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Crítica: A Lenda de Tarzan

Mesmo com todos os problemas aqui apresentados, ainda pode agradar boa parte do público médio, que procura um entretenimento bem descompromissado e casual, mas, para os cinéfilos que já viram todo o tipo de filme
Crítica: A Lenda de Tarzan

A história de Tarzan não é estranha a maioria das pessoas. O cinema já a explorou várias vezes (desde 1921, em "As Aventuras de Tarzan") e de formas diferentes, pois além do live action tradicional, tivemos animações em 2D e 3D, por exemplo. Mas não pensem que esta nova versão, dirigida por David Yates (diretor dos quatro últimos filmes da saga Harry Potter), terá alguma conexão com a mais popular trama do "homem da selva", a animação da Disney de 1999.

Em "A Lenda de Tarzan", o protagonista (Alexander Skarsgard) vive em Londres e já está completamente "civilizado", vivendo como John, o Lorde de Greystoke, acompanhado do amor da sua vida, Jane (Margot Robbie). Entretanto, a convite do Rei Leopoldo e de seu futuro ajudante, o ex-militar George W. Williams (Samuel L. Jackson), Tarzan precisa retornar a selva para investigar uma denúncia de escravidão no coração do Congo, local onde fora criado. E é aí que ele descobre que na verdade, tudo era uma armação do perigoso Leon Rom (Christoph Waltz), um homem atrás de poder e dos diamantes da região.

O filme tem pontos positivos, como a tentativa de mostrar elementos da história pouco explorados antes, como a relação de Tarzan com os homens comuns e a forma como ele e Jane enxergam o lugar onde foram criados (a selva), estando distantes de lá. Fugindo da tradicional discussão do conflito entre o homem e o selvagem, a ideia de que os nativos, com os quais Jane cresceu (e insistentemente quer voltar para vê-los), estão sendo escravizados, além de ser um tema relevante, porque ao menos toca em um assunto "importante", coisa que a maioria dos blockbusters ignora completamente hoje em dia, também é interessante porque serve como uma motivação até plausível para que o herói retorne a sua terra natal.

Mas a forma como a sequência é construída já é em si problemática, pois Jane (muito provavelmente por conta do momento atual de empoderamento feminino), que nos dois terços finais do filme vai se mostrar uma personagem "forte" e "rebelde", cheia de frases de efeito afiadas sempre na ponta da língua, convence o marido de que precisa retornar aquele lugar extremamente perigoso, por meio de uma "birra" e ainda vai ter um papel no filme que se limita a ser o prêmio, a motivação para Tarzan ir atrás do vilão Leon Rom.

Ou seja, no roteiro há essa contradição que é querer dizer uma coisa, mas mostrando outra, como aquela pessoa que ri de uma piada sem graça apenas para não deixar quem está contando desconfortável, a boca parece se divertir, mas os olhos revelam a verdade. E o espectador com um senso mais crítico, que vai assistir ao filme com a intenção de suspender a descrença e acreditar naquela história, logo percebe que o roteiro irá sempre usar os personagens em situações oportunistas para desenvolver sua história, diminuindo muito sua capacidade em ser surpreendido com o filme.

Além disso, para desfrutar de "A Lenda de Tarzan", o espectador tem que estar com muita, mas muita boa vontade para relevar os furos no roteiro ou problemas que o filme tem. Realmente é um grande teste, a não ser que em determinado momento a pessoa abandone seu senso crítico e aceite qualquer coisa que venha pela frente.

Alguns exemplos menores, que não chegam a ser considerados spoilers: quando Leon Rom chega a uma tribo de nativos bem "hardcore" (não são os amigáveis, que vivem nas aldeias), o chefe conversa em inglês com ele. Tudo bem, vamos considerar que o filme todo fale em inglês, sem problemas. Mas não é bem assim. Quando Tarzan e sua turma chegam à tribo civilizada que eles conhecem, no início eles conversam em inglês, mas em determinado momento, começam a falar em um dialeto africano, ou seja, qual a necessidade disso?



