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Crítica: A Criada

Tentar transmitir em imagens, a sua habilidade autentica em contar uma história, é um exercício para o diretor que as vezes, sem usar de palavras, consegue expressar sentimentos primários do ser humano
Crítica: A Criada

De uns tempos para cá, provavelmente depois de Shame, filme de Steve Mcqueen, os festivais de cinema têm voltado a ficar mais picantes. Filmes como Azul É A Cor Mais Quente, Ninfomaníaca e Love, do polêmico diretor Gaspard Noe, ajudaram a fomentar um cinema com cenas de sexo mais explícito, talvez como descrito pelo próprio Park Chan Wook, diretor de “A Criada”, “filmes mais coloridos”.

O filme passou por vários festivais, incluindo Cannes e “Tiff” de Toronto, e por onde passou, deixou um rastro de boas críticas e um frisson erótico surgido de cenas onde o nu, nem estava tão presente assim. A Criada é uma adaptação do livro “Na ponta dos Dedos”, da autora gaulesa Sara Walters, mesmo livro que inspirou outras obras de conotação homossexual pelo mundo. Chan Wook, manteve o enredo, e modificou apenas o ambiente, o tempo em que a história se passa, e alguns detalhes aqui e ali.

A história se passa na Coréia, ainda colônia japonesa, década de 30. A trama acompanha Sook-hee uma ladra que mora num cortiço com outros vigaristas, ela se vê envolvida em um elaborado golpe do baú, planejado por um vigarista profissional. O trapaceiro consegue para ela um emprego de empregada pessoal na casa de uma família japonesa extremamente rica, esperando que ela consiga convencer Lady Hideko, a casar-se com ele. Seu plano não conta com um detalhe, de que as duas acabariam se apaixonando. O título do livro faz alusão a duas coisas em seu duplo sentido. Os dedos leves dos ladrões, e os dedos que dão prazer a uma mulher.

Se você chegou a assistir a trilogia vingança, (Mr. Vingança, 2002; Oldboy, 2003 e Lady Vingança, 2005) ou o vampiresco Sede de Sangue (2009), conhece muito bem a qualidade artística de Chan Wook, sendo ele, juntamente com Kim Ki Duk um dos maiores nomes do cinema contemporâneo da Coreia do Sul. Apesar da vingança, o derramamento de sangue, e a ira serem temas recorrentes em sua obra, sendo tratados sempre da forma mais crua e ao mesmo tempo onírica possível, podemos ver uma mudança bem marcante em seu novo filme.

Não há sangue derramado, pelo menos não da forma que estávamos acostumados. Depois de sua trilogia da vingança, Chan Wook chegou a ser chamado de “O Tarantino da Ásia”. O filme é, em vários aspectos, bastante feminino, delicado, as cenas mais agressivas, mais masculinas, ficam mesmo com os homens, mais para o final.

A fotografia lembra editorias de moda dignos de Vogue e Harper’s Bazaar. A movimentação de câmera é bastante delicada, ganhando velocidade apenas para causar espanto no expectador, afinal de contas, é um thriller. Quando Sook-hee adentra a grande sala onde Hideko lê os contos eróticos para os clientes pela primeira vez, a câmera faz um passeio veloz, do portal até o centro da sala.

O roteiro é não-linear, transita pelo passado e o presente, principalmente para mudar nossas convicções em relação aos personagens, causando um suspense interessante até o meio do filme. As cenas de sexo são realmente bastante explicitas, porém, a cena que mais foi comentada pela crítica do Festival de Cannes, foi a que Hideko nua na banheira, reclama que seu dente está muito afiado, e que se morde o tempo todo, Sook-hee coloca um dedal e suavemente lixa o dente com as mãos.

Esse não é o primeiro filme com protagonista do sexo feminino de Chan Wook. Lady Vingança já apresentava a preocupação que ele tinha em mostrar como sabia contar uma história de forma diferente, dependendo de quem é o seu personagem principal. Acredito sim que a forma diferenciada utilizada para contar essa história vem mesmo do fato de se tratar do amor entre duas mulheres.

Tentar transmitir em imagens, a sua habilidade autentica em contar uma história, é um exercício para o diretor que as vezes, sem usar de palavras, consegue expressar sentimentos primários do ser humano. O desespero, a angustia, e principalmente, o desejo, ficam sem dúvida nas mãos de Chan Wook, muito mais bonito.

A Criada ficou em primeiro lugar na Coreia do Sul, e é o filme de maior sucesso dos últimos tempos em seu pais. O que surpreende, já que a homossexualidade não é bem aceita, nem se quer é comentada na Coreia, (apesar de se tratar de uma república democrática, não é crime ser gay, mas existem muitos casos, até famosos, de pessoas que assumiram sua orientação sexual e perderam seus empregos e até mesmo suas casas). O fato é que como já foi dito pelo diretor britânico Peter Greenway, “Todo bom filme, é sobre sexo e morte”, se lembrarmos de Hitchcook, Kubrick, Almodovar, enxergamos a veracidade dessa afirmação.

Mas não podemos esquecer que cenas assim, mais explícitas, são uma moda passageira, mesmo em filmes considerados mais artísticos. Este filme em específico, com certeza não seria nada sem essas belíssimas cenas, vale ressaltar a cena final, sem errar a mão, mais sensual e divertida, não poderia deixar de ser.


Divulgaí

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