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Trama Alternativa | “Demon”, de Marcin Wrona

Demon não é um filme para todos os gostos. A falta de sustos fáceis, exorcismos esquizofrênicos e, principalmente, de um grand finale pode incomodar o espectador médio

Com a intenção de diversificar seu conteúdo, o Loucos por Filmes apresenta uma nova seção voltada para filmes alternativos. E o que são filmes alternativos? Ora, aqueles filmes que são feitos sem a benção dos grande$ estúdios e, por isso, têm uma maior liberdade artística e mais espaço para ousar e, desta forma, têm menos publicidade na mídia.  

Nossa coluna trará informação, críticas e indicação de filmes que, certamente, você não assistirá com sua família numa tarde de domingo. Cinema experimental, existencial, marginal e tantos outros als que caibam num texto para vosso deleite.

Bons filmes!

Demon” | Terror | Polônia/Israel (94 min).



Não é de hoje que o cinema polonês nos brinda com obras inquietantes, originais e estranhas. De lá vieram: Kieślowski, Zulawski e Polanski. Mestres reverenciados mundialmente, que, no entanto, tem esse olhar voltado para o estranhamento, para o bizarro e o inusitado. Não sei se é a água de lá, ou a história violenta desta pátria, primeiramente invadida pelos nazistas e depois pelos russos que influenciou essa tendência vista nos seus filmes. O certo é que os caras são mestres nisso.

Demon, filme do realizador polonês Marcin Wrona se insere nesta tradição com louvor. No filme acompanhamos a chegada de Piotr (Itay Tiran), um engenheiro inglês prestes a casar-se com Zaneta (Agnieszka Zulewska). O rapaz encontra uma ossada humana no quintal do seu futuro lar e a partir daí um clima sórdido começa a envolvê-lo.

Ele começa a ter estranhas visões e delírios, perde misteriosamente sua aliança, aparece com as mãos sujas de terra e começa a ver um fantasma em plena festa do casamento. O clima na festa é surreal, repleto de um humor absurdo e cruel. As pessoas bebem o tempo todo, Piort delira e convulsiona, o pai da noiva, preocupado com as aparências, dá as explicações mais esfarrapadas, todas pautadas na lógica para tudo que está acontecendo e uma chuva incessante realça o clima claustrofóbico do filme. Pois é... festa estranha com gente esquisita.

As qualidades do filme desfilam aos olhos. O roteiro obscuro e cheio de incertezas transita de maneira competente entre estilos. Temos drama, comédia e horror mostrados de maneira bem encaixada. A trama alegórica e aberta desafia estruturas convencionais e valoriza a inteligência de quem vê. O elenco também contribui de maneira decisiva para o resultado final do filme, Itay Tiran constrói uma personagem memorável.

Sua modificação de rapaz empolgado e apaixonado para possuído é visceral e dolorosa, como também é notável a dualidade presente na persona de Agnieszka Zulewska. Toda alegria da noiva é afogada pelo terror e decepção presente nos seus gestos. A Trilha sonora soturna utiliza Krzysztof Penderecki, ficha certa em filmes de terror, como já foi visto em “O Iluminado” do Kubrick e “O Exorcismo” do Friedkin. A fotografia estilosa utiliza de tons sólidos para acentuar atmosfera lúgubre. Destaque para as belíssimas cenas fotografadas à noite embaixo de chuva.

O filme ainda conta com uma aura macabra, pois Marcin Wrona se preparava para a première polonesa de sua obra quando cometeu suicídio por enforcamento, dando um status cult e promovendo espontaneamente o filme mundo afora.

Demon não é um filme para todos os gostos. A falta de sustos fáceis, exorcismos esquizofrênicos e, principalmente, de um grand finale pode incomodar o espectador médio. Mas se você acha que obras de arte existem para nos inspirar, suscitar dúvidas e nos levar a pensar, vai na fé. Esse filme é para você!

Divulgaí

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