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Crítica: Rock em Cabul

Mesmo com alguns bons momentos e um início interessante, "Rock em Cabul" não consegue se sustentar por muito tempo por conta do seu frágil roteiro

"Rock em Cabul" é um filme modesto, de orçamento pequeno, mas recheado de estrelas, a começar pelo seu diretor Barry Levinson - vencedor de um Oscar e indicado a mais cinco estatuetas - e seu protagonista, o ícone máximo da comédia no cinema Bill Murray. Outros nomes conhecidos como Bruce Willis, Zooey Deschanel e Kate Hudson também estão no filme. Uma curiosidade é que o título original do filme (Rock the Casbah) referencia a canção punk da banda The Clash, que conta a história de um Rei que bane o rock da região porque ele estimularia o povo a se "rebelar". A canção, por sua vez, foi inspirada no banimento da musica ocidental no Irã no final dos anos 70. Vale mencionar que a música não entra na história (há apenas uma referência que Bill faz com sua filha durante o filme), mas vamos falar de "Rock em Cabul", que é o que importa não é mesmo?

Bill Murray interpreta o agente musical decadente Richie Lanz, que passa o tempo todo se gabando do sucesso no passado, mas na verdade só consegue sobreviver se aproveitando da ingenuidade dos seus péssimos clientes atuais. Com exceção de Ronnie (Zooey Deschanel), sua única estrela e que ainda acredita que pode gravar suas próprias músicas, mas é usada por Richie para cantar covers em bares durante a noite por alguns trocados. Até que Richie fica sabendo de uma turnê organizada pelo exército norte-americano. Perfeito, não? Exceto pelo fato de que a turnê será realizada em Cabul, parte do Afeganistão ocupada pela Guerra.

Apesar da manjada história de um personagem que começa o filme se aproveitando dos outros e passa a ter uma transformação na forma de agir ao longo da narrativa, o filme se aproveita dessa onda atual de reality shows musicais e também toca no ponto da quebra de paradigmas, como o da falta de igualdade entre os gêneros, e onde encontrar um lugar melhor para abordar esse tema, senão nas raízes do fundamentalismo sociorreligioso encontrado em Cabul? Agora, se a direção de Levinson consegue tornar essa importante discussão em algo relevante, é uma outra história.

Mas a culpa pela superficialidade dos temas abordados não é apenas da direção de Levinson, o maior peso por esse problema do filme vai para o roteiro de Mitch Glazer - que volta a trabalhar com Bill Murray desde sua estreia no cinema com o roteiro de "Os Fantasmas Contra-Atacam (1988)". Mesmo com um começo muito bom, com Murray logo na primeira cena mostrando seu humor característico (aquela expressão séria que ele faz como poucos, mas que tem um ar debochado e cômico) e de conseguir sintetizar bem a personalidade de Richie já nos primeiros minutos, podendo assim se concentrar muito mais no desenvolvimento e resolução da história, o roteiro já demonstra certa previsibilidade (através dos diálogos e algumas ações de Richie), construindo uma trama de redenção para o personagem.

A atmosfera do filme e o tom sarcástico que ele vai construindo lembram bastante algumas sátiras como "Trovão Tropical (2008)", por exemplo. Mas o humor não é tão afiado a ponto de gerar cenas memoráveis e de fazer gargalhar como o outro filme mencionado faz habilmente. E infelizmente, também não é tão provocativo a ponto de "por o dedo na ferida" e fazer com que as pessoas mudem sua visão sobre os assuntos mais fortes que o filme toca. Vale lembrar que isso é recorrente em toda a carreira de Barry Levinson.

O que eu gosto muito nele é que na maioria dos seus filmes, ele sempre conseguiu falar de temas relevantes como minorias e assuntos polêmicos, acertando bastante em alguns trabalhos, como "Rain Man (1988)" e "Sleepers (1996)", ou de uma forma mais branda, porém não menos importante, como em "Assédio Sexual (1994)" e "Bom Dia Vietnã (1987)". Mas aqui em "Rock em Cabul", é uma pena que o diretor não encontre uma forma de expressar a questão da luta pela igualdade de gêneros de uma forma convincente, pois muito do que acontece é improvável e a trama não tem um senso de plausibilidade que faça o espectador acreditar.

O elenco era bastante promissor, com Bruce Willis interpretando um oficial do exército, Zooey Deschanel e Kate Hudson, que voltam juntas a um filme de tema musical desde o ótimo "Quase Famosos (2000)" - aliás, as duas atrizes são amigas desde que estudavam juntas no colégio - apesar de não contracenarem juntas no filme. Os pirados Jake e Nick (Scott Caan e Danny McBride, respectivamente), também estão em papéis que costumam representar muito bem nos filmes, além da palestina Leem Lubany, que interpreta Salima, uma estrela improvável que Richie encontra enquanto esteve no Afeganistão. Se todas as peças estavam nos lugares certos e mesmo assim o filme não funcionou, provavelmente o maior responsável por isso tenha sido o fraco roteiro de Glazer. Talvez o principal motivo que consiga segurar o espectador até o final seja o carisma de Bill Murray e sua dedicação no papel.

Se "Rock em Cabul" tem algo de bom é a trilha sonora. A seleção de músicas é excelente e quando o filme foca na veia musical da trama, as melhores cenas surgem, como uma em que Murray toca "Smoke on the Water" em um instrumento de cordas lá da região. Tem um pouco de Shakira também e as canções do programa 'Afghan Star' (uma espécie de 'Ídolos' do país) são boas, incluindo "Wild World" de Cat Stevens. A reconstituição dos cenários de guerra em Cabul é bem convincente, parece mesmo um local decadente, onde como o filme sugere algumas pessoas vão para lucrar com a Guerra.

Então o filme encontra uma expressão visual muito boa, com figurinos muito bons e cenários diferentes. Destaque para a paleta de cores empregada pelo diretor de fotografia Sean Bobbitt (de "12 Anos de Escravidão", 2013), que consegue fazer o espectador se sentir realmente no Afeganistão, talvez utilizando como base principal uma escala de harmonia análoga, ou seja, cores que combinam entre si dentro da escala, são agradáveis aos olhos e transmitem essa sensação de realidade, porque são cores que se ajustam à natureza do ambiente.

Mesmo com alguns bons momentos e um início interessante, "Rock em Cabul" não consegue se sustentar por muito tempo por conta do seu frágil roteiro. Barry Levinson tenta trabalhar em cima do carisma do seu bom elenco, mas algumas decisões são mal trabalhadas, como o taxista que acompanha Richie por todos os lugares, mas na verdade é só para ser uma espécie de tradutor para o protagonista e o final bastante atropelado, onde as coisas parecem se resolver magicamente. Para os fãs de Bill Murray, talvez valha a pena, pois ele é a melhor coisa do filme disparado. Mas mesmo se tratando de uma produção pouco ambiciosa, o filme não funciona nem como comédia e nem como sátira tocando nos pontos importantes que tentou abordar.
Divulgaí

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