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Crítica: Ouija – A Origem do Mal

Apesar do malfadado O Sono da Morte, Flanagan também lançou esse ano o tenso Hush – A Morte Ouve. Porém, Ouija – A Origem do Mal é o melhor filme de Flanagan desde O Espelho.
Crítica: Ouija – A Origem do Mal

Confesso que não assisti a Ouija – O Jogo dos Espíritos, filme original da franquia lançado em 2014, grande parte devido as críticas lastimáveis que o filme recebeu. Porém, um fator essencial me despertou o interesse por esse prelúdio; e esse fator atende pelo nome de Mike Flanagan.

A expectativa para os novos projetos de Flanagan foi às alturas após a surpresa positiva de O Espelho, que trouxe vários temas já bastante trabalhados no cinema de terror (assombrações, possessões, objetos amaldiçoados) em uma narrativa, no mínimo, autêntica e interessante. Apesar do malfadado O Sono da Morte, Flanagan também lançou esse ano o tenso Hush – A Morte Ouve. Porém, Ouija – A Origem do Mal é o melhor filme de Flanagan desde O Espelho.

O longa se ambienta nos anos 60, acompanhando uma família composta por Alice (Elizabeth Reaser), uma mãe viúva, e suas duas filhas: a adolescente Lina (Annalise Basso, que também esteve em O Espelho) e a caçula Doris (Lulu Wilson, SENSACIONAL). A forma de sustento da família é baseada nas encenações de ocultismo que Alice realiza como “vidente”, porém, tudo muda de página quando ela adquire uma tábua Ouija e Doris começa a demonstrar um “talento nato” para se comunicar com seres do outro plano.

Trazendo créditos iniciais, e a própria abertura da Universal Pictures, com as fontes clássicas e nostálgicas da época, Flanagan já evoca desde o início o clima de nostalgia de filmes de terror do período, como O Bebê de Rosemary e Desafio do Além. Interessante também é o cuidado que Flanagan teve para implementar as famosas “marcas de cigarro” na imagem (círculos desenhados no canto superior da película para sinalizar a troca de rolos de filme). A ótima fotografia de Michael Fimognari, em leve tom rusted, unida ao design de produção de Patricio M. Farrell, que explora tons pastéis, auxiliam na criação desse clima de época, tornando a experiência mais imersiva.

Embora não tenha a profundidade dos clássicos citados, Ouija - A Origem do Mal ao menos possui a inteligência de seguir coerentemente o arco dramático da família e contextualizar os personagens na ingenuidade da época, já que Flanagan faz questão de colocar várias referências às primeiras missões à lua. A emoção do filme vem muito da importância que damos aos personagens, consequente das boas atuações.

Elizabeth Reaser (A Saga Crepúsculo) demonstra apreço delicado pelas filhas (os olhares tenros quando descobre a comunicação de Doris com o mundo sobrenatural é de partir o coração), tornando a personagem empática mesmo quando concluímos que ela se tornou negligente em relação aos estudos da filha caçula em prol do trabalho que realizam juntas. Já Annalise Basso (Capitão Fantástico) tem a proeza de tornar emocionalmente complexa uma personagem que poderia facilmente se tornar o estereótipo da adolescente rebelde, transmitindo com talento a evolução pela qual sua personagem passa durante os acontecimentos.

No entanto, o GRANDE destaque do filme vai para a jovem Lulu Wilson (Livrai-nos do Mal). Desde a doçura de uma inocente criança até a malignidade de uma encarnação nefasta, passando por momentos de catatonia, as emoções criadas por Wilson são de uma credibilidade admirável. O modo como a jovem atriz utiliza seus grandes olhos cria expressões impactantes justamente por nos intrigar sobre o que se passa ali por trás, sendo responsável por muito da ameaça, e medo, que sentimos naquela situação.



Assim como os recentes Invocação do Mal e Anabelle, Ouija – A Origem do Mal possui alguns momentos de horror genuínos criados a partir da inteligência do diretor em dar valor à economia. Flanagan consegue manipular nossas emoções simplesmente ao montar algumas cenas de um modo contrário ao que esperaríamos (como ao criar um longo plano que se fecha gradativamente no rosto de Doris durante um macabro monólogo sobre estrangulamento; ou ao realizar inesperados cortes para enfocar a observação da mesma personagem acerca do que ocorre ao seu redor).

Além disso, alguns planos de Flanagan nos remete a Hitchcock, como ao focalizar dois personagens, ou acontecimentos, distantes um do outro, porém, no mesmo ambiente, para criar tensão (a cena com Doris e Mikey no porão é um exemplo).

Utilizado como referência óbvia (reparem no pôster de Janela Indiscreta no quarto de Lina), os ensinamentos de Hitchcock também são seguidos por Flanagan na utilização do som e da trilha sonora, já que o diretor demonstra conhecer o valor do silêncio para criar uma atmosfera de terror e expectativa. E mesmo quando cria alguns jump scares, ao menos Flanagan utiliza sons diegéticos para criar tal efeito, como um ranger de madeira ou o suspiro de algum personagem, tornando o susto mais orgânico que poderíamos esperar.

Flanagan não utiliza apenas referências a Hitchcock, como também incrementa passagens do filme com lembranças a outras obras clássicas de uma forma que funcionará perfeitamente para o público geral, mas será um deleite para os fãs. Se o plano do Padre Tom em frente à casa dos Zander é uma alusão clara ao plano do Padre Merrin chegando na residência dos MacNeil em O Exorcista, os acontecimentos no porão durante o terceiro ato do filme nos remete a alguns momentos do cinema de horror de Sam Raimi.

E se a trilha sonora evoca tons de Poltergeist – O Fenômeno no momento de descoberta da mediunidade de Doris, os olhos brancos incorporados aos possuídos nesse filme traz um toque assustador do cinema de terror italiano dos anos 70 e 80, como em Terror nas Tevas.

Com uma conclusão satisfatória, Ouija – A Origem do Mal é mais um bom exemplar do gênero suspense/terror estreado em 2016; ano que já nos presenteou com filmes mais modestos, porém eficientes, como Hush – A Morte Ouve (lançado em home vídeo e streaming) e O Homem nas Trevas; filmes-evento como Invocação do Mal 2 e Quando as Luzes se Apagam, ou até filmes mais instigantes como O Demônio Neon e o insuperável A Bruxa.


8
Divulgaí

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