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Crítica: O Bom Gigante Amigo

Alguns podem argumentar que é um filme para crianças, por isso elas não se impressionam quando vêem algo fora da realidade. Mas não é bem assim.
Crítica: O Bom Gigante Amigo

Talvez você conheça o trabalho do escritor galês Roald Dahl e nem saiba, pois várias obras suas foram adaptadas para o cinema, e apesar do grande alcance de público de seus filmes, o nome dos diretores dos filmes é que costuma cair na boca do povo, e não o do seu criador. Alguns exemplos de suas obras adaptadas são "A Fantástica Fábrica de Chocolate", "Matilda", "O Fantástico Sr. Raposo" e a mais recente, que será lançada essa semana pelos estúdios Disney: "O Bom Gigante Amigo".

O filme marca o retorno da parceria de Steven Spielberg com o mestre compositor John Williams e com a roteirista Melissa Mathison - a roteirista colaborou pela última vez com o lendário diretor no filme E.T., o Extraterrestre (1982). Nos créditos finais há uma homenagem à Melissa, que faleceu em novembro do ano passado aos 65 anos.

Vale lembrar que já houve uma adaptação da história em 1989, na animação "Elfy, O Duende Que Caiu do Céu", dirigida por Brian Cosgrove. Segundo o próprio diretor, ao final da exibição para Roald Dahl, o escritor se levantou e aplaudiu de pé (Dahl faleceu apenas um ano após o lançamento do filme). O que nos faz pensar se, após ver esta nova versão, será que o autor teria essa mesma atitude?

O filme conta a história de Sophie (Ruby Barnhill), uma garotinha bastante curiosa que vivia em um orfanato em Londres. Certo dia, ao espiar pela janela do seu quarto à noite, Sophie vê um gigante (Mark Rylance) andando pela rua, e mesmo tentando disfarçar que não o viu, acaba sendo sequestrada por ele e levada para a Terra dos Gigantes. Logo a garota descobre que o gigante é bondoso, muito diferente dos outros comedores de criancinhas que lá habitam.

"O Bom Gigante Amigo" apresenta sua protagonista como uma menina sonhadora e responsável, que cuida das outras crianças e de algumas tarefas no orfanato. Há uma delicadeza na construção das primeiras cenas, que aliada a um ritmo lento e a duração dos planos ligeiramente mais longos que de costume, remetem bastante a um estilo de cinema "clássico", muito diferentes das animações infantis dinâmicas que temos hoje em dia. Nesse sentido, o filme se destaca bastante ao estabelecer um mundo de fantasia como poucos, e isso é resultado da experiência e do conhecimento de gênero que a direção de Steven Spielberg traz para o filme.

Enquanto Spielberg explora muito a câmera no rosto da garotinha Ruby Barnhill, talvez na tentativa de fazer o espectador criar empatia com a personagem através da sua aparência bastante meiga, a jovem atriz parece sentir o peso de sua estréia no cinema, sem conseguir passar o carisma suficiente para sustentar o peso do protagonismo. Já Mark Rylance é beneficiado pela ótima captação de movimentos do filme e entrega uma atuação bem interessante no papel do ingênuo BFG (o bom gigante amigo).

Mas infelizmente, nem os efeitos visuais impressionantes, nem a contribuição do ator (que recentemente venceu Sylvester Stallone pela disputa do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), são suficientes para tornar a história de "BFG" divertida e fascinante. Após o encontro de BFG com Sophie e a chegada à Terra dos Gigantes, o ritmo do filme poderia aumentar um pouco para trabalhar melhor com as emoções do espectador. Da forma como tudo é apresentado, as cenas não causam impacto, sendo que deveriam, pois há um choque de mudança do universo real para o de fantasia muito grande naquele momento.



O roteiro também é algo confuso, pois não há motivações claras para nenhum dos personagens, fica tudo muito subentendido. Por mais que saibamos que a garota é curiosa e corresponda ao arquétipo de personagem que gosta de ajudar aos menos favorecidos (como fazia no orfanato), e que o gigante é diferente dos outros de sua espécie por ser menor, bonzinho e lhe faltar confiança, a relação de amizade entre os dois acontece de forma muito rápida e não convence. Para alguém que foi levado para uma terra estranha contra sua vontade e por uma criatura até então assustadora para os padrões humanos, Sophie não passa intensidade alguma nas suas emoções.