Ao longo do filme, o diálogo é extremamente expositivo, chegando ao ponto do vilão contar todo seu plano a um personagem de maneira completamente desnecessária, sem falar em situações que "tiram" o espectador várias vezes do filme, como a fantasia de onça do chefe de uma tribo (Djimon Hounsou), que visivelmente é de pano, jamais aquilo se parece com o couro de uma onça de verdade.

Ou por que os vilões têm rifles em suas costas e vão trocar socos com Tarzan, muito mais forte e, diga-se de passagem, praticamente um super-herói, que nunca parece estar em perigo, portanto, o espectador deixa de se importar com sua vida, porque sabe que nada vai acontecer. Pelo menos aprendemos uma coisa: se você for um vilão em um filme e já tiver alcançado seu objetivo, deixe a mulher do herói para trás, não leve com você não, pois pode acontecer de ele querer ir atrás dela e acabar com seus planos!

Quanto à contribuição do elenco, Skarsgard fisicamente convence como um Tarzan moderno, mas lhe falta carisma para interpretar o personagem (o que é curioso, pois fora das câmeras, o ator é super simpático...). E também curiosamente, há pouco para se falar sobre sua atuação, até porque o filme trata todos os personagens de forma muito unidimensional. Robbie, Waltz, L. Jackson e Hounsou também têm papéis muito claros no filme - a primeira é o "prêmio", motivo do resgate; o segundo é o vilão; o terceiro é o alívio cômico e o quarto um antagonista, que vai dificultar as coisas para Tarzan. A química entre o casal principal não convence, assim como nem todas piadas de Samuel L. Jackson funcionam, embora ele seja uma das poucas coisas realmente divertidas ao longo das quase (desnecessárias) duas horas de filme.

O vilão que Christoph Waltz entrega, parece ser uma coletânea de momentos anteriores na sua carreira (como no desconfortável jantar com Jane, por exemplo, que lembra a refeição com Melanie Laurent em Bastados Inglórios, mas com tensão e nível de ameaça "zero" desta vez). Vítima do fraco roteiro, Waltz ainda consegue dar credibilidade à motivação do seu personagem, mas é traído pela própria inconsistência da escrita dele, onde no início do filme ele não ordena um tiroteio desnecessário (apesar de ter sido ignorado pelos assustados companheiros de crime), mostrando ser um homem frio e calculista, mas em cenas posteriores mata desnecessariamente o chefe de uma tribo, e como eu já mencionei, sequestra Jane já tendo alcançado seu objetivo...

Mas talvez o pior de "A Lenda de Tarzan" seja a direção de David Yates. A quantidade de closes exagerados (não apenas no rosto do herói-galã, mas em seu abdominal trincado e até no seu... mamilo? Sério, close no mamilo?), movimentação de câmera desnecessária, como um traveling em 360 enquanto Tarzan conversa com George Washington, para dar uma sensação de tensão, mas que os atores não estão demonstrando no momento, ou nas cenas de ação praticamente impossíveis de acompanhar com os olhos, pois parecem querer camuflar a fraca coreografia dos movimentos.

Há uma cena em que a estética remete bastante a "300 (2006)", inclusive no slow motion, mas a coreografia da batalha não chega aos pés. E, para concluir, tudo bem que o filme tem a questão da classificação indicativa, que impede mostrar muita violência, então qual a finalidade de dar um tiro proposital e arrancar a orelha de alguém, se você não vai mostrar a reação de dor do coitado, ele vai ficar apenas olhando com cara de paisagem? Reflitam...

Portanto, "A Lenda de Tarzan" se mostra um filme completamente desnecessário. Muitos estão elogiando sua qualidade estética e efeitos visuais, mas em minha humilde opinião, é o mínimo que podemos esperar em pleno 2016, com o dinheiro e recursos tecnológicos disponíveis aos estúdios. Melhor seria ter investido muito mais em história, que tal, só para variar?

Mesmo com todos os problemas aqui apresentados, ainda pode agradar boa parte do público médio, que procura um entretenimento bem descompromissado e casual, mas, para os cinéfilos que já viram todo o tipo de filme, e que desenvolveram um senso mais crítico de como apreciar uma obra, é total perda de tempo. Não só em termos de envolvimento emocional com o interessante personagem do livro de Burroughs, mas como aventura como um todo, a animação da Disney ainda é muito superior a todas as outras versões já realizadas.

Divulgaí

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