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Crítica #2 | A Garota do Livro

"A Garota do Livro" não é um filme espetacular, mas é bem eficiente dentro do que propõe. Sem dúvidas é um filme "de personagem" e tanto a atriz como a protagonista que ela interpreta são os motivos que tornam o filme interessante
Crítica #2 | A Garota do Livro

Em meados de 2013, uma produção independente começou a reunir fundos para realizar o filme "A Garota do Livro". A própria diretora estreante Marya Cohn, inclusive, começou uma campanha no Kickstarter para arrecadar mais dinheiro junto ao público, apresentando um breve resumo da história e introduzindo a protagonista Emily VanCamp da série "Revenge" e da franquia "Vingadores", da Marvel, se aproveitando do seu carisma e relativo sucesso junto aos fãs.

Felizmente, o projeto deu super certo e o filme chega aos cinemas do Brasil esta semana. Na história, que se passa em Nova York, Alice (Emily VanCamp) é uma aspirante a escritora se sentindo sem propósito na vida, pois não consegue inspiração para escrever seu livro e se sente desvalorizada na renomada editora de livros em que trabalha. Quando descobre uma escritora iniciante que pode vir a ser um novo talento da literatura, seu chefe decide antecipar o relançamento de um livro que vai obrigá-la a enfrentar um fantasma do passado.

Um fato interessante sobre o filme é que a diretora e roteirista Marya Cohn consegue abordar temas contemporâneos e relevantes dos pontos de vista comportamental e psicológico, sem tornar a trama pretensiosa e "pesada". Tanto Alice como sua mãe são exemplos de mulheres que têm talento, mas são subjugadas por presenças masculinas mais fortes, como um marido ou um chefe, resultado de um histórico machista nesses tipos de relações. O legal é ao demonstrar isso de forma menos direta, o filme possibilita uma discussão posterior sobre os temas abordados - além de se conectar pessoalmente com algum espectador que se sinta representado por uns dos personagens - e ainda sim continua sendo atrativo para o grande público e aquelas pessoas que buscam apenas um entretenimento dentro do gênero.

O roteiro merece elogios por não cair nos clichês do gênero, especialmente quando o interesse romântico Emmett (David Call) entra no filme. A relação entre os dois se sustenta por boa parte do filme de forma bem natural, graças a "atração" entres eles, que convence bem - por mais que não seja um grande exemplo de beleza, Emmett tem um humor e otimismo contagiante e atraente, enquanto Alice é aquela típica garota linda, mas acessível, sendo assim o casal combina bem.

Entretanto, nem tudo são flores no próprio roteiro, onde alguns pontos evidenciam a falta de experiência da roteirista. Um espectador mais experiente e habituado a ver filmes com mais frequência, logo vai perceber certos padrões que o filme vai seguindo, e descoberta após descoberta isso vai tornando a trama bastante previsível. Outro ponto que não ajuda muito é a utilização de personagens interlocutores, como Sadie (Ali Ahn), a amiga de Alice que basicamente tem a função de explicar como a protagonista deve se sentir, o que a torna apenas um elemento de apoio para o filme, e não uma pessoa naquele universo.

Isso faz com que suas cenas tenham situações e diálogos muito expositivos, empobrecendo um pouco o desenvolvimento da narrativa, até porque já há flashbacks constantes revelando ao espectador explicitamente o que aconteceu no passado. Vale lembrar que, às vezes, menos é mais, ou seja, escolher entre os flashbacks ou personagens de apoio poderia ter contribuído para que o filme encontrasse seu próprio caminho de contar sua história.

O elenco é bastante enxuto, mas entrega atuações de muita qualidade. Obviamente quem mais aparece é a estrela do filme Emily VanCamp, e como eu havia sugerido no início do texto, tem em mãos uma personagem bastante interessante do ponto de vista comportamental. A atriz consegue dar uma boa dimensão à personagem, embora o filme não se aprofunde muito na sua questão psicológica. O pai de Alice, interpretado por Michael Cristofer, embora apareça pouco (assim como o chefe e a mãe dela), também consegue fazer com que o espectador acredite no seu personagem controlador. Já o co-protagonista Milan Daneker (Michael Nyqvist), aparece um pouco mais - até por ser peça importantíssima para o filme - e também convence como o escritor que acaba sendo um "mentor" para Alice na adolescência (a bela Ana Mulvoy-Ten, muito bem também por sinal).

Por mais que seja um filme de orçamento modesto, a produção consegue vestir adequadamente os ambientes do filme, as locações e direção de arte estão no ponto certo para auxiliar o espectador a "imergir" no filme, já que os personagens combinam de forma bem orgânica com os ambientes. A trilha sonora é bem econômica, talvez pelo baixo orçamento do filme, mas isso não incomoda de forma alguma. O estilo de direção de Marya Cohn é bem íntimo, com vários planos bem próximos dos rostos dos atores, demonstrando a importância das suas reações e expressões, combinando muito bem com o toque pessoal que o filme tem.

Concluindo, "A Garota do Livro" não é um filme espetacular, mas é bem eficiente dentro do que propõe. Sem dúvidas é um filme "de personagem" e tanto a atriz como a protagonista que ela interpreta são os motivos que tornam o filme interessante. Há uma questão central bem relevante, que diz respeito à negligência paternal e os malefícios que isso pode causar na vida adulta de uma pessoa, e poderíamos até entrar no mérito psico-comportamental, de como alguém pega os trejeitos de um mentor (apesar de nunca afirmar, o filme dá várias pistas sutis disso).

Talvez tenha faltado um pouco mais de confiança no espectador para explicar menos e deixar a história se desenvolver, pois o final fica muito corrido na busca de encerrar aquele "arco" da protagonista. É claro que um produtor provavelmente vai querer um final concreto para o seu filme, mas neste caso, deixar a protagonista Alice sentir por mais tempo sua mudança interior, poderia ter obtido um resultado mais relevante como estudo de personagem. De qualquer forma, o filme tem apelo suficiente para o grande público e ao mesmo tempo acerta por evitar um monte de clichês (pelo menos até antes do terceiro ato).


Divulgaí

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