Alguns podem argumentar que é um filme para crianças, por isso elas não se impressionam quando vêem algo fora da realidade. Mas não é bem assim. A cadência do filme extremamente lenta, cansa até o público infantil em menos de uma hora de filme, porque pouco acontece e a trama vai se tornando cada vez mais desinteressante. A falta de elementos engraçados também não ajuda nesse sentido, por mais que um filme de fantasia não seja necessariamente uma comédia, ele precisa ser divertido em algum momento, e tirando uma outra piada com o jeito engraçado de BFG falar, há pouquíssimo que realmente tire um sorriso verdadeiro do espectador.

Mesmo quando os gigantes maus surgem na trama, fazendo o papel de vilão no filme, até porque adoram comer criancinhas, não há tensão alguma nas cenas, onde o próprio filme já se encarrega de anular o perigo que os gigantes representam. Por exemplo, há uma cena onde os gigantes começam a quebrar um lugar inteiro atrás da garotinha, e depois de uns cinco minutos um personagem reage e expulsa os cinco ou seis vilões de uma forma absurda, completamente "boba" e sem graça.

Outro ponto "negativo" do ponto de vista de filme infantil (do ponto de vista artístico, acaba sendo algo positivo, como vou dizer mais à frente) é uma sequência onde a garota coleta sonhos com o gigante, que é o seu trabalho. São aproximadamente dez minutos de cena, com um ritmo extremamente modorrento, desanimado. Considerando ser um filme da Disney, que naturalmente mira em "grandes públicos", as crianças começam a ficar impacientes e os adultos começam a bocejar a essa altura, torcendo para acontecer alguma coisa de interessante.

Assim como a falta de química entre a criatura e a criança, que nem parece estar sendo dirigida por alguém como Spielberg, a trilha sonora de John Williams é algo bastante diferente dos grandes temas românticos que ele costuma compor, e por sua vez, uma das trilhas mais sem graça do ano. Talvez possa estar falando aqui um pouco da resistência que nós temos quando algum músico tenta arriscar um estilo de música diferente da qual estamos acostumados, mas a impressão que fica é que a trilha contribuiu diretamente para que a trama se tornasse tão maçante, aliada aos planos excessivamente longos que tinha mencionado anteriormente.

Quando parece que o filme está se encaminhando para o final, depois de toda a trama apresentada de forma completamente apática, para a surpresa de alguns (como a minha), ainda há mais meia hora de filme! E aí o tom muda completamente, passamos a ter um filme de comédia pastelão, que envolve a Rainha da Inglaterra. A qualidade do humor nessa última sequência é tão questionável, que acaba tendo duas funções: a primeira é um riso "desesperado" do espectador que quase foi colocado para dormir uma hora e meia antes e realmente precisava disso para "acordar", e a outra é que esse tipo de humor baixo e escatológico, já foi feito há 30 anos com Leslie Nielsen em "Corra Que a Polícia Vem Aí", e nunca iríamos imaginar que Steven Spielberg precisaria fazê-lo a essa altura da sua carreira...

Portanto, "O Bom Gigante Amigo" pode ser visto de duas formas diferentes. Como um filme de arte, de fantasia na sua mais pura essência, é um trabalho esteticamente muito bonito e até fiel à sua obra original, apesar dos elementos mais intensos da história terem sido retirados (como a carga dramática de tensão e a ameaça que os gigantes carnívoros deveriam representar). Mas uma produção de 140 milhões de dólares, vinda de um estúdio como a Disney e feita por um dos melhores diretores para público infanto-juvenil da história do cinema, o filme deixa muito, mas muito a desejar. Por conta do seu ritmo lento demais, um elenco que não se encontrou pela falta de experiência e carisma de sua protagonista e outros pontos aqui apresentados, "BFG" é provavelmente o pior filme da carreira do incrível rei dos blockbusters.

Divulgaí

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