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Reflexões de um Cinéfilo - A Era do VHS

Não devemos nos esquecer das tardes assistindo Cinema em Casa e Sessão da Tarde, que possibilitava que os cinéfilos gravassem clássicos do gênero fantástico, principalmente dos anos 80.
Reflexões de um Cinéfilo - A Era do VHS

A primeira vez a gente nunca esquece”.

A afirmativa acima sempre me vem à cabeça quando penso em algo que seja de minha afeição pessoal. A primeira vez ao andar de bicicleta. A primeira vez ao dirigir. O primeiro encontro romântico. O(a) primeiro(a) namorado(a). Todos momentos de passagem em comum na vida de várias pessoas.

Para cinéfilos em geral, como nós, acrescentam-se a essa lista outros dois grandes acontecimentos: a primeira vez a ir ao cinema e, mais importante, a primeira vez ao assistir a um filme.

Para a geração que viveu durante os anos 80 e 90, a primeira vez a assistir a um filme foi, possivelmente, ao alugar uma “fita” na videolocadora. O fato aconteceu comigo aos cinco anos de idade, após meu pai comprar um videocassete JVC, em 1994. Com muita ansiedade, insisti para minha mãe me levar à locadora de filmes mais próxima de casa, “Universo Vídeos”, onde aluguei os dois primeiros filmes da minha vida: A Bela e a Fera, versão clássica da Disney, e Deu a Louca nos Monstros, cult de aventura e terror dos anos 80.

A verdade é que para pessoas apaixonadas por cinema, especialmente crianças, as videolocadoras eram verdadeiras selvas a serem desbravadas, cheias de tesouros escondidos e que nos traziam uma surpresa diferente a cada vez que retornávamos. As visitas ao local se tornavam, praticamente, um evento...um ritual! Seja em família ou entre amigos.

Na minha casa, por exemplo, toda sexta-feira, após retornar da escola, era “sagrado” meus pais levarem a mim e minhas irmãs a alguma locadora de vídeo para escolher duas “fitas” para assistir. O evento sempre gerava alguma discussão, já que os filmes deveriam agradar cinco pessoas de diferentes idades. A sorte era que minha mãe e minhas irmãs não eram tão aficionadas quanto eu e meu pai. A antecipação desse momento, para uma criança que estava aprendendo a amar o cinema, era uma sensação maravilhosa. Lembremos que a única forma de descobrir quais os filmes que estavam à disposição para apreciação era se dirigindo à videolocadora, e essa descoberta se dava somente ao chegar e conferir, capa por capa, as centenas de filmes dispostos em várias estantes.

E se escrevi “algumas” locadoras no parágrafo acima, era porque os cinéfilos da época, quase sempre, eram sócios de várias delas; eu mesmo tinha cadastro em nove (!) diferentes. O fato se dava porque o catálogo de filmes antigos de cada um dos locais era consideravelmente diferente, o que medrava a gama de clássicos, cults e filmes antigos a serem descobertos e estudados. E o tempo gasto em cada uma para conseguir conhecer todas as “fitas” disponíveis era enorme. O interessante era que, como as capas de plástico dos VHS ficavam sempre exposta ao tempo e sujeira, elas ressecavam e quebravam muito rápido, portanto, era comum que as capinhas dos filmes estivessem dispostas em pastas de plástico, ou até mesmo não estivessem disponíveis à visualização. Em muitos casos, era mais rápido já conferir direto com o atendente a existência de algum filme do que procurar a capinha do mesmo na estante específica do gênero.

Já em relação aos lançamentos (lembrando que a internet ainda estava engatilhando), a antecipação era tremenda. A única forma de sabermos de novos filmes era através dos trailers que vinham obrigatoriamente nas fitas VHS; dos cartazes expostos nas paredes da locadora com MESES de antecedência; ou através das revistas guia de vídeo (cheia de imagens e propagandas) que ficavam dispostas nos balcões.

Quem era fã de grandes franquias do cinema, principalmente de terror, como A Hora do Pesadelo, Sexta-feira 13 e Halloween, frequentemente era obrigado a assistir aos filmes fora de ordem. A problemática era devido à indisponibilidade de alguns filmes no catálogo das locadoras e a dependência de que os filmes faltantes passassem na televisão. Eu, por exemplo, comecei a acompanhar a franquia Sexta-Feira 13 a partir do nono filme (!) Jason Vai para o Inferno – A Última Sexta-Feira; e o primeiro exemplar ao qual assisti da franquia de zumbis de George A. Romero foi a refilmagem do original de 1968, produzida e roteirizada pelo mestre em 1990.

As locadoras de VHS não apenas nos traziam essas emoções nostálgicas em relação ao compromisso de “pegar fitas” no fim de semana, como também funcionavam como santuários de conversas cinéfilas. Numa época em que a internet era privilégio de poucos, os locais para analisar, criticar e discutir sobre filmes eram justamente a videolocadora. Seja com os balconistas, seja com outros clientes, as discussões sobre cinema no local eram uma diversão à parte da ida à locadora. Várias vezes eu passei horas a fio com amigos em alguma locadora de vídeo somente discutindo filmes e analisando o catálogo à disposição, sem alugar nenhum filme ao final(!). O ambiente da locadora podia ser comparado a uma livraria (com a diferença (com a diferença de que a imersão e a introspecção que os livros costumam causar nos bibliófilos davam lugar à propensão de diálogos e comentários acerca das obras da sétima arte nas locadoras); às vezes a discussão cinéfila era muito mais divertida que a escolha de um novo filme para assistir.



