que podem estar se sentindo fracassados em tempos de amargura. La La Land – Cantando Estações é basicamente sobre amor e esperança. E assim como o subestimado Todos Dizem Eu Te Amo, é EXTREMAMENTE bem-sucedido nisso.

O filme se passa na Los Angeles moderna, onde vários jovens artistas se aventuram na esperança de poderem expressar o que sabem fazer de melhor e conseguir uma chance de estrelato. Nesse universo particular, acompanhamos o entrelaço de Mia (Emma Stone), uma doce atriz iniciante, e Sebastian (Ryan Gosling), um idealista e talentoso pianista de jazz, enquanto tentam ganhar a vida na “City of Stars”.

Com a intenção de inspirar nostalgia, o diretor é hábil ao criar diversão e charme simultâneos ao inserir pequenas “brincadeiras” metalinguísticas, como ao iniciar o filme com um formato de tela 4:3 e alarga-lo para Cinemascope, ou ao utilizar letreiros que parecem oriundos de clássicos como Casablanca. Aliás, toda a elegância estética do filme se une sabiamente aos simbolismos necessários. Reparem como as roupas escolhidas pela figurinista May Zophers, que exibem cores fortes chapadas (azul, vermelho, amarelo, verde) passam a sensação de que cada um dos personagens em cena se destacam vividamente frente ao ambiente arenoso de L.A., simultaneamente à ideia de que, infelizmente, eles precisam conviver com a ideia de que são só “mais um” dentre vários. Um toque genial.

A fotografia de Linus Sandgren (Trapaça) também é hábil ao utilizar a paleta de cores para enaltecer as sensações (gosto especialmente do vermelho insidioso no cenário das festas de produtores, e do verde melancólico em um agridoce momento de Mia e Sebastian ao piano). Enquanto isso, a irrepreensível direção de arte de Austin Gorg (Ela, Demônio de Neon) explora todo seu potencial para criar comentários acerca dos personagens. Por exemplo, enquanto a casa de Mia, ao início do filme, é recheada de pinturas e cartazes de filmes da Era de Ouro, o apartamento de Sebastian exibe uma organização e tradicionalismo que combinam com a personalidade do rapaz.

Oriundo do intenso Whiplash – Em Busca da Perfeição, Chazelle novamente demonstra um trabalho de direção virtuoso que nunca nos deixa de encantar por sua evidente paixão pelo tema. Apostando em planos-sequências que procuram explorar ao máximo o talento dos atores e que tornam os momentos musicais mais naturais (apesar de nunca perderem o romantismo), Chazelle não cai em armadilhas de autoindulgência (como Alejandro Gonzáles Iñarritu em O Regresso); utilizando o determinado recurso para agregar valor à sua história.



Além disso, os momentos musicais seguem uma coerência narrativa que acompanha os sentimentos pelos quais os personagens estão passando, indo de uma abertura dinâmica e cheia de energia para simbolizar a ansiedade e otimismo de jovens artistas, até um melancólico solo de Mia, em um momento sóbrio de desesperança durante um teste de elenco; passando nesse ínterim por uma performance de dança surrealista que, literalmente, leva os protagonistas às estrelas enquanto se apaixonam.

Sem perder nenhuma oportunidade, Chazelle utiliza todo o talento de sua equipe técnica para criar suas metáforas visuais. Como exemplo, posso citar um momento de alívio ao início do filme, quando conseguimos ver o mural do quarto de Mia (que exibe um rosto de uma grande atriz clássica de Hollywood) em paralelo a um evento posterior quando, após testemunharmos uma situação decepcionante da personagem, ela passa desgostosa frente a um mural de rua decrépito com pintura de vários atores clássicos, como Marilyn Monroe e Charlie Chaplin. E como não admirar o momento em que Chazelle cria um plano plongée (câmera alta) para mostrar Mia sendo afastada de um palco pela multidão durante um revelador show em que Sebastian participa?

Porém, um filme musical sem canções que realmente nos tragam emoções sinceras não seria um musical efetivo certo!? Pois La La Land está cheio delas, canções interpretadas com CORAÇÃO. Com destaque para Another Day of Sun e City of Stars, não há uma música no filme que não te deixei tocado pela autenticidade e entusiasmo. São músicas que te deixam sempre batendo os pés no mesmo ritmo da melodia e que nos dá vontade de cantar juntos. Aliás, todo o departamento de som por trás da produção merece aplausos, principalmente por implementar os acordes das canções de forma natural e fluida, além de mixar sons diegéticos (sons naturais do ambiente) para causar alguns efeitos diferenciados, como no uso humorado do toque do celular em duas situações inesperadas, ou o alerta de incêndio em determinado momento de tensão.

Roteirista tão talentoso quanto diretor, Chazelle consegue utilizar alguns “chavões” da indústria do cinema com sutileza. Mesmo que no fim do segundo ato haja uma desavença do casal (o que acontece em vários outros romances), o mesmo é deflagrado por discussões e frustrações adultas coniventes com o desenvolvimento dos personagens até então. Da mesma forma, Chazelle aposta na dinâmica screwball de comédias românticas, utilizadas repetidamente desde Aconteceu Naquela Noite, mas que exibe frescor e leveza por não apostar em situações caricaturais. Afinal, como não usar esses clichês em um filme que enaltece justamente os filmes que os consagraram? Ademais, há algumas falas realmente memoráveis no final; minha preferida é uma frase proferida por Sebastian como modo de desabafo: “Los Angeles é assim, venera tudo, mas não dá valor a nada”.

Mas grande parte da efetividade do bom uso de clichês durante o filme se deve às atuações centrais (vale lembrar que o casal principal já havia contracenado no ótimo Amor à Toda Prova). Emma Stone transborda ternura como Mia, criando uma personagem adorável e nunca unidimensional. Tentando se manter otimista todo o tempo (reparem nos sorrisos sem graça dela ao ser interrompida em vários testes), Mia é encarnada por Stone com pequenos lapsos de sutileza que engrandecem a personagem. E se há alguém que duvide do talento da moça, prestem atenção no olhar penetrante que a atriz exibe em determinado show de Sebastian, quando consegue transparecer uma intensidade de emoções conflitantes sobre a situação sem nenhuma fala.

Ryan Gosling transparece a intensidade e paixão de Sebastian pelo jazz, criando um personagem masculino interessante por exibir um calor humano e sensibilidade tocantes por trás de uma figura inicialmente sisuda. Vê-lo com olhos tristonhos ao procurar superar o orgulho e ideologia para tentar “ganhar a vida” de forma tradicional é de partir o coração. Sem esquecer que Gosling volta a demonstrar aqui todo o timming cômico que nos arrebatou em Dois Caras Legais (a cena da sessão fotográfica de sua banda é hilária).

A síntese do trabalho perfeccionista de Chazelle pode ser representada pelo momento do terceiro ato em que, abraçando Cantando na Chuva, aposta em uma metalinguagem EMOCIONANTE que utiliza organicamente várias técnicas históricas de arte e imagem (com certeza, um dos grandes momentos cinematográficos que os brasileiros poderão testemunhar em 2017).

Ao fim, La La Land é um filme que nos traz a reflexão de que, apesar de devermos ter sempre esperança (afinal ela move nossa vida), nem sempre as coisas funcionarão da forma como esperamos. No entanto, as tentativas nunca são em vão, já que uma sucessão de eventos pode ocorrer a partir dali e nós levar, por “caminhos tortos”, à uma felicidade almejada. Com uma grande carga de amor e otimismo, esse segundo longa do talentoso Damien Chazelle pode facilmente figurar entre os musicais clássicos que ele mesmo venera, como um dos grandes destaques do gênero.

Divulgaí

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