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Crítica: Jogo do Dinheiro

O saldo final de "Jogo do Dinheiro" é de um filme inofensivo, um mero placebo do thriller tenso e da crítica socioeconômica que prometia durante sua divulgação. A sátira que faz em alguns momentos é interessante, mas o humor
Crítica: Jogo do Dinheiro

Não é de hoje que Hollywood utiliza o cinema como forma de crítica a determinado assunto. Talvez isso seja bastante explorado pela relativa autonomia que o cinema tem como arte, que possibilita "cutucar feridas" por meio de várias formas possíveis, através da sua linguagem audiovisual (em forma de sátira, com um apelo mais dramático, "baseado em fatos reais", etc.). Até porque, como já dizia o filósofo e escritor Umberto Eco (do livro "O Nome da Rosa"), é possível utilizar um filme com o intuito de analisar uma sociedade.

"Jogo do Dinheiro", nova produção dirigida pela grande atriz e diretora iniciante Jodie Foster, conta a história de um jovem chamado Kyle Budwell (Jack O'Connell), que perdeu muito dinheiro após um colapso econômico de 800 milhões de dólares que aconteceu com uma empresa, da noite para o dia, sob a alegação de um problema com o algoritmo que cuida dos números nesse tipo de investimento. Revoltado, Kyle invade ao vivo o programa sobre economia e finanças do apresentador "showman" Lee Gates (George Clooney), com a intenção de sequestrá-lo no ar e conseguir respostas do que aconteceu de verdade, enquanto a produtora do programa Patty Fenn (Julia Roberts) tenta acalmar a situação até que a polícia comece a negociação.

Dentro desta proposta de "escancarar" o problema em rede nacional, em busca de uma comoção popular em cima do assunto abordado, o filme se distancia de obras teoricamente similares, como o clássico "Rede de Intrigas (1976)" ou o mais recente "A Grande Aposta (2015)" - onde a crítica acontece de forma mais íntima, nos bastidores de onde ocorre o conflito - e vai de encontro a obras mais populares (em termos de conhecimento do público geral), como "Por um Fio (2002)" e "O Plano Perfeito (2006)", por exemplo.

O roteiro do filme ficou marcado por ter entrado na Blacklist de 2014 (aquela lista de filmes que eram muito aguardados pela indústria, mas não conseguiram ser produzidos). Entretanto, Jodie Foster demonstra que ainda falta peso e personalidade no seu estilo de direção para um filme como este, porque isso é necessário para que o tema e seus personagens ganhem relevância e tornem o drama plausível ao espectador.

Há aspectos muito bem utilizados pela diretora, como o personagem de Clooney ser aquele apresentador que ganha audiência por seu estilo polêmico e pelas bizarrices que faz no palco, mas que a bem da verdade é uma pessoa que não tem domínio sequer do que está apresentando todos os dias, e para ele tudo bem, contanto que o cheque seja depositado no final do mês. Com isso, o filme lida de forma bem divertida, com a questão da responsabilidade da mídia para com seu público.



Outro ponto positivo é que durante o desenvolvimento da história, ou seja, entre a apresentação dos personagens e a resolução da trama, o filme tem méritos ao reverter algumas expectativas do espectador, com algumas tiradas engraçadas e tomando algumas decisões surpreendentes, como quando a namorada de Kyle entra na história (não é spoiler, está no trailer do filme). O ritmo do filme também é bastante ágil e com um didatismo na medida certa, sendo que esse elogio para edição do filme pode ir para a conta do montador indicado ao Oscar Matt Chesse.

Mas "Jogo do Dinheiro" peca bastante em vários aspectos, que eu insisto, são decorrentes da direção um tanto relapsa de Foster. Com todo respeito aos que compraram o conflito do filme como algo "real", mas a direção não oferece solução realista para praticamente nenhum dos problemas abordados. A começar pela invasão de Kyle ao estúdio, a questão do ponto auricular que qualquer pessoa no mundo que já viu televisão sabe que um apresentador utiliza, a negociação entre as partes também não funciona (porque oferecer dinheiro a uma pessoa que comete um crime em rede nacional? Será que alguém pensou que ele iria sair ileso depois de tudo aquilo com aquele dinheiro?).

Todos esses detalhes que parecem fáceis de serem relevados, na verdade enfraquecem muito a proposta do filme.  Se as soluções são irreais, não há risco. Se o espectador não sente o risco, não há tensão, o que num thriller de crime com uma boa carga dramática que o filme tenta expressar é um tiro no pé. Ou se faz uma sátira e capricha no humor para exibir um filme mais leve e descontraído, ou se apega ao tema relevante e se empenha na busca por respostas e soluções realistas para o problema apresentado. O meio termo, como é o caso neste filme, é decepcionante, até pelo fato dos talentos icônicos envolvidos no projeto.

No campo das atuações, mais uma vez George Clooney acerta no tom do personagem e entrega uma atuação acima da média em comparação ao restante do elenco. A querida Julia Roberts, infelizmente é uma personagem unidimensional que tem um papel claro de contrapor a personalidade de Clooney, e tem um dilema bastante previsível no seu arco dentro do filme. Já Jack O'Connell, pelo papel fundamental que tinha, entrega uma atuação indefensável.

Seu posto de ameaça, de antagonista não convence em momento algum, não consegue ajudar a motivação do seu personagem parecer real (pois suas decisões são bem estúpidas), com um sotaque para parecer um cara "normal", das ruas, mas mesmo com uma arma na mão, seu nível de ameaça é risível. O curioso é que o próprio filme enfraquece o poder do personagem, tornando sua motivação completamente confusa, do meio para o final.

O saldo final de "Jogo do Dinheiro" é de um filme inofensivo, um mero placebo do thriller tenso e da crítica socioeconômica que prometia durante sua divulgação. A sátira que faz em alguns momentos é interessante, mas o humor não é tão inspirado para fazer o espectador gargalhar. A direção de Jodie Foster é sem personalidade, deixando os atores reféns de personagens rasos e as soluções encontradas pelo filme não convencem. Pode agradar boa parte do público pelos grandes nomes no elenco e por funcionar como entretenimento casual, mas é um filme completamente esquecível e que entra para a extensa galeria de filmes que poderiam ter sido muito mais do que realmente foram.


Divulgaí

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