As aventuras de um cinéfilo na “Era do VHS” não paravam por aí. Todas as locadoras possuíam uma parte “reservada”, para maiores de 18 anos, para exposição das capas de filmes pornográficos; e acredito que todos possam imaginar os esforços da moçada jovem da época para adentrar o local. Pior que isso era a dificuldade de se criar uma “filmoteca” em casa, já que eram pouquíssimos os VHS disponíveis para venda; e todos muito caros. A maioria dos filmes disponíveis à venda correspondiam a longas infantis e animações.

Como alternativa para iniciar uma coleção caseira, os cinéfilos gravavam os filmes em fitas “virgens” compradas em lojas e camelôs. A gravação poderia ser de filmes que passavam na televisão (sincronizando a saída do videocassete com o canal desejado) ou através de uma fita original (conectando dois videocassetes diferentes através de cabos de som e imagem). O interessante era que havia a possibilidade de gravar até seis horas de filme em um mesmo VHS, já que havia três modos de gravação diferentes: SP, LP e SLP. O fato se dava pela diferença de velocidade com que a fita magnética do VHS passava pelo videocassete (quanto mais lento, maior o tempo de duração de gravação). Infelizmente, quanto maior esse tempo de gravação, menor a qualidade de som e imagem.

Os cinéfilos só conseguiram acrescentar VHS originais às suas coleções com o advento do DVD, que fez com que os proprietários de videolocadoras se desfizessem de seus catálogos de fitas e as vendessem a preço de banana.

Quanto à gravação de filmes da televisão, a dificuldade era ainda maior. Geralmente, os cinéfilos consultavam as programações dos canais de televisão dispostas nos jornais de domingo. Para quem gostava de filmes mais antigos e clássicos, havia a necessidade de ficar acordado até tarde da noite acompanhando sessões como Corujão e Fim de Noite. Havia algumas sessões bem interessantes, como o Intercine da Rede Globo, que anunciava dois filmes diferentes e criava um concurso para que os espectadores ligassem para o canal(!) e escolhessem seu filme preferido; o ganhador passaria no dia seguinte. Para os fãs de terror, havia o Cine Sinistro e o TV Terror, que passavam clássicos e cults do gênero (como The Evil Dead e Halloween – A Noite do Terror) aos sábados à noite. Já para os adolescentes que não dispunham de Xvideos ou RedTube, a Band exibia o Cine Privê nas madrugadas de sábado, sempre com alguma nova aventura da antológica franquia trash soft porn Emanuelle.

Não devemos nos esquecer das tardes assistindo Cinema em Casa e Sessão da Tarde, que possibilitavam que os cinéfilos gravassem clássicos do gênero fantástico, principalmente dos anos 80. Toda minha geração cresceu assistindo Os Goonies, A História sem Fim, Gremlins, Indiana Jones, A Hora do Espanto, Os Garotos Perdidos e diversas outras pérolas.

Um fato engraçado de gravar filmes da TV era a dificuldade de conseguir cortar as propagandas que interrompiam a sessão em diversos momentos. Precisava-se apertar stop, rebobinar alguns minutos de filme (já que havia um delay entre apertar o botão e começar a gravar realmente, embora a fita já começasse a rodar) e ser MUITO ágil em adivinhar o momento certeiro em que o filme fosse reiniciar após a vinheta. Não raras vezes, havia sempre aquele cochilo que fazia os cinéfilos perderem o “momento dos patrocinadores” e, quando reviam o filme no outro dia, descobriam comerciais interrompendo o filme.

Com o advento da internet, do streaming e da Netflix, os cinéfilos não terão mais as sensações singulares da “Era do VHS”. Não há mais aquela necessidade de ter de chegar mais cedo na locadora sexta-feira após a escola, ou após o trabalho, por conta da concorrência acirrada na sessão de “Lançamentos”; nem a ansiedade de esperar chegar sua vez na lista de espera para alugar um filme muito concorrido; ou há mais a sensação de novidade ao assistir aos trailers que vinham obrigatoriamente antes do filme; nem mesmo o aborrecimento divertido de ter de rebobinar todos os filmes após assistir (caso houvesse devolução sem rebobinação haveria multa). Não há mais a raiva de passar a fita no videocassete e descobrir que a mesma estava “mastigada”; obrigando-nos a retornar à locadora para trocar a “fita”, ou pior, escolher outro filme, pois não eram todos os estabelecimentos que possuíam mais de um exemplar; ou, ainda, há mais a pressa de devolver o filme a tempo, visto que, se fossem entregues após o horário, também seria cobrada uma multa.

Apesar de ter trabalhado em locadora durante quase um ano, não consegui experimentar a diversão que era ser um atendente na “Era do VHS”. Exerci o ofício já durante o declínio desses estabelecimentos, quando os DVDs à venda já estavam com preços mais acessíveis e a pirataria já havia tomado uma dimensão irreversível.

Ver crianças, jovens e adultos assistindo a filmes em smartphones ou tablets, acessando um catálogo de filmes incrível, com apenas um clique, por R$ 19.90 por mês, torna meu espírito cinéfilo feliz. Feliz por ver que a sétima arte está se democratizando cada vez mais com o tempo; apesar de achar que esses equipamentos não sejam ideais para apreciar um filme. Porém nada pode mudar a concepção que tenho de que o esforço para se “conseguir” assistir a um filme, assim como o ambiente da “Era do VHS”, tornava a experiência muito mais divertida e simbólica.


Divulgaí